Estadão - 07/01/2013
Cientistas brasileiros descobriram o mecanismo responsável
pela associação entre a doença de Alzheimer e a depressão. Na prática clínica,
observa-se que uma das manifestações psiquiátricas mais comuns do paciente com
Alzheimer são transtornos depressivos, que também atuam como fatores de risco
importantes para a doença degenerativa. O que não se conhecia até agora era o
mecanismo molecular exato por trás dessa relação.
O estudo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) concluiu
que neurotoxinas chamadas oligômeros de abeta, presentes em maior quantidade no
cérebro dos pacientes com Alzheimer, são capazes de levar a sintomas de
depressão em camundongos. O tratamento desses roedores com antidepressivo
reverteu o quadro depressivo e melhorou a memória.
A descoberta, que
abre a possibilidade de investigar mais a fundo a eficácia da indicação de
antidepressivos em fases iniciais do Alzheimer, foi publicada na revista
Molecular Psychiatry, do mesmo grupo que publica a Nature.
Os oligômeros,
estruturas que se agregam formando bolinhas, atacam as conexões entre os
neurônios, impedindo o processamento de informações. Como são solúveis no
líquido que banha o cérebro, eles se difundem, atacando o órgão em várias
regiões. Pesquisas anteriores demonstraram que os oligômeros são os principais
responsáveis pela perda de memória nas fases iniciais da doença.
Para testar a
hipótese de que eles também provocam depressão, os cientistas aplicaram a
toxina nos cérebros de camundongos. Após 24 horas, os animais foram submetidos
a testes que identificaram comportamentos depressivos. Mediante o tratamento
com fluoxetina, o quadro foi revertido.
"Uma boa
surpresa do estudo foi que a fluoxetina também teve efeitos positivos na
memória", diz um dos líderes do estudo, o pesquisador Sergio Ferreira, do
Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ.
Segundo o
neurologista Ivan Okamoto, membro da Academia Brasileira de Neurologia, quem
não tem histórico de depressão e desenvolve um quadro depressivo com idade mais
avançada tem de três a quatro vezes mais risco de desenvolver Alzheimer.
Agora, de acordo com
Ferreira, o desafio é entender por que os oligômeros levam também à depressão.
"Observamos que eles induzem uma reação inflamatória no cérebro dos
animais. É possível que essa reação esteja levando à depressão, mas os dados
ainda não permitem garantir isso."
Para o neurologista
Arthur Oscar Schelp, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), é difícil
reproduzir o Alzheimer em modelos animais, por isso a transposição do que se
descobre nos roedores para os seres humanos ainda é difícil. Ele observa que a
depressão predispõe ao surgimento de muitas doenças.
Adalberto Tripicchio PhD
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