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Resumo: Este artigo investigou de forma geral aspectos
históricos, sua perspectiva na atualidade, bem como as técnicas atuais de
intervenção psicocirúrgica. Logo em seu surgimento as técnicas de psicocirurgia
foram alvo de grandes escândalos e insucessos, causando uma má impressão em
toda a população, o que se reflete ainda hoje; Perpassamos por alguns aspectos
éticos para que se possa ter uma visão mais ampla acerca dos cuidados atuais
tomados para que se realize esse procedimento em último caso e de forma que o
paciente tenha o total controle sobre a decisão de permitir ou não a
intervenção. Para finalizar compilamos rapidamente as quatro técnicas
atualmente utilizadas principalmente para o tratamento de pacientes refratários
com TOC ou transtorno de ansiedade grave. E identificamos a necessidade de este
procedimento continuar evoluindo para atingirmos uma maior eficácia na sua
aplicação.
Palavras-chave: psicocirurgia, técnicas, tratamento, TOC
1. Introdução
Um dos grandes desafios das psicoterapias sempre foi lidar
com aqueles pacientes que não respondem positivamente ao tratamento, seja
psicoterápico ou farmacológico. Com o advento dos procedimentos cirúrgicos,
este cenário parecia se encaminhar para uma mudança, uma vez que a
psicocirurgia facilitaria a vida destes pacientes com transtornos mentais
graves. Todavia, como defende Ballone (2005), os métodos iniciais do tratamento
neurocirúrgico conduziram este procedimento ao descrédito e ao fracasso, devido
ao seu uso indiscriminado e consequentemente ao grande número de pacientes que
morreram em decorrência das péssimas condições desta intervenção, a exemplo dos
grandes sanatórios, que se tornaram verdadeiros centros de tortura dos
“excluídos da sociedade”. Tanto que quando se fala em psicocirurgia, a maioria
das pessoas ainda associa esta técnica com as lobotomias e leucotomias que eram
praticadas por volta de 1935.
Não obstante a isso, esta técnica tem sofrido, ao decorrer
do tempo, inúmeras interferências das diversas áreas do conhecimento, como a
Bioética, Medicina e Psicologia, que se preocupam, sobretudo, com a integridade
moral e física do indivíduo.
Corroborando com isto, as pesquisas da neurociência têm
favorecido esta intervenção com uma maior precisão das especificidades
funcionais de cada área cerebral.
Assim sendo, considera-se a grande valia para os
profissionais da saúde mental conhecer esta via de tratamento e os efeitos que
pode promover aos indivíduos que recorrem a ela. Por envolver muitas
restrições, aspectos éticos e ser uma área em plena expansão, é imprescindível
aprofundar os conhecimentos neste tema.
2. Desdobramento Histórico
Pode-se considerar a trepanação como a cirurgia neurológica
mais antiga, com achados arqueológicos de crânios perfurados, desde o período
neolítico. Este procedimento tinha como objetivo espantar maus espíritos e
demônios, que atormentavam o comportamento dos antigos pacientes, causando a
loucura e doença do cérebro (NETO, 2011; SABBATINI, 1997).
O cérebro sempre foi um órgão considerado “proibido” para
estudos, por não se ter o conhecimento detalhado da anatomia e da correlação
funcional precisa. Com a descoberta de que certas partes do cérebro são
responsáveis pelo temperamento, fala, emoções e intelecto, a “porta” para
psicocirurgia começava a se abrir. Em 1935, o neurologista português Antônio
Caetano de Abreu Freire Egas Moniz, após observações clínicas em hospitais, a
familiaridade com a ideia de plasticidade cerebral, estudo sobre o caso de Phineas
Gage, e estudos decorrentes de uma cirurgia realizada em chimpanzés que se
tornaram dóceis e passivos após a retirada dos lobos frontais, juntamente com
seu assistente Almeida Lima, realizou a primeira cirurgia em pacientes
psicóticos (NETO, 2011; SABBATINI, 1997; MASIERO, 2003).
Egas Moniz, seu assistente Lima, e os neurologistas Walter
Freeman e James Watts criaram duas técnicas que eram aplicadas a fim de
conseguir uma modificação comportamental ou eliminar sintomas psicóticos,
chamadas lobotomia e leucotomia. A leucotomia refere-se ao corte da substância
branca, enquanto a lobotomia seria a secção de todo um lobo. (NETO, 2011;
SABBATINI, 1997; MASIERO, 2003).
A psicocirurgia foi então, introduzida como uma opção de
tratamento para doença mental severa. Seu aspecto polêmico faz com que tenha
períodos de aprovação eufórica e outros de rejeição pela classe médica e pela
sociedade leiga. (BALLONE, 2005)
Em 1949 Egaz Moniz ganhava o prêmio Nobel de Medicina por
causa de sua inovadora técnica cirúrgica chamada lobotomia pré-frontal
(retirada de uma parte do lobo frontal do cérebro), indicada para alguns
transtornos mentais graves e de difícil controle. Essa técnica frequentemente
deixava sequelas cognitivas e de personalidade devastadoras, impregnando definitivamente
o raciocínio de leigos em medicina sobre esses procedimentos (BALLONE, 2005).
Em 1954, com a descoberta e introdução de clorpromazina para
o tratamento psiquiátrico, o controle satisfatório da doença psiquiátrica
tornou-se positivo. Essa disponibilidade da medicação psicotrópica, mais os
efeitos colaterais da psicocirurgia realizada até então, e mesmo seu uso
excessivo e sem critérios nas décadas anteriores levaram ao abandono quase
completo da cirurgia para doença mental. (BALLONE, 2005).
2.1 As psicocirurgias na atualidade
Atualmente, as psicocirurgias são feitas, mas existem muitas
restrições. O foco deste tipo de intervenção é voltado para aqueles pacientes
que não correspondem mais às intervenções da psicoterapia nem as interferências
dos fármacos. Ou seja, casos extremamente graves que comprometem e incapacitam
totalmente o indivíduo. Entretanto, a intervenção cirúrgica só pode ser
realizada mediante a comprovação dos efeitos positivos que serão decorrentes
dela.
[...] alguns pacientes deixam de responder adequadamente a
todas as intervenções terapêuticas existentes e continuam gravemente
incapacitados. Para esses pacientes, a intervenção cirúrgica poderia ser
considerada apropriada se o nível global de funcionamento pudesse ser melhorado
(COSGROVE, 2003, p. 2).
Segundo Cosgrove (2003), todo o processo de descoberta das
bases biológicas das doenças mentais facilitou, com o decorrer do tempo, e
continua facilitando maior precisão para a realização das psicocirurgias. Uma
vez descoberta a "origem" das doenças mentais, ou seja, a área
específica do cérebro onde ela está localizada, a precisão da intervenção
cirúrgica será ainda mais precisa e eficaz, uma.
vez que esse tipo de tratamento consiste em romper o tecido
cerebral comprometido com o objetivo de reduzir os sintomas dos transtornos
mentais. Conforme a Organização Mundial da Saúde, a psicocirurgia é o campo da
neurocirurgia voltado à remoção cirúrgica seletiva e/ou destruição de vias
neurais, com a finalidade de modificar ou influenciar certos comportamentos
(NETO, 2011).
Este procedimento, além de questões emocionais e sociais,
envolve dilemas éticos. A começar pela ambiguidade do tema, pois se trata de um
recurso terapêutico, mas também se refere a um procedimento experimental. Ainda
neste sentido, surgem os desafios de apresentar documentos que comprovem que
foram utilizados, sem efeito, todos os procedimentos não invasivos possíveis,
que não são obrigatórios por enquanto, fazendo com que esta questão torne os
procedimentos psicocirúrgicos, muitas vezes, utilizados sem a devida
necessidade (BOMBARDA, ALVES E BACHESCHI, 2004).
Conforme Bombarda, Alves e Bacheschi (2004), baseado nisso,
o Conselho Federal de Medicina ampara-se em duas resoluções para a realização
das psicocirurgias. A primeira é fundamentada nas normas da ONU de 17/12/1991,
que prevê 25 princípios para a Proteção de Pessoas Acometidas de Transtorno
Mental e para a Melhoria da Assistência à Saúde Mental, onde a psicocirurgia é
englobada no princípio 11, que determina o consentimento para o tratamento por
parte do paciente e a comprovação por parte de um corpo externo de
profissionais que garantam que esse tratamento é o que melhor atende à saúde do
usuário. Já a segunda especifica estes princípios e assegura que o
consentimento do paciente não pode ser substituído pela aprovação de um corpo
de revisão.
3. Principais Técnicas
Atualmente os procedimentos psicocirúrgicos são realizados
através da técnica estereotáxica, método minimamente invasivo, que indica a
localização precisa da área do cérebro a ser lesada. A estereotaxia é guiada
por técnicas de imagens, como a ressonância magnética (RM) ou a tomografia
computadorizada (TC), e auxiliada pela fixação de um halo metálico no crânio do
paciente, que possui um sistema de coordenadas multidimensionais (MESQUITA et
al., 2008)
Existem diferentes técnicas estereotáxicas, como a
cingulotomia anterior, a capsulotomia anterior, a tractotomia do subcaudado e a
leucotomia límbica. O que varia em cada um destes procedimentos é o ponto que
será o alvo cirúrgico. Atualmente, todos estes procedimentos são realizados
bilateralmente e envolvem a desconexão de um ou mais circuitos límbicos; a
anestesia é local, com leve sedação. Todas estas técnicas podem ser usadas para
o tratamento do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) refratário, bem como
estados crônicos de ansiedade e depressão (NASSER, 2002; COSGROVE, 2003).
Estes quatro tipos de procedimentos diferem em relação à
área que visam lesar, propondo que a partir da lesão ocorra uma espécie de
correção cerebral, objetivando não a cura, mas sim uma melhora na qualidade de
vida e funcionamento do paciente (NASSER, 2002).
3.1 Cingulotomia
A cingulotomia anterior é realizada na porção anterior do
giro do cíngulo, produzindo lesões térmicas por radiofrequência. Esta técnica
resulta em uma lesão de 2 cm de altura e 8mm a 10mm de diâmetro. Segundo estudo
de Ballantine, citado por Cosgrove, há uma demora para o início do efeito
benéfico após a cingulotomia, chegando a um período de 3 a 6 meses, onde cerca
de 64% dos pacientes com depressão maior e 33% dos pacientes com TOC apresentam
uma melhora significativa. Os pacientes que apresentam transtornos afetivos
respondem melhor ao tratamento do que aqueles com TOC, e aproximadamente 40%
deles exigirão mais de um procedimento cirúrgico (NASSER, 2002; COSGROVE,
2003).
3.2 Capsulotomia
A capsulotomia anterior é executada na área cerebral chamada
cápsula interna, que liga o cérebro ao resto do sistema nervoso. Consiste na
lesão de porções do terço anterior da cápsula interna. Este procedimento pode
ser realizado mediante a radiofrequência, que seria a neurocirurgia
convencional, ou pela radiocirurgia por Gamma Knife, a qual evita a abertura do
crânio, tem grande precisão e baixa exposição à radiação do tecido cerebral
adjacente. Cosgrove cita um estudo de Mindus, onde 137 pacientes (64%), de 362,
apresentaram resultado satisfatório após o procedimento, sendo a melhora mais
significativa daqueles pacientes com depressão e TOC (NASSER, 2002; MESQUITA,
2008; LOPES et al.2004).
3.3 Tractotomia do subcaudado
A tractotomia do subcaudado visa realizar uma lesão na
região da substância inominata, precisamente abaixo da cabeça do núcleo
caudado, interrompendo a comunicação (os tratos de substância branca) entre o
córtex órbitofrontal com as estruturas subcorticais (tálamo, hipotálamo e
amígdalas). Segundo Cosgrove, as primeiras revisões pós-procedimento cirúrgico
revelam bons resultados em 68% dos casos de pacientes que sofriam de depressão
e 50% dos que pacientes com TOC. É importante ressaltar que pacientes
portadores de esquizofrenia, transtorno de personalidade, abuso de substâncias
psicoativas ou de álcool, não apresentaram resultados positivos (RÓZ et
al.2011; COSGROVE, 2003).
3.4 Leucotomia límbica
A leucotomia límbica consiste em uma combinação entre a
cingulotomia e a tractotomia do subcaudado, sendo o tipo de cirurgia menos
utilizado. Nesta cirurgia, criam-se lesões de 6 mm no quadrante medial
inferoposterior de cada lobo frontal, provocando rompimento com conexões
frontolímbicas. Após, fazem-se duas lesões em cada giro do cíngulo, impedindo
conexões com o Circuito de Papéz. Como em outros processos de intervenção
cirúrgica a melhora não se dá de forma imediata, mas sim progressivamente.
Segundo um estudo publicado por Cosgrove, observou- se que houve melhora
clínica em 89% dos pacientes com TOC, 66% dos casos de ansiedade crônica e 78%
dos casos de depressão maior (RÓZ et al.2011; COSGROVE, 2003).
As alterações neurológicas que aparecem após estas neurocirurgias
são, na maioria das vezes, convulsões isoladas, hemorragia intracerebral,
cefaleia, aumento de peso, cansaço, marcha instável, tonturas, confusão,
retenção urinária, acentuação de traço de personalidade indesejável (LOPES et
al.2004; COSGROVE, 2003).
4. Conclusão
Conclui-se que o método de intervenção psicocirúrgico vem a
se tornar um grande aliado tanto do paciente refratário quanto da equipe médica
que o acompanha, pois visa propiciar ao indivíduo uma melhor qualidade de vida.
Por outro lado, verificou-se ser um método que precisa ser
minimamente avaliado antes de ser aplicado, valendo-se de caso a caso não
existindo um padrão especifico para realização da intervenção cirúrgica. Por
representar alto índice de risco ao paciente e possuir uma história carregada
de insucessos e erros torna-se alvo de grande insegurança mesmo em casos que é
a melhor opção de tratamento.
Acreditamos ser uma área que já evoluiu muito,
principalmente em questões do rigor para sua aplicação e métodos. E confiando
na evolução científica, espera-se que continue o desenvolvimento de exames, e
que estes proporcionem cada vez mais a precisão das áreas cerebrais para que
então, diminuam-se os riscos e elevem-se os índices de sucessos nas
intervenções alcançando um número maior de pacientes que precisam deste auxílio
para poder ter uma vida digna.
Sobre os Autores:
Referências:
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