Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.

Carl Rogers

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Onde fica o inconsciente?



Autor: Caio Nogueira

Onde fica o Inconsciente? A pergunta que abre este texto está mal formulada. E, nas ciências, quando uma pergunta é mal formulada, conduz, inevitavelmente, a conclusões erradas. Mal formulada porque o inconsciente, como a consciência, não fica em um determinado lugar do cérebro. É resultante da função do cérebro no seu conjunto, organizado pela linguagem. Salvo, é claro, os automatismos que governam, por exemplo, o ritmo respiratório, os processos metabólicos, a temperatura corporal, as sinergias neuromusculares, os batimentos cardíacos. Embora esses também sofram alterações quando o sujeito percebe ou evoca objetos, situações, acontecimentos que o perturbam.
Quando um homem cruza o olhar com uma desconhecida no metrô e seus batimentos cardíacos se aceleram, sabe que essa mulher significa algo diferente para ele, embora não saiba o que e por quê. Traços dela que evocam experiências de satisfação ou insatisfação configuraram significados imaginários que podem mudar o curso de sua vida assim como, nesse instante, mudaram seu metabolismo. Isso opera a nível inconsciente. O inconsciente não está nos olhos que miram nem no córtex occipital que recebe o estímulo óptico, nem sequer no coração acelerado, mas na rede de significações que tal percepção dispara.
A memória genética de comportamentos adaptativos que o Homo sapiens herdou na evolução das espécies mostrou-se insuficiente para assegurar a sobrevivência. Por isso, foi necessária a invenção de um sistema de memória externo ao organismo: a linguagem. Não foi uma mutação espontânea que criou as palavras, mas foram as palavras necessárias que selecionaram mutações, moldando nosso cérebro, tornando-o sensível e permeável às palavras, numa das expressões do que hoje chamamos de plasticidade. Pesquisas que vão de Terrence Deacon (premiado neuroantropólogo britânico) a Eric Kandel (Prêmio Nobel de Medicina em 2000) oferecem fundamentação científica a essa tese.
Sigmund Freud antecipou-se em 100 anos aos recentes achados das neurociências, fazendo a crítica do dualismo “mente-corpo” e oferecendo os instrumentos de clínica e pesquisa que permitiram compreender por que as experiências infantis têm o poder de moldar nosso psiquismo e o quanto elas são responsáveis pelo caráter traumático que podem assumir as experiências da vida adulta. Tal poder consiste na plasticidade com que nosso cérebro recebe, guarda e permite funcionar as configurações complexas que a linguagem lhe impõe.
Enquanto a psicanálise se ocupa em decifrar essas configurações complexas, tanto para compreender a criatividade e a dinâmica dos desejos humanos quanto para intervir clinicamente no campo da saúde mental, as neurociências avançam na descoberta dos mecanismos sistêmicos, celulares e moleculares que veiculam as transformações provocadas pelo campo da palavra. A resultante dessas duas vias de pesquisa não somente tem humanizado o tratamento das doenças mentais, mas também tem confirmado o que a psicanálise antecipou nas descobertas que a experiência clínica lhe ensinou.
Os 100 bilhões de neurônios do cérebro humano, com mais sinapses do que estrelas na galáxia, se organizam em diversos níveis: tissular, órgão, sistema. Mas há uma organização superior cujo funcionamento ainda desconhecemos. Supõe-se que reside na configuração de circuitos neuronais, incluindo também células não neuronais do tecido nervoso, que podem se modificar constantemente, estabelecer “esquemas” com memórias simples que se conectariam com outros milhares de “esquemas” para dar lugar a associações mais complexas como o pensamento, a linguagem, a consciência, o inconsciente. Ou seja: funções que se desenvolvem em cada um configurando um cérebro único.
Por isso nos surpreende que um mestre dos estudos sobre a memória como o Dr. Iván Izquierdo diga que “a psicanálise foi superada pelos estudos das neurociências, é coisa de quando não tínhamos condições de fazer testes, ver o que acontecia no cérebro“. Quais seriam os testes que nos permitiriam “ver” como se formam a linguagem, o pensamento simbólico, o desejo, o prazer, as identificações, a filiação simbólica, a representação do futuro, os laços sociais, o amor e o ódio, a racionalidade, a culpa, a consciência moral, os sonhos, os ideais, os devaneios, os delírios, as escolhas de destino? E ainda, se as pudéssemos ver, essas formações que chamamos “do inconsciente”, se configuram por um automatismo biológico espontâneo ou pela inscrição que no cérebro produzem os pais do pequeno sujeito em formação? François Ansermet (psicanalista, professor de Psiquiatria da Universidade de Lausane) e Pierre Magistretti (neurocientista, presidente da International Brain Research Organization) no seu livro A cada um seu cérebro (2004), oferecem uma resposta: “Uma biologia do inconsciente e da pulsão é hoje possível graças aos avanços recentes das neurociências”. Um avanço capaz de “oferecer ao mesmo tempo à psicanálise as verificações da biologia que Freud esperava já há algumas décadas, e às neurociências, um novo acesso às questões específicas do campo de exploração que habilita a hipótese do inconsciente”. Trata-se, então, não de “superar”, mas de conjugar os respectivos saberes: do devir de cada sujeito e do devir de cada cérebro.
 


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O que Neurociência?

Fonte:
http://neurosaber.com.br/artigos/o-que-e-neurociencia/

Você saberia dizer o que é a neurociência? Se não, você provavelmente já escutou esta palavra, correto? Embora este campo do conhecimento seja mencionado nos noticiários após a divulgação de um estudo, a maioria esmagadora das pessoas não sabe explicar o que a neurociência significa de fato, mas não precisa se culpar porque realmente não é algo fácil de conceituar. No entanto, mostraremos tudo (ou quase tudo) de forma bem tranquila para que você entenda.
Resposta resumida
Neurociência consiste no estudo sobre o sistema nervoso e suas funcionalidades, além de estruturas, processos de desenvolvimento e alguma alteração que possa surgir no decorrer da vida. É uma análise minuciosa sobre o que manda e desmanda em nossa vida.
Resposta mais detalhada
Depois de explicar em poucas linhas, agora falaremos sobre a neurociência em sua versão mais aprofundada. É importante adiantar que esta área de estudo trabalha com três elementos, a saber: o cérebro, a medula espinhal e os nervos periféricos. Mas por quê? Porque o sistema nervoso é algo complexo a quem se destina a estudá-lo a fim de desenvolver pesquisas para algum conhecimento científico ou voluntário. Sendo assim, é preciso separar por partes para que haja uma divisão que vise à facilidade de assimilação dos profissionais e estudiosos.
No entanto, a separação da neurociência não é só a que foi citada acima, pois é necessário dividir os campos que especificam a complexidade do sistema nervoso.
Parte superior do formulário
Parte inferior do formulário
Quais são esses campos?
– Neuropsicologia: esta parte estuda a interação que há entre as ações dos nervos e as funções ligadas à área psíquica.
– Neurociência cognitiva: este campo foca na capacidade cognitiva (conhecimento) do indivíduo, como o raciocínio, a memória e o aprendizado.
– Neurociência comportamental: quem segue esta linha procura estabelecer uma ligação entre o contato do organismo e seus fatores internos (emoções e pensamentos) ao comportamento visível, como a forma de falar, de se postar e até mesmos os gestos usados pela pessoa.
– Neuroanatomia: uma das partes mais complexas da neurociência, ela tem por objetivo compreender toda a estrutura do sistema nervoso. Com isso, o estudioso precisa separar o cérebro, a coluna vertebral e os nervos periféricos externos para analisar cada item com muita cautela a fim de compreender a respectiva função de cada parte e nomeá-la.
– Neurofisiologia: por último, mas não menos importante, temos a neurofisiologia, que estuda as funções ligadas às várias áreas do sistema nervoso. 
Neurociência abrange muitas áreas do conhecimento
Como deu para você perceber, a neurociência é um campo de pesquisa de extrema complexidade e está sempre em pauta, em evolução, por se tratar do sistema nervoso e suas implicações na vida de uma pessoa.
A neurociência abrange muitas áreas do conhecimento, a partir do momento em que o cérebro se torna o foco em comum de todas as neurociências; e como tudo em nossa vida se relaciona ao cérebro, essa multidisciplinaridade é plenamente justificável.
Os estudos da neurociência são contínuos e podem revelar alguma descoberta para pesquisadores que desenvolvem máquinas, equipamentos e até mesmo chips para auxiliar algum indivíduo que seja portador de uma limitação física, para citar apenas um exemplo dentre vários.
Há estudiosos também que estudam as funções que o sistema nervoso representa para as atitudes mais básicas do ser humano, como fazer um simples movimento.
Enfim, trouxemos a você um assunto complexo, mas que vale muito a pena conhecer, mesmo que um pouco, para saber que há profissionais em busca do melhor para nossa saúde sempre!


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Entenda o que é o Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD)

Entenda o que é o Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD)
Agosto de 2016


Quem de nós nunca se deparou com uma criança extremamente opositiva, desafiadora, que discute por qualquer coisa, que não assume seus erros ou responsabilidades por falhas e que costuma sempre se indispor com os demais de seu grupo ou de sua família de maneira a demonstrar que a cada situação será sempre difícil convencê-lo, mesmo que a lógica mostre que suas opções estão evidentemente equivocadas? Se você conhece uma criança assim, provavelmente ela tem Transtorno Opositivo-Desafiador.

Tal quadro leva a severas dificuldades de tempo e de avaliação para analisar regras e opiniões alheias e intolerância às frustrações, levando a reações agressivas, intempestivas, sem qualquer diplomacia ou controle emocional. Essas crianças costumam ser discriminadas, perdem oportunidades e desfazem círculos de amizades. Não raro, sofrem bullying e são retiradas de eventos sociais e de programações da escola por causa de seu comportamento difícil. Os pais evitam sair ou passear com elas e muitas vezes as deixam com parentes ou em casa. Entre os irmãos, são preteridos, mal falados e considerados como “ovelhas negras” tratados, assim, diferentes e mais criticados pelos pais.
Os sintomas podem aparecer em qualquer momento da vida, mas é mais comum entre os 6 e 12 anos. A associação com TDAH é frequente (50% dos casos), deve ser observada e investigada em todas estas crianças para que sejam tomadas as medidas necessárias, a fim de prevenir problemas de aprendizagem e baixo rendimento escolar. O ambiente doméstico costuma ser conturbado, com pais divergentes quanto ao modo de educar e conduzir o (a) filho (a) e de como estabelecer parâmetros, mas evidências mostram que existem fatores genéticos e neurofisiológicos predispondo o seu desenvolvimento.

O tratamento desta condição é multidisciplinar e depende de três eixos: medicação, psicoterapia comportamental e suporte escolar. A medicação auxilia em boa parte dos pacientes e melhora a auto-regulação de humor frente às frustrações; a psicoterapia deve centrar em mudanças comportamentais na família com medidas de manejo educacional (dar bons exemplos, dialogar com a criança, ter paciência ao falar, explicar o motivo das ordens dadas, etc.); e, em relação ao suporte escolar, deve-se oferecer apoio, reforço e abertura para um bom diálogo, pois esta abertura melhora o engajamento do aluno opositor às regras escolares e a se distanciar de maus elementos.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Estudo Mulheres Grávidas em face da Síndrome Congênita do Zika

grafico que mostra que 90% das mulheres gostariam de ter acesso ao teste da zika. durante a gravidez
O zika vírus ganhou relevância no debate público e em fevereiro foi considerado uma emergência global pela Organização Mundial da Saúde, em função da associação entre a presença do vírus em gestantes e a síndrome congênita em recém-nascidos, cuja manifestação mais evidente em um primeiro momento era a microcefalia.
Embora as mulheres estejam no centro da epidemia de zika, suas demandas e direitos estão fora do foco principal do debate público. Ante essa lacuna e a urgência na garantia de direitos, o Instituto Patrícia Galvão realizou duas pesquisas de opinião – uma qualitativa e outra quantitativa – para mapear como as mulheres grávidas têm lidado com o vírus zika, buscando trazer suas perspectivas para o centro da discussão sobre as políticas públicas de saúde, planejamento familiar e saneamento básico.
A pesquisa quantitativa, realizada em julho pelo Instituto Patrícia Galvão, em parceria com o aplicativo BabyCenter e o instituto de pesquisa Locomotiva, obteve respostas de 3.155 usuárias que se encontravam grávidas ao responder o questionário. O projeto contou com apoio da ONU Mulheres e da Fundação Ford.
Lançada no dia 02 de agosto, na Fiocruz, no Rio de Janeiro (RJ), as pesquisas repercutiram na imprensa brasileira e trouxeram a voz das mulheres neste momento de emergência pública de saúde no Brasil e no mundo.
fonte http://www.inclusive.org.br/arquivos/29630


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Controle de stress evita doenças cardíacas em mulheres




Pesquisa realizada pelo Centro Psicológico do Controle do Stress aponta que a administração do stress pode diminuir os níveis de colesterol LDL e triglicérides durante e após menopausa. Com a chegada da menopausa alguns incômodos surgem na vida das mulheres: ondas de calor, alterações repentinas de humor e dores nas articulações são sintomas comuns nessa fase. A longo prazo, outra consequência preocupante da menopausa é o aumento da incidência de doenças cardiovasculares. Uma solução para quem sofre desse problema pode ser o Treino de Controle de Stress (TCS), técnica criada pela Dra. Marilda Lipp, presidente do Centro Psicológico de Controle do Stress (CPCS). Pesquisa recente do CPCS, realizada com mulheres entre 45 e 75 anos, aponta que a técnica diminui os fatores de risco para doenças cardiovasculares. Durante o estudo o grupo de mulheres foi submetido ao método que consiste em treinar a habilidade de lidar com o stress através de psicoterapia, técnicas de relaxamento, pratica de exercícios físicos e manter uma alimentação anti-stress.

Durante o estudo 47 mulheres receberam TCS, além do tratamento médico que já estavam recebendo antes da pesquisa ser iniciada, constituindo-se do grupo experimental (GE) e 18 outras mulheres não receberam o TCS, se constituindo, assim, em um grupo controle (GC). Os critérios para verificar se o TCS seria fator significativo na melhora do quadro das pacientes foram: a redução da pressão arterial basal, mudança nos testes psicológicos, redução do nível de stress e redução dos fatores de risco identificados pelos médicos cardiologistas.

As psicocirurgias e a neuropsicologia TOC

Fonte: https://psicologado.com/neuropsicologia/as-psicocirurgias-e-a-neuropsicologia © Psicologado.com

Resumo: Este artigo investigou de forma geral aspectos históricos, sua perspectiva na atualidade, bem como as técnicas atuais de intervenção psicocirúrgica. Logo em seu surgimento as técnicas de psicocirurgia foram alvo de grandes escândalos e insucessos, causando uma má impressão em toda a população, o que se reflete ainda hoje; Perpassamos por alguns aspectos éticos para que se possa ter uma visão mais ampla acerca dos cuidados atuais tomados para que se realize esse procedimento em último caso e de forma que o paciente tenha o total controle sobre a decisão de permitir ou não a intervenção. Para finalizar compilamos rapidamente as quatro técnicas atualmente utilizadas principalmente para o tratamento de pacientes refratários com TOC ou transtorno de ansiedade grave. E identificamos a necessidade de este procedimento continuar evoluindo para atingirmos uma maior eficácia na sua aplicação.
Palavras-chave: psicocirurgia, técnicas, tratamento, TOC
1. Introdução

Um dos grandes desafios das psicoterapias sempre foi lidar com aqueles pacientes que não respondem positivamente ao tratamento, seja psicoterápico ou farmacológico. Com o advento dos procedimentos cirúrgicos, este cenário parecia se encaminhar para uma mudança, uma vez que a psicocirurgia facilitaria a vida destes pacientes com transtornos mentais graves. Todavia, como defende Ballone (2005), os métodos iniciais do tratamento neurocirúrgico conduziram este procedimento ao descrédito e ao fracasso, devido ao seu uso indiscriminado e consequentemente ao grande número de pacientes que morreram em decorrência das péssimas condições desta intervenção, a exemplo dos grandes sanatórios, que se tornaram verdadeiros centros de tortura dos “excluídos da sociedade”. Tanto que quando se fala em psicocirurgia, a maioria das pessoas ainda associa esta técnica com as lobotomias e leucotomias que eram praticadas por volta de 1935.
Não obstante a isso, esta técnica tem sofrido, ao decorrer do tempo, inúmeras interferências das diversas áreas do conhecimento, como a Bioética, Medicina e Psicologia, que se preocupam, sobretudo, com a integridade moral e física do indivíduo.
Corroborando com isto, as pesquisas da neurociência têm favorecido esta intervenção com uma maior precisão das especificidades funcionais de cada área cerebral.
Assim sendo, considera-se a grande valia para os profissionais da saúde mental conhecer esta via de tratamento e os efeitos que pode promover aos indivíduos que recorrem a ela. Por envolver muitas restrições, aspectos éticos e ser uma área em plena expansão, é imprescindível aprofundar os conhecimentos neste tema.
2. Desdobramento Histórico

Pode-se considerar a trepanação como a cirurgia neurológica mais antiga, com achados arqueológicos de crânios perfurados, desde o período neolítico. Este procedimento tinha como objetivo espantar maus espíritos e demônios, que atormentavam o comportamento dos antigos pacientes, causando a loucura e doença do cérebro (NETO, 2011; SABBATINI, 1997).
O cérebro sempre foi um órgão considerado “proibido” para estudos, por não se ter o conhecimento detalhado da anatomia e da correlação funcional precisa. Com a descoberta de que certas partes do cérebro são responsáveis pelo temperamento, fala, emoções e intelecto, a “porta” para psicocirurgia começava a se abrir. Em 1935, o neurologista português Antônio Caetano de Abreu Freire Egas Moniz, após observações clínicas em hospitais, a familiaridade com a ideia de plasticidade cerebral, estudo sobre o caso de Phineas Gage, e estudos decorrentes de uma cirurgia realizada em chimpanzés que se tornaram dóceis e passivos após a retirada dos lobos frontais, juntamente com seu assistente Almeida Lima, realizou a primeira cirurgia em pacientes psicóticos (NETO, 2011; SABBATINI, 1997; MASIERO, 2003).
Egas Moniz, seu assistente Lima, e os neurologistas Walter Freeman e James Watts criaram duas técnicas que eram aplicadas a fim de conseguir uma modificação comportamental ou eliminar sintomas psicóticos, chamadas lobotomia e leucotomia. A leucotomia refere-se ao corte da substância branca, enquanto a lobotomia seria a secção de todo um lobo. (NETO, 2011; SABBATINI, 1997; MASIERO, 2003).
A psicocirurgia foi então, introduzida como uma opção de tratamento para doença mental severa. Seu aspecto polêmico faz com que tenha períodos de aprovação eufórica e outros de rejeição pela classe médica e pela sociedade leiga. (BALLONE, 2005)
Em 1949 Egaz Moniz ganhava o prêmio Nobel de Medicina por causa de sua inovadora técnica cirúrgica chamada lobotomia pré-frontal (retirada de uma parte do lobo frontal do cérebro), indicada para alguns transtornos mentais graves e de difícil controle. Essa técnica frequentemente deixava sequelas cognitivas e de personalidade devastadoras, impregnando definitivamente o raciocínio de leigos em medicina sobre esses procedimentos (BALLONE, 2005).
Em 1954, com a descoberta e introdução de clorpromazina para o tratamento psiquiátrico, o controle satisfatório da doença psiquiátrica tornou-se positivo. Essa disponibilidade da medicação psicotrópica, mais os efeitos colaterais da psicocirurgia realizada até então, e mesmo seu uso excessivo e sem critérios nas décadas anteriores levaram ao abandono quase completo da cirurgia para doença mental. (BALLONE, 2005).
2.1 As psicocirurgias na atualidade

Atualmente, as psicocirurgias são feitas, mas existem muitas restrições. O foco deste tipo de intervenção é voltado para aqueles pacientes que não correspondem mais às intervenções da psicoterapia nem as interferências dos fármacos. Ou seja, casos extremamente graves que comprometem e incapacitam totalmente o indivíduo. Entretanto, a intervenção cirúrgica só pode ser realizada mediante a comprovação dos efeitos positivos que serão decorrentes dela.
[...] alguns pacientes deixam de responder adequadamente a todas as intervenções terapêuticas existentes e continuam gravemente incapacitados. Para esses pacientes, a intervenção cirúrgica poderia ser considerada apropriada se o nível global de funcionamento pudesse ser melhorado (COSGROVE, 2003, p. 2).
Segundo Cosgrove (2003), todo o processo de descoberta das bases biológicas das doenças mentais facilitou, com o decorrer do tempo, e continua facilitando maior precisão para a realização das psicocirurgias. Uma vez descoberta a "origem" das doenças mentais, ou seja, a área específica do cérebro onde ela está localizada, a precisão da intervenção cirúrgica será ainda mais precisa e eficaz, uma.
vez que esse tipo de tratamento consiste em romper o tecido cerebral comprometido com o objetivo de reduzir os sintomas dos transtornos mentais. Conforme a Organização Mundial da Saúde, a psicocirurgia é o campo da neurocirurgia voltado à remoção cirúrgica seletiva e/ou destruição de vias neurais, com a finalidade de modificar ou influenciar certos comportamentos (NETO, 2011).
Este procedimento, além de questões emocionais e sociais, envolve dilemas éticos. A começar pela ambiguidade do tema, pois se trata de um recurso terapêutico, mas também se refere a um procedimento experimental. Ainda neste sentido, surgem os desafios de apresentar documentos que comprovem que foram utilizados, sem efeito, todos os procedimentos não invasivos possíveis, que não são obrigatórios por enquanto, fazendo com que esta questão torne os procedimentos psicocirúrgicos, muitas vezes, utilizados sem a devida necessidade (BOMBARDA, ALVES E BACHESCHI, 2004).
Conforme Bombarda, Alves e Bacheschi (2004), baseado nisso, o Conselho Federal de Medicina ampara-se em duas resoluções para a realização das psicocirurgias. A primeira é fundamentada nas normas da ONU de 17/12/1991, que prevê 25 princípios para a Proteção de Pessoas Acometidas de Transtorno Mental e para a Melhoria da Assistência à Saúde Mental, onde a psicocirurgia é englobada no princípio 11, que determina o consentimento para o tratamento por parte do paciente e a comprovação por parte de um corpo externo de profissionais que garantam que esse tratamento é o que melhor atende à saúde do usuário. Já a segunda especifica estes princípios e assegura que o consentimento do paciente não pode ser substituído pela aprovação de um corpo de revisão.
3. Principais Técnicas

Atualmente os procedimentos psicocirúrgicos são realizados através da técnica estereotáxica, método minimamente invasivo, que indica a localização precisa da área do cérebro a ser lesada. A estereotaxia é guiada por técnicas de imagens, como a ressonância magnética (RM) ou a tomografia computadorizada (TC), e auxiliada pela fixação de um halo metálico no crânio do paciente, que possui um sistema de coordenadas multidimensionais (MESQUITA et al., 2008)
Existem diferentes técnicas estereotáxicas, como a cingulotomia anterior, a capsulotomia anterior, a tractotomia do subcaudado e a leucotomia límbica. O que varia em cada um destes procedimentos é o ponto que será o alvo cirúrgico. Atualmente, todos estes procedimentos são realizados bilateralmente e envolvem a desconexão de um ou mais circuitos límbicos; a anestesia é local, com leve sedação. Todas estas técnicas podem ser usadas para o tratamento do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) refratário, bem como estados crônicos de ansiedade e depressão (NASSER, 2002; COSGROVE, 2003).
Estes quatro tipos de procedimentos diferem em relação à área que visam lesar, propondo que a partir da lesão ocorra uma espécie de correção cerebral, objetivando não a cura, mas sim uma melhora na qualidade de vida e funcionamento do paciente (NASSER, 2002).
3.1 Cingulotomia

A cingulotomia anterior é realizada na porção anterior do giro do cíngulo, produzindo lesões térmicas por radiofrequência. Esta técnica resulta em uma lesão de 2 cm de altura e 8mm a 10mm de diâmetro. Segundo estudo de Ballantine, citado por Cosgrove, há uma demora para o início do efeito benéfico após a cingulotomia, chegando a um período de 3 a 6 meses, onde cerca de 64% dos pacientes com depressão maior e 33% dos pacientes com TOC apresentam uma melhora significativa. Os pacientes que apresentam transtornos afetivos respondem melhor ao tratamento do que aqueles com TOC, e aproximadamente 40% deles exigirão mais de um procedimento cirúrgico (NASSER, 2002; COSGROVE, 2003).
3.2 Capsulotomia

A capsulotomia anterior é executada na área cerebral chamada cápsula interna, que liga o cérebro ao resto do sistema nervoso. Consiste na lesão de porções do terço anterior da cápsula interna. Este procedimento pode ser realizado mediante a radiofrequência, que seria a neurocirurgia convencional, ou pela radiocirurgia por Gamma Knife, a qual evita a abertura do crânio, tem grande precisão e baixa exposição à radiação do tecido cerebral adjacente. Cosgrove cita um estudo de Mindus, onde 137 pacientes (64%), de 362, apresentaram resultado satisfatório após o procedimento, sendo a melhora mais significativa daqueles pacientes com depressão e TOC (NASSER, 2002; MESQUITA, 2008; LOPES et al.2004).
3.3 Tractotomia do subcaudado

A tractotomia do subcaudado visa realizar uma lesão na região da substância inominata, precisamente abaixo da cabeça do núcleo caudado, interrompendo a comunicação (os tratos de substância branca) entre o córtex órbitofrontal com as estruturas subcorticais (tálamo, hipotálamo e amígdalas). Segundo Cosgrove, as primeiras revisões pós-procedimento cirúrgico revelam bons resultados em 68% dos casos de pacientes que sofriam de depressão e 50% dos que pacientes com TOC. É importante ressaltar que pacientes portadores de esquizofrenia, transtorno de personalidade, abuso de substâncias psicoativas ou de álcool, não apresentaram resultados positivos (RÓZ et al.2011; COSGROVE, 2003).
3.4 Leucotomia límbica

A leucotomia límbica consiste em uma combinação entre a cingulotomia e a tractotomia do subcaudado, sendo o tipo de cirurgia menos utilizado. Nesta cirurgia, criam-se lesões de 6 mm no quadrante medial inferoposterior de cada lobo frontal, provocando rompimento com conexões frontolímbicas. Após, fazem-se duas lesões em cada giro do cíngulo, impedindo conexões com o Circuito de Papéz. Como em outros processos de intervenção cirúrgica a melhora não se dá de forma imediata, mas sim progressivamente. Segundo um estudo publicado por Cosgrove, observou- se que houve melhora clínica em 89% dos pacientes com TOC, 66% dos casos de ansiedade crônica e 78% dos casos de depressão maior (RÓZ et al.2011; COSGROVE, 2003).
As alterações neurológicas que aparecem após estas neurocirurgias são, na maioria das vezes, convulsões isoladas, hemorragia intracerebral, cefaleia, aumento de peso, cansaço, marcha instável, tonturas, confusão, retenção urinária, acentuação de traço de personalidade indesejável (LOPES et al.2004; COSGROVE, 2003).
4. Conclusão

Conclui-se que o método de intervenção psicocirúrgico vem a se tornar um grande aliado tanto do paciente refratário quanto da equipe médica que o acompanha, pois visa propiciar ao indivíduo uma melhor qualidade de vida.
Por outro lado, verificou-se ser um método que precisa ser minimamente avaliado antes de ser aplicado, valendo-se de caso a caso não existindo um padrão especifico para realização da intervenção cirúrgica. Por representar alto índice de risco ao paciente e possuir uma história carregada de insucessos e erros torna-se alvo de grande insegurança mesmo em casos que é a melhor opção de tratamento.
Acreditamos ser uma área que já evoluiu muito, principalmente em questões do rigor para sua aplicação e métodos. E confiando na evolução científica, espera-se que continue o desenvolvimento de exames, e que estes proporcionem cada vez mais a precisão das áreas cerebrais para que então, diminuam-se os riscos e elevem-se os índices de sucessos nas intervenções alcançando um número maior de pacientes que precisam deste auxílio para poder ter uma vida digna.
Sobre os Autores:

Referências:

Da RÓZ, L. M. et al. Psicocirurgia para tratamento de transtorno obsessivo compulsivo. Arq. Bras. Neurocir 30(3): 120-8, 2011. Disponível em <http://files.bvs.br/upload/S/0103-5355/2011/v30n3/a2705.pdf> Acesso em 13 de Maio de 2015.
NETO, A. R. S. História das cirurgias para transtornos mentais - psicocirurgia. Dilemas Éticos. Outubro de 2011. Disponível em
<http://www.neuronrn.com.br/artigo/28/historia-das-cirurgias-para-transtornos- mentais-psicocirurgia-dilemas-eticos> Acesso em 06 de Maio de 2015.
MESQUITA, A. M. et al. Capsulotomia anterior e cingulotomia anterior para o tratamento do transtorno obsessivo compulsivo. Agência Nacional de Saúde Suplementar, Rio de Janeiro, Outubro de 2008. Disponível em<http://200.214.130.94/rebrats/publicacoes/Informe_ANS_n03.pdf ?> Acesso em 13 de Maio de 2015.
NASSER, J. A. A Herança da lobotomia. Revista Galileu, Medicina e Saúde. Edição 187, Fevereiro 2007. Disponível em <http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT669589-1940-3,00.html> Acesso em 12 de Maio de 2015.
BALLONE, G. J. Psicocirurgia ou Cirurgia Psiquiátrica. PsiqWeb, Internet, revisto em 2005. Disponível em<http://www.psiqweb.med.br/>Acesso em 15 de Maio de 2015.
LOPES, A. C. et al. Atualização sobre o tratamento  neurocirúrgico do transtorno obsessivo-compulsivo. Rev. Bras. Psiquiatr.,São Paulo, v. 26, n. 1,p. 62-66, 2004. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516- 44462004000100015&lng=en&nrm=iso> Acesso: 13 de Maio de 2015.
BOMBARDA, J. M., ALVES, L. C. A.e BACHESCHI, L. A. Psicocirurgia: a busca de um equilíbrio ético. Revista Brasileira de Psiquiatria, 26(1), pp. 6-7. 2004. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rbp/v26n1/a04v26n1.pdf> Acesso em 18 de Maio de 2015.
COSGROVE, G. R.Cirurgia Para Distúrbios Psiquiátricos. MD, FRCS(C). NeuroPsicoNews - Sociedade Brasileira de Informações de Patologias Médicas – SBIPM. 2003. Disponível em <http://www.psiquiatriageral.com.br/cerebro/cirurgi a.htm> Acesso em 15 de Maio de 2015.
MASIERO, A. L. A lobotomia e a leucotomia nos manicômios  brasileiros. História, Ciências, Saúde. Manguinhos, vol. 10(2): 549-72, maio-ago. 2003. Disponível       em  <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702003000200004&script=sci_arttext Acesso em 06 de Maio de 2015.
SABBATINI,R. M. E. A História da Psicocirurgia. Revista Cérebro & Mente. Junho de 1997.Disponível em <http://www.cerebromente.org.br/n02/historia/trepan_p.htm> Acesso em 15 de Maio de 2015.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

"Primeiro sentimos, depois julgamos”.



O Professor Dr. Jorge Moll é presidente do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino. Ele investiga as bases neurais do comportamento e da cognição moral através de estudos clínicos em pacientes com distúrbios neuropsiquiátricos e experimentos com ressonância magnética funcional.
http://idor.org/images/pdf/65/Primeiro%20sentimos,%20depois%20julgamos%20-%20Mente%20C%C3%A9rebro.pdf