O Laço Social
Pautada na ética do desejo, a psicanálise possibilita um
posicionamento relacionado à estruturação do ser, que se dá através do contato
com o outro. Neste sentido, o que nos constitui subjetivamente, tem relação ao
momento histórico e cultural que vivemos. O status do louco é
definido socialmente (Foucault, 1961) – o doente mental legitimado em uma
sociedade pode não ser tomado como tal em outra cultura. Louco é aquele que a
sociedade reconhece como tal (Pelbart, 1989). Todavia, o discurso psiquiátrico,
em nome de uma ciência neutra e pura, considera, em sua grande parte, a
condição biológica como transcendente à realidade social, cultural e
psicológica. Assim, há uma busca pelo enquadramento e restabelecimento de um
determinado padrão de normalidade e saúde mental para uma boa convivência
social, determinada por princípios morais de juízos de valor. Se na
Antiguidade o doente mental era visto como possuidor de forças malignas, na
modernidade este é entendido como portador de um distúrbio genético ou cerebral
que toma posse de sua lucidez e razão. O caso de Estamira revela de que maneira
o entrelaçamento social de exclusão reflete na condição do sujeito.
Diagnosticada com esquizofrenia, ela representa, assim como o lixo - no qual
convive e tem contato diariamente - o resto e o desmerecimento de um sistema de
estruturação econômico.
A primeira revolução industrial, que ocorreu por volta do
fim do século XVIII, trouxe consigo a necessidade de impor disciplina aos
trabalhadores, iniciando um movimento de exclusão dos improdutivos, mendigos e
pobres. Prática que se intensificou com a ascensão da burguesia. É neste
processo, então, que nasce a psiquiatria. A loucura tornou-se objeto de estudo
e classificação, pautada em um reducionismo biológico extremo. No Brasil, esta
especialidade médica se impõe como instância de controle social dos indivíduos
e das populações (Devera, 2005). Enquanto problema social e ameaça a um bom
funcionamento do sistema econômico vigente, diversas instituições para o
controle do doente mentais foram inauguradas. O enlace com a história de vida
de Estamira indica os prejuízos que tal posicionamento pode acarretar na
singularidade do louco.
A Escuta do Desejo
O diretor do filme assumiu um papel de escuta. Marcos Prado
permite que Estamira revele a sua verdade ao mundo, sem barrar ou impor testes
de realidade, dando espaço à escuta de um ser desejante, no entanto, com
ausência de qualquer expressão e intenção psicanalítica (Juhas, Santos, 2011).
Através da linguagem, expressa nas falas da personagem, o seu discurso revela
uma posição subjetiva de estrutura, ao contrário da posição psiquiátrica que
pretende “normalizar” os quadros de alucinação através dos medicamentos. Nos
momentos em que Estamira está sobre seus efeitos, não há espaço para exteriorização
do desejo, pelo contrário, seu discurso fica atravessado pela confusão mental
causada pela medicação.
Psicopatologia
Do ponto de vista subjetivo, Estamira identificou-se
fortemente com o lixo. Além disso, sua história de vida foi marcada por uma
função materna de simbiose, sem espaço para que a castração fosse comprida pela
função paterna. Posteriormente, eventos e situações-limite, como a ocorrência
de dois estupros, seguiram-se de experiência alucinatórias, relatadas por uma
das filhas de Estamira no documentário. É possível notar um ego fragilizado
também em questões que envolvem melancolia, como diz a personagem: “a minha
depressão é imensa”.
A Lucidez e a “Inlucidez”
Estamira faz diversas críticas em relação ao trabalho, à
educação e a medicalização. Diversas cenas causam grande choque ao
telespectador, pois o faz refletir e pensar sobre questões da ordem social e
subjetiva. Se a personagem é capaz de ter lucidez em seu discurso, isso
demonstra que tais percepções não são da ordem cognitiva; deste modo, o caso
contraria a tese psiquiátrica de que o doente mental nada pode produzir de útil
para a sociedade. Estamira sustenta uma verdade. Ela revela o resto que negamos
em nós mesmos. É chocante, pois nos obriga a lidar com nossas angústias e
sofrimentos, diante da incompletude da vida. Convoca-nos a um retorno dirigido
para a criança presente em qualquer adulto. O infantil que teve sua onipotência
desconstruída pela castração. Ao mesmo tempo, traz à tona a maneira como
encaramos o conceito de normalidade e insanidade, demonstrando que ignoramos o
paradigma na qual a ciência assume diante de tais indivíduos que são vistos
como “desajustados” e inaptos para a convivência social.
Sobre o Autor:
Marcos Fêo Spallini - Estudante de Psicologia da
UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba)
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