Os sentimentos funcionam como picadas de mosquito, que
coçamos e recoçamos até que se tornem feridas infectadas e, às vezes,
septicemias generalizadas (quem sabe fatais). Salvo um exercício difícil de
autocontrole, qualquer picada pode adquirir uma relevância desmedida: a gente
tende a se coçar muito além da conta porque descobre que se coçar não é um
alívio, mas um prazer autônomo em si.
Por isso mesmo, em geral, não confio nos sentimentos -nem
nos meus, nem nos dos outros. Não é que eu supunha que os humanos mintam quando
amam, odeiam ou se desesperam no luto. Nada disso.
Apenas verifico que os sentimentos, em geral, são condições
autoinduzidas: transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos,
que, se não procuram sarnas para se coçar (como diz o ditado), no mínimo adoram
coçar as sarnas que eles têm. Detalhe: coçando, aumenta o prurido, assim como
aumentam a vontade e o prazer de se coçar.
Tomemos o exemplo do amor. Eu encontro, conheço ou vislumbro
de longe alguém que preenche algumas condições básicas para que eu goste dela.
Sussurrando entre quatro paredes ou gritando em praça pública, anotando no meu
diário ou escrevendo para grandes editoras, passo a encher o ar ou as páginas
com as descrições da beleza inigualável de minha amada e com as declarações hiperbólicas
de meu sentimento.
Claro, minha prosa ou poesia poderão, quem sabe, conquistar
meu objeto de amor, mas esse é um efeito colateral. O efeito mais importante (e
esperado) de minhas palavras de amor não é tanto o de seduzir o objeto de meus
sonhos, mas o de eu me apaixonar cada vez mais. Pois a intensidade do meu amor
será diretamente proporcional à insistência e virulência de minhas declarações.
Em linguística, chamamos performativas aquelas expressões
que, ao serem proferidas, constituem o fato do qual elas falam. Exemplo
clássico: um chefe de Estado dizendo "Declaro a guerra" -essa frase é
a própria declaração de guerra.
Dizer que sou apaixonado, que odeio ou que me desespero no
luto talvez não sejam propriamente performativos. Mas se trata, no mínimo, de
semiperformativos, ou seja, talvez os sentimentos existam antes de serem
declarados, mas eles só crescem e tomam conta da gente na hora de serem ditos,
descritos e contados -na hora de sua declaração, pública ou privada.
Há três razões pelas quais o amor é absolutamente
indissociável da literatura amorosa. A primeira é que a gente aprende a amar e
a declarar o amor pela literatura. A segunda é que o amor se tornou relevante
em nossa vida à força de ser descrito e idealizado pela literatura. A terceira
é que o amor, como sentimento, é um efeito das palavras que o expressam: a
literatura nos instiga a amar tanto quanto nossas próprias declarações
amorosas.
Acabo de terminar a prazerosa leitura de "Como os
Franceses Inventaram o Amor" (editora Prumo). Nele, Marilyn Yalom percorre
a literatura francesa e revela que ela é um repertório completo do amor.
A coisa começa com o triângulo amoroso, que não é um
acidente ou um imprevisto do amor; ao contrário, o amor começa, mil anos atrás,
com o triângulo amoroso. Tristão escolta Isolda, a futura esposa de seu tio, e
se apaixona por ela. Lancelote venera seu rei Artur, mas se apaixona pela
rainha. E, em geral, os poetas do amor cortês amam damas casadas (e
frequentemente fiéis a seus senhores, aliás).
A França é, para Yalom, a pátria do amor. Não só pela
riqueza de sua literatura, mas justamente porque, na cultura francesa, do amor
cortês do século 12 até as conversas das preciosas nos salões parisienses do
século 17 (que Molière ridicularizava, mas também admirava), amar é, antes de
mais nada, uma arte de dizer, de ser efeito das próprias palavras que usamos ao
declarar e descrever nosso sentimento.
Alguns acham que falta amor em sua vida. Como Emma Bovary ou
Anna Kariênina (extraordinária a tradução de Rubens Figueiredo, pela Cosac
Naify), temem que, sem amor, sua vida nunca chegue a ter a dignidade de um
romance. A eles, recomendo paciência: os tempos mudam, e talvez se afirme hoje,
aos poucos, uma retórica nova, menos sentimental, capaz de dar valor literário
a uma vida sem amores e paixões.
Outros se queixam dos estragos que o excesso de amor faz em
sua vida. Aqui a cura é simples: eles não vão acreditar, mas basta se calar um
pouco, assim como é suficiente não se coçar para que as picadas de mosquito
parem de incomodar.
Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em
psicologia clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e
foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley.
Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo
(patológicas e ordinárias). Escreve às quintas na versão impressa de
"Ilustrada".
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