Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.

Carl Rogers

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

LONGA BRASILEIRO ABORDA RELAÇÃO DE PSIQUIATRA COM SEU PRÓPRIO SOFRIMENTO POR MEIO DO CONTATO COM AS PESSOAS QUE ATENDE



A realidade é dura. O filme Era uma vez eu, Verônica é o avesso de um conto de fadas. Nada é mágico, tampouco encantador. A realidade ali aparece nua e crua. A protagonista é uma jovem recém--formada em medicina que inicia residência em psiquiatria no Hospital Central de Recife. Pacientes de verdade participam da filmagem. A loucura aparece tal qual é de fato: confusa, bruta, deprimente e invasiva. A cidade é mostrada em sua feiura – cinza, suja, sem graça. Não é um filme de ação. O que sobra para o espectador? Uma grande atriz, Hermila Guedes, ajudando Verônica a se tornar paciente de si mesma. O filme ganhou sete prêmios no Festival de Cinema de Brasília, 2012.

Corajoso, o filme prescinde de grandes momentos dramáticos. Apenas acompanhamos Verônica em suas descobertas: profissão, amor, sexo. A personagem se relaciona, mas não ama. Onde há sexo, há Verônica. Mas onde há Verônica, não há amor. O que exatamente lhe falta para ser feliz? Tem amigos, um pai que a adora, uma profissão e um emprego, um namorado que a quer cada dia mais... Verônica não sabe. Olha muito para mulheres desconhecidas e também é olhada. Será que as deseja? Tem vontade de ser cantora, mas é médica. Namora firme, mas beija outros homens e mantém relações sexuais com vários deles em qualquer folia do carnaval.
No começo de seu traballho como psiquiatra, Verônica admite que o que aprendeu na teoria não lhe serve na prática. Não sabe escutar, não sabe perguntar. Não sabe o que fazer com os pacientes nem consigo própria. Mas conversa com seu gravador. Uma primeira fala nos revela que usou o aparelho para auxiliá-la nos estudos – e não pretende usá-lo mais. Mas sua angústia a leva novamente a falar e a escutar a própria fala. Primeiramente, diz que falará da paciente Verônica. Numa segunda vez, a paciente é “eu mesma”. Por último, Verônica se diz “paciente de mim mesma”. É nesse momento que parece alcançar certa liberdade.
Verônica é paciente porque sofre, mas passa boa parte de sua vida sem saber o motivo disso. A relação com os pacientes se dá de maneira igual. Num primeiro momento, seu “coração de pedra” – como ela mesma diz – não sabe o que fazer com o outro. O impacto diante de um paciente catatônico revela a paralisia de sua própria alma. Sua impaciência com a paciente depressiva revela aquilo que evita. Podemos fazer um paralelo com a psicanálise e pensar que somente quando nos tornamos pacientes de nós mesmos é que olhamos de forma diferenciada para o próprio sofrimento. É possível dizer que Verônica sofre porque está aprisionada num determinado padrão social que espera da mulher que se dirija de modo doce e romântico ao casamento. Sofre porque transgride as normas e se furta às cobranças. Mas isso seria reduzir demais o filme. Ou ainda, que sofre porque seu pai está idoso e não vai viver muito tempo. Mas esse é o destino de todos os filhos que se tornam adultos – os pais envelhecem. É justamente porque não sabe o motivo de seu sofrimento que Verônica pode caminhar de uma situação de alienação para um momento de perguntar-se “Quem sou eu?” ou “O que desejo?”.
Verônica sofre por não se perguntar (seja lá o que for). O filme, por sua vez, nos deixa uma questão: o pai de Verônica está sempre em casa, olhando fotos, escutando frevos e às vezes bebericando. O afeto de Verônica aparece de modo intenso e exclusivo dirigido ao pai. O filme não traz uma única referência sobre a mãe. Falar dela é tabu? Mas como contar nossa história – era uma vez... – se não falarmos sobre a nossa origem?
O filme inicia e termina com uma cena de sexo grupal na praia. Mar, sol, corpos e prazeres. Fantasia das origens? Origem das fantasias? Verônica alimenta a alma nessa cena paradisíaca. Ao perguntar a alguém quem ele definitivamente é, é importante não esperar uma resposta que, definitivamente, irá nos satisfazer. Toda história tem algo de conto de fadas. Toda narrativa de si tem um limite. O psicanalista francês Jean Laplanche sustenta que o limite para uma plena articulação de si são as esmagadoras e enigmáticas impressões vindas do mundo adulto em sua especificidade sobre a criança. Elas marcarão para sempre a sua formação como sujeito.
''Era uma vez eu, Verônica'' 90 minutos – Brasil, 2012. Direção: Marcelo Gomes. Elenco: Hermila Guedes, João Miguel, W. J. Solha, Renata Roberta, Inaê Veríssimo.
Fonte: Mente e Cérebro


Fonte: http://noticias.psicologado.com/noticias-diversas/longa-brasileiro-aborda-relacao-de-psiquiatra-com-seu-proprio-sofrimento-por-meio-do-contato-com-as-pessoas-que-atende#ixzz2KmaShVmZ
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