Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.

Carl Rogers

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Mães querem dar a Filhos Deficientes Intelectuais Chance de Morarem Sós



Nicolas tinha 14 anos quando decidiu ir sozinho à papelaria do bairro. A mãe, Flávia, permitiu, mas escondida atrás de árvores e postes, acompanhou a trajetória do filho até o local.
Sete anos se passaram e hoje, Nico, 21, que tem traços de autismo, trabalha em uma biblioteca em Brasília e pensa em morar sozinho.
Para muitas mães de jovens como Nicolas, é quase impossível pensar em vida independente para os filhos com deficiência intelectual.
Não é o que acontece com a economista Flávia Poppe, a biblioteconomista Ana Maranhão e a administradora Monica Mota, que querem que os filhos tenham moradia própria e independente.
Inspiradas em experiências no Reino Unido, criaram o Instituto JNG (iniciais dos filhos João, Nicolas e Gabriella) com a meta de discutir e desenvolver um projeto piloto de moradia independente para jovens com deficiências intelectuais, como seus filhos.
“As famílias e a sociedade falam em inclusão na escola, no trabalho, mas se esquecem da moradia. Talvez por não acreditarem que seja possível. Mas é possível, basta acreditar e dar meios”, afirma Ana Maranhão, mãe de João, 19.
Autista, João é filho único. “Como vai ser quando não estivermos mais aqui? Quem vai cuidar dele? É preciso construir alternativas saudáveis para que eles vivam bem após a morte de seus responsáveis.”
Por falta de informações e de uma rede de acolhimento, os pais tendem a superproteger os filhos com deficiência intelectual, tratando-os como crianças mesmo já adultos.
“É erro. Confundem os limites entre proteger e impedir que seus filhos se desenvolvam”, diz Flávia, que preside o Instituto JNG, que será inaugurado na terça-feira, no Rio.
Segundo a economista, é preciso criar um modelo de moradia e de assistência que se adapte à realidade do país.
No Brasil existem 2.611.536 pessoas com deficiência mental/intelectual, 1,5% da população, segundo o IBGE.
MORADIAS ASSISTIDAS
Flávia e as amigas fizeram uma série de visitas a moradias assistidas no Reino Unido. “Lá, o morador deficiente passa por avaliação em que as habilidades são valorizadas. E recebem suporte para lidar com as deficiências.”
Por exemplo, há moradores com mais dificuldade para atividades como fazer compras. Outros não conseguem preparar um lanche sozinhos. Então, recebem ajuda pontual.
Na Inglaterra, a maioria das moradias assistidas é subsidiada pelo governo e funciona em edifícios de seis a oito apartamentos. Apenas um cuidador coletivo fica 24 horas no local e é responsável por todos.
Para Ana Maranhão, esse modelo dá autonomia. “Se você reúne numa mesma casa três ou quatro, com um cuidador, a tendência é haver um nivelamento para baixo e não um estímulo às habilidades de cada um.”
Ela dá o exemplo de como o filho, que não faz a barba sozinho, tenta progredir.
“Ele já tentou, mas se machuca. Agora, tenta com o barbeador, mas os pelos são ralos. Se estivesse numa casa com mais três, é possível que o cuidador fizesse a barba de todos”

domingo, 25 de agosto de 2013

De volta ao café





A cafeína é a única droga psicoativa que podemos usar sem o menor sentimento de culpa. Há um ano, fiz essa afirmação nesta coluna depois de ler um artigo do "The New England Journal of Medicine", a revista médica de maior circulação mundial. Semanas atrás, a Folha resumiu um estudo publicado na revista "Mayo Clinic Proceedings" que aponta em outra direção.
Com base nessa aparente contradição, João Luiz Neves, de Curitiba, enviou para o Painel do Leitor a pergunta a mim dirigida: "E agora, doutor, como proceder?".
Somos bombardeados diariamente com mensagens de saúde conflitantes. A internet está abarrotada de sites e de e-mails que se propagam feito vírus, para exaltar os benefícios do alho, do limão, da maçã, do tomate orgânico, da berinjela e até da urinoterapia. O risco dessas informações médicas desencontradas é deixar o leitor descrente de todas.
Por essa razão, e pela importância do café em nossas vidas, vou comparar as duas pesquisas.
O estudo do "New England" foi patrocinado pelos Institutos Nacionais de Saúde, dos Estados Unidos. Nele, foram incluídos 229.119 homens e 173.141 mulheres saudáveis, com idades entre 50 e 71 anos.
De acordo com o número de xícaras tomadas diariamente, o grupo foi dividido em dez categorias.
Durante os 14 anos de acompanhamento, foram a óbito 33.731 homens e 18.784 mulheres. Depois de eliminar fatores como cigarro (especialmente), sedentarismo e obesidade, ficou claro haver uma relação inversa: quanto mais café, menor o número de mortes.
Além de diminuir a mortalidade geral, tomar café reduziu o número de óbitos por diabetes, doenças cardiorrespiratórias, derrames cerebrais, ferimentos, acidentes e infecções. As mortes por câncer não foram afetadas.
O efeito protetor foi diretamente proporcional ao número de xícaras ingeridas diariamente. A diminuição mais acentuada da mortalidade aconteceu no subgrupo de seis xícaras ou mais por dia: redução de 10% nos homens e 15% nas mulheres.
Essa associação foi independente da preferência por café descafeinado ou não, sugerindo que a proteção não ocorre por conta da cafeína.
Vamos à publicação da revista da "Mayo Clinic". Durante 17 anos, foram acompanhados 43.727 participantes. Nesse período, ocorreram 2.512 mortes, das quais 32% por doenças cardiovasculares.
Comparados com os que não tomavam café, entre os bebedores contumazes do sexo masculino --definidos como aqueles que consumiam diariamente mais de quatro canecas de oito onças (equivalentes a cerca de 240 mililitros)-- houve aumento da mortalidade geral. Nas mulheres, não houve diferença estatisticamente significativa.
Entre os participantes com menos de 55 anos, no entanto, tomar mais do que as quatro canecas por dia aumentou a mortalidade em 56% entre os homens e 113% entre as mulheres.
Não houve associação entre consumo de café e mortalidade por doenças cardiovasculares. Nesse caso, como relacioná-lo com as mortes por infecções, acidentes automobilísticos ou câncer?
Na comparação, o primeiro estudo tem evidências mais confiáveis: incluiu dez vezes mais participantes, acompanhados por período semelhante (14 versus 17 anos), que foram divididos em dez grupos em ordem crescente da quantidade de café ingerido por dia. Todos eles se beneficiaram.
No segundo estudo, só tiveram a mortalidade aumentada aqueles que tomavam mais de quatro canecas de 240 mililitros por dia. Ou seja, foi prejudicado apenas quem tomou mais de um litro por dia, durante 17 anos, em média.
É inexplicável porque as mulheres, quando analisadas globalmente, não apresentaram mortalidade mais alta, enquanto no subgrupo com menos de 55 anos o aumento foi de 113%.
O problema com ambos os estudos é que são retrospectivos: a decisão de tomar ou não café foi tomada no passado, de acordo com a vontade pessoal. O ideal é que fossem prospectivos, nos quais os participantes seriam acompanhados só depois de sorteados ao acaso para fazer parte do grupo dos abstêmios ou dos tomadores de café. Por razões óbvias, uma pesquisa com essas características jamais será realizada.
Por isso, caro João Luiz, pode tomar seu café sem remorsos. Por via das dúvidas, faça como eu e todas as pessoas de bom senso: evite beber mais do que um litro por dia.
Drauzio Varella é médico cancerologista. Por 20 anos dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Foi um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em presídios, ao qual se dedica ainda hoje. É autor do livro "Estação Carandiru" (Companhia das Letras). Escreve aos sábados, a cada duas semanas, na versão impressa de "Ilustrada".


Harvard ensina como fazer bebês mais inteligentes

Por Gilberto Dimenstein


Há anos tenho tentado mostrar em minhas colunas a importância de os governos e sociedade investirem mais e melhor na fase dos 0 a 3 anos das crianças.

Imagens do cérebro mostram com nitidez o impacto que cuidar das crianças nessa fase tem para o resto da vida. O retorno do investimento social é alto.

Mais uma prova acaba de ser oferecida por cientistas de Harvard: mães que amamentaram por mais tempo geraram crianças com níveis de inteligência mais altos. (Veja mais detalhes em inglês).

Vemos aí como a desigualdade começa no berço --e se propaga pelo resto da vida.
Será menos difícil melhorar a educação no Brasil (e, assim, os indicadores sociais) se a fase de zero e 3 anos for prioridade nas políticas públicas.

Aliás, uma boa notícia é que Harvard fez uma ponte, via Fundação Maria Cecília Vidigal, envolvendo universidades brasileiras, para produzir e disseminar conhecimento sobre a primeira infância.

Gilberto Dimenstein ganhou os principais prêmios destinados a jornalistas e escritores. Integra uma incubadora de projetos de Harvard (Advanced Leadership Initiative). Desenvolve o Catraca Livre, eleito o melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela Deutsche Welle. É morador da Vila Madalena.


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Estamira: a loucura e laço social




                                                    O Laço Social

O documentário nacional Estamira, produzido por Marcos Prado em 2006, possibilita um entendimento e uma reflexão sobre a saúde mental e a construção histórica da loucura em uma sociedade marcada com forte discurso psiquiátrico e medicamentoso. O desenvolvimento da psiquiatria se deu através de conceitos de normalização, embasados em uma dicotomia saúde-doença, onde o louco é colocado em um lugar de desrazão e desprezo. Entretanto, a teoria psicanalítica, à partir de um entrelaçamento com a saúde mental, possibilita um olhar diferenciado para o sofrimento humano. Os estudos de diversos autores da área vêm em contrapartida do discurso psiquiátrico do mundo pós-moderno, pois contribui para a despatologização da condição humana de incompletude e angústia.
Pautada na ética do desejo, a psicanálise possibilita um posicionamento relacionado à estruturação do ser, que se dá através do contato com o outro. Neste sentido, o que nos constitui subjetivamente, tem relação ao momento histórico e cultural que vivemos. O status do louco é definido socialmente (Foucault, 1961) – o doente mental legitimado em uma sociedade pode não ser tomado como tal em outra cultura. Louco é aquele que a sociedade reconhece como tal (Pelbart, 1989). Todavia, o discurso psiquiátrico, em nome de uma ciência neutra e pura, considera, em sua grande parte, a condição biológica como transcendente à realidade social, cultural e psicológica. Assim, há uma busca pelo enquadramento e restabelecimento de um determinado padrão de normalidade e saúde mental para uma boa convivência social, determinada por princípios morais de juízos de valor.  Se na Antiguidade o doente mental era visto como possuidor de forças malignas, na modernidade este é entendido como portador de um distúrbio genético ou cerebral que toma posse de sua lucidez e razão. O caso de Estamira revela de que maneira o entrelaçamento social de exclusão reflete na condição do sujeito. Diagnosticada com esquizofrenia, ela representa, assim como o lixo - no qual convive e tem contato diariamente - o resto e o desmerecimento de um sistema de estruturação econômico.
A primeira revolução industrial, que ocorreu por volta do fim do século XVIII, trouxe consigo a necessidade de impor disciplina aos trabalhadores, iniciando um movimento de exclusão dos improdutivos, mendigos e pobres. Prática que se intensificou com a ascensão da burguesia. É neste processo, então, que nasce a psiquiatria. A loucura tornou-se objeto de estudo e classificação, pautada em um reducionismo biológico extremo. No Brasil, esta especialidade médica se impõe como instância de controle social dos indivíduos e das populações (Devera, 2005). Enquanto problema social e ameaça a um bom funcionamento do sistema econômico vigente, diversas instituições para o controle do doente mentais foram inauguradas. O enlace com a história de vida de Estamira indica os prejuízos que tal posicionamento pode acarretar na singularidade do louco.
A Escuta do Desejo
O diretor do filme assumiu um papel de escuta. Marcos Prado permite que Estamira revele a sua verdade ao mundo, sem barrar ou impor testes de realidade, dando espaço à escuta de um ser desejante, no entanto, com ausência de qualquer expressão e intenção psicanalítica (Juhas, Santos, 2011). Através da linguagem, expressa nas falas da personagem, o seu discurso revela uma posição subjetiva de estrutura, ao contrário da posição psiquiátrica que pretende “normalizar” os quadros de alucinação através dos medicamentos. Nos momentos em que Estamira está sobre seus efeitos, não há espaço para exteriorização do desejo, pelo contrário, seu discurso fica atravessado pela confusão mental causada pela medicação.
Psicopatologia
Do ponto de vista subjetivo, Estamira identificou-se fortemente com o lixo. Além disso, sua história de vida foi marcada por uma função materna de simbiose, sem espaço para que a castração fosse comprida pela função paterna. Posteriormente, eventos e situações-limite, como a ocorrência de dois estupros, seguiram-se de experiência alucinatórias, relatadas por uma das filhas de Estamira no documentário. É possível notar um ego fragilizado também em questões que envolvem melancolia, como diz a personagem: “a minha depressão é imensa”.
A Lucidez e a “Inlucidez”
Estamira faz diversas críticas em relação ao trabalho, à educação e a medicalização. Diversas cenas causam grande choque ao telespectador, pois o faz refletir e pensar sobre questões da ordem social e subjetiva. Se a personagem é capaz de ter lucidez em seu discurso, isso demonstra que tais percepções não são da ordem cognitiva; deste modo, o caso contraria a tese psiquiátrica de que o doente mental nada pode produzir de útil para a sociedade. Estamira sustenta uma verdade. Ela revela o resto que negamos em nós mesmos. É chocante, pois nos obriga a lidar com nossas angústias e sofrimentos, diante da incompletude da vida. Convoca-nos a um retorno dirigido para a criança presente em qualquer adulto. O infantil que teve sua onipotência desconstruída pela castração. Ao mesmo tempo, traz à tona a maneira como encaramos o conceito de normalidade e insanidade, demonstrando que ignoramos o paradigma na qual a ciência assume diante de tais indivíduos que são vistos como “desajustados” e inaptos para a convivência social.
Sobre o Autor:

Marcos Fêo Spallini - Estudante de Psicologia da UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba)

domingo, 18 de agosto de 2013

Cala a boca já morreu?


"Cala a boca, menino!" Essa frase já foi usada com regularidade por muitos pais há algum tempo. Quando a criança interrompia uma conversa de adultos com insistência, quando falava o que não deveria falar, quando o momento exigia silêncio, por exemplo, a frase era dita com tranquilidade pelos adultos.
O mais interessante é que a expressão não era considerada agressiva, tampouco humilhante, nem pelos adultos nem pela própria criança. Era como dizer "Fica quieta, menina!" de modo mais incisivo, quando a situação assim o exigia.
Com o passar do tempo, os conceitos de educação dos filhos mudaram, a maneira de tratar a criança mudou e os adultos passaram a buscar uma convivência com os filhos que fosse mais respeitosa. Deixamos, pouco a pouco, de tratar as crianças como se elas não tivessem sentimentos reativos à maneira como os adultos se relacionavam com ela.
Essas mudanças provocaram transformações na formação da criança: ela passou a ser mais questionadora, a ter mais presença e a ser reconhecida como integrante do grupo familiar, com direitos, e não apenas com o dever de obedecer aos pais. Surgiu, então, uma frase: "Cala a boca já morreu".
A transição de uma fase à outra não ocorreu sem percalços, é claro. Muitos pais se perderam, as crianças passaram a ser o centro da família e tornaram-se ruidosas, exigentes, autoritárias até. Foi então que passou a circular no mundo adulto a ideia de que as crianças não têm limites e esse conceito pegou.
O mundo dos adultos mudou concomitantemente: a juventude deixou de ser uma etapa da vida e passou a ser um estilo de viver e isso levou o adulto a viver mais para si e a ter grandes dificuldades de renunciar ao que considera importante em sua vida. A busca da felicidade transformou-se em meta de vida e isso fez com que problemas e dificuldades que surgiam no trajeto da vida fossem ignorados ou contornados para que desaparecessem.
Como consequência dessa nova forma de estar no mundo, tanto de crianças quanto de adultos, surgiram contradições. Os adultos querem tranquilidade e filhos ao mesmo tempo. As crianças querem ser atendidas e, hiperestimuladas, tornam-se agitadas e fazem os pais perderem a paciência em curto espaço de tempo. Como conciliar a convivência de expectativas tão distintas?
O avanço tecnológico nos permitiu ressuscitar o "Cala a boca, menino!". Por onde andamos, vemos crianças entretidas com tablets, aparelhos celulares, reprodutores de vídeos portáteis. Em restaurantes, em carros, em hotéis, em praias, vemos crianças hipnotizadas com as traquitanas tecnológicas.
A televisão já ocupou esse lugar, tanto que foi chamada de "babá eletrônica". Mas ela tem restrições: só pode ser usada em casa. Agora, esses outros recursos possibilitam que as crianças deixem de perturbar os pais em qualquer lugar.
A tecnologia e a internet e suas amplas possibilidades fazem parte da vida de nossas crianças e são recursos que podem ser usados de modo rico e favorável a elas. Mas, dessa maneira que as temos usado, é apenas mais um estímulo que se junta a tantos outros.
É ingenuidade pensar que a criança se acalma com seu uso. Ela se agita mais ainda sem ter alvo certo, sem aprender a dirigir sua energia para o que precisa, torna-se ainda mais dispersa.

O "Cala a boca, menina!" de hoje é bem mais sofisticado e sedutor, mas continua a ser um "cala a boca".

Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Cotidiano".

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Palavras de amor por Contardo Calligaris


Os sentimentos funcionam como picadas de mosquito, que coçamos e recoçamos até que se tornem feridas infectadas e, às vezes, septicemias generalizadas (quem sabe fatais). Salvo um exercício difícil de autocontrole, qualquer picada pode adquirir uma relevância desmedida: a gente tende a se coçar muito além da conta porque descobre que se coçar não é um alívio, mas um prazer autônomo em si.
Por isso mesmo, em geral, não confio nos sentimentos -nem nos meus, nem nos dos outros. Não é que eu supunha que os humanos mintam quando amam, odeiam ou se desesperam no luto. Nada disso.
Apenas verifico que os sentimentos, em geral, são condições autoinduzidas: transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos, que, se não procuram sarnas para se coçar (como diz o ditado), no mínimo adoram coçar as sarnas que eles têm. Detalhe: coçando, aumenta o prurido, assim como aumentam a vontade e o prazer de se coçar.
Tomemos o exemplo do amor. Eu encontro, conheço ou vislumbro de longe alguém que preenche algumas condições básicas para que eu goste dela. Sussurrando entre quatro paredes ou gritando em praça pública, anotando no meu diário ou escrevendo para grandes editoras, passo a encher o ar ou as páginas com as descrições da beleza inigualável de minha amada e com as declarações hiperbólicas de meu sentimento.
Claro, minha prosa ou poesia poderão, quem sabe, conquistar meu objeto de amor, mas esse é um efeito colateral. O efeito mais importante (e esperado) de minhas palavras de amor não é tanto o de seduzir o objeto de meus sonhos, mas o de eu me apaixonar cada vez mais. Pois a intensidade do meu amor será diretamente proporcional à insistência e virulência de minhas declarações.
Em linguística, chamamos performativas aquelas expressões que, ao serem proferidas, constituem o fato do qual elas falam. Exemplo clássico: um chefe de Estado dizendo "Declaro a guerra" -essa frase é a própria declaração de guerra.
Dizer que sou apaixonado, que odeio ou que me desespero no luto talvez não sejam propriamente performativos. Mas se trata, no mínimo, de semiperformativos, ou seja, talvez os sentimentos existam antes de serem declarados, mas eles só crescem e tomam conta da gente na hora de serem ditos, descritos e contados -na hora de sua declaração, pública ou privada.
Há três razões pelas quais o amor é absolutamente indissociável da literatura amorosa. A primeira é que a gente aprende a amar e a declarar o amor pela literatura. A segunda é que o amor se tornou relevante em nossa vida à força de ser descrito e idealizado pela literatura. A terceira é que o amor, como sentimento, é um efeito das palavras que o expressam: a literatura nos instiga a amar tanto quanto nossas próprias declarações amorosas.
Acabo de terminar a prazerosa leitura de "Como os Franceses Inventaram o Amor" (editora Prumo). Nele, Marilyn Yalom percorre a literatura francesa e revela que ela é um repertório completo do amor.
A coisa começa com o triângulo amoroso, que não é um acidente ou um imprevisto do amor; ao contrário, o amor começa, mil anos atrás, com o triângulo amoroso. Tristão escolta Isolda, a futura esposa de seu tio, e se apaixona por ela. Lancelote venera seu rei Artur, mas se apaixona pela rainha. E, em geral, os poetas do amor cortês amam damas casadas (e frequentemente fiéis a seus senhores, aliás).

A França é, para Yalom, a pátria do amor. Não só pela riqueza de sua literatura, mas justamente porque, na cultura francesa, do amor cortês do século 12 até as conversas das preciosas nos salões parisienses do século 17 (que Molière ridicularizava, mas também admirava), amar é, antes de mais nada, uma arte de dizer, de ser efeito das próprias palavras que usamos ao declarar e descrever nosso sentimento.
Alguns acham que falta amor em sua vida. Como Emma Bovary ou Anna Kariênina (extraordinária a tradução de Rubens Figueiredo, pela Cosac Naify), temem que, sem amor, sua vida nunca chegue a ter a dignidade de um romance. A eles, recomendo paciência: os tempos mudam, e talvez se afirme hoje, aos poucos, uma retórica nova, menos sentimental, capaz de dar valor literário a uma vida sem amores e paixões.
Outros se queixam dos estragos que o excesso de amor faz em sua vida. Aqui a cura é simples: eles não vão acreditar, mas basta se calar um pouco, assim como é suficiente não se coçar para que as picadas de mosquito parem de incomodar.

Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve às quintas na versão impressa de "Ilustrada".

domingo, 11 de agosto de 2013

Raiva é o que mais motiva homens a beberem, Segundo Estudo Americano



Homens e mulheres têm motivações diferentes para beber e suas emoções também são afetadas de maneira diversa pelo consumo do álcool, indica um estudo realizado pela Universidade de Vermont, nos EUA. As informações são do jornal “Daily Mail”.
Realizada com 246 pessoas consideradas alcoólatras, a pesquisa descobriu que a maior motivação para os homens beberem é a raiva.
Além disso, também foram analisados os níveis de felicidade e tristeza dos participantes, mas nenhuma das duas emoções foi considerada um “gatilho” específico para o consumo do álcool.
Apesar dos pesquisadores terem presumido que após beber os participantes relatariam um nível menor de tristeza e raiva, o resultado do estudo demostrou justamente o contrário.
As pessoas de ambos os sexos afirmaram estar menos felizes um dia após após beberem, mas as mulheres ficaram muito mais tristes que os homens.
Com os resultados, os pesquisadores da universidade americana afirmaram que esperam contribuir de maneira importante para o desenvolvimento de tratamentos e novos meios de prevenção do alcoolismo.


Fonte: UOL Comportamento

domingo, 4 de agosto de 2013

Depressão altera o Cérebro, mostra Estudo feito nos Estados Unidos



Usando imagens de ressonância magnética funcional, pesquisadores descobriram alterações no cérebro de crianças em idade pré-escolar com depressão que não foram observadas em crianças com o mesmo perfil, mas que não tinham o distúrbio.
Publicado na edição de julho do periódico The Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, o estudo examinou 23 crianças de quatro a seis anos que tinham recebido o diagnóstico de depressão e 31 crianças com o mesmo perfil, porém saudáveis.
Os pesquisadores usaram testes devidamente validados para diagnosticar a depressão. Eles também excluíram do estudo as crianças com distúrbios neurológicos, autismo ou atrasos no desenvolvimento, e as que nasceram prematuras. Nenhuma das crianças participantes tomava antidepressivos.
As crianças realizaram exames de ressonância magnética cerebral enquanto visualizavam imagens de rostos alegres, tristes, amedrontados e inexpressivos. Os pesquisadores descobriram que a atividade da amígdala e do tálamo direitos era significativamente maior nas crianças com depressão, o que também tinha sido observado em adolescentes e adultos com depressão.
“Nós descobrimos algo no cérebro que é compatível com a ideia de modelos neurobiológicos da depressão – as partes do cérebro envolvidas e como elas interagem”, afirmou Michael S. Gaffrey, principal autor do estudo e professor adjunto no departamento de psiquiatria da Universidade de Washington, em St. Louis.
“Podemos começar a utilizar essa informação, juntamente com outras, – sintomas, outros marcadores biológicos – para identificar e posteriormente prevenir e tratar esse distúrbio”, finaliza.

Fonte: Primeira Edição