Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.
Carl Rogers
sábado, 13 de dezembro de 2014
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: Novos Comentários (lançamento!)
Em 2008, ano em que a
Declaração Universal dos Direitos Humanos - adotada e proclamada pela
Assembleia Geral das Nações Unidas – completava 65 anos, o Brasil internalizou
a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da ONU: o primeiro
tratado de Direitos Humanos recepcionado com status equivalente a emenda
constitucional. Esse fato demonstrou a importância alcançada pelo tema em nosso
país e a busca incessante e permanente que o Brasil realiza na intenção de
promover e proteger os direitos humanos de sua população, notadamente das
pessoas em situação de maior vulnerabilidade.
Essa vitória foi
resultado da histórica luta do movimento político das pessoas com deficiência,
travada ao longo de décadas, em busca do exercício de sua cidadania e do protagonismo
de suas próprias vidas, em igualdade de oportunidade com o restante da
população. A internalização da Convenção pelo Brasil é também fruto de um
processo de amadurecimento dos Direitos Humanos e da sociedade como um todo,
que reconheceu a necessidade de reafirmar a dignidade e o valor inerente de
cerca de 45 milhões de brasileiros e brasileiras com deficiência (censo IBGE,
2010).
Hoje, após a comemoração
dos cinco anos da Convenção no Brasil e com o intuito de reafirmar que a pessoa
com deficiência é sujeito de direitos, temos o orgulho de publicar “Novos
Comentários à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência” afim de
que se possam analisar as barreiras até aqui encontradas, os desafios
enfrentados e as conquistas já alcançadas pelo segmento, na tentativa de
concretizar de forma definitiva sua plena e efetiva participação na sociedade
brasileira, com igualdade de oportunidades, autonomia e liberdade.
É com orgulho que a
Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, da
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, publica este livro
que traz novos olhares acerca dos 50 artigos da Convenção. A atual edição reúne
43 especialistas do tema no país, estre pesquisadores, militantes e gestores
públicos, que explicam, debatem e avaliam os artigos da Convenção, à luz de
suas experiências e estudos. Trata-se de mais um impulso ao esforço empreendido
pela secretaria de propagar para toda a sociedade os direitos garantidos pela
Convenção e pela própria Constituição Federal.
Agradecemos a todos os
autores que gentilmente participaram desta publicação e dedicamos um
agradecimento especial à Associação Nacional de Membros do Ministério Público
de Defesa dos Direitos dos Idosos e Pessoas com Deficiência - AMPID e à Ordem
dos Advogados do Brasil – OAB, pela parceria e empenho na organização desta
publicação.
Boa leitura a todas e
todos!
Antonio José Ferreira
Secretário Nacional de
Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência
Ideli Salvatti
Ministra de Estado Chefe
da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República
• Ano2014
• EditoraSecretaria de Direitos Humanos da
Presidência da República - SDH/PR
• Número de Páginas256
• Autor / OrganizadorSecretaria Nacional de
Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência – SNPD
• Edição3.00
- Arquivos.pdf - 2.1 MB, .doc - 644.5 KB, .txt - 560.05 KB
- Arquivos.pdf - 2.1 MB, .doc - 644.5 KB, .txt - 560.05 KB
domingo, 23 de novembro de 2014
Guia de ONGs - Instituto Mara Gabrilli
Neste Guia de ONGs da cidade de São Paulo, criado pelo Instituto Mara Gabrilli em parceria com o Governo de São Paulo, por meio da SABESP, você encontrará, de forma simples e objetiva, uma lista de organizações que atendem pessoas com deficiência em todas as regiões da cidade. Com informação, orientação e encaminhamento, em diferentes áreas de serviço: saúde, educação, cultura, lazer, assistência social, entre outros. Veja: http://tinyurl.com/kgqxx5n
sábado, 22 de novembro de 2014
Presidência da República veta PL das 30 horas - Argumento foi de contrariedade ao interesse público
O CRP SP continuará lutando em parceria com a FENAPSI e o SINPSI por condições de trabalho que garantam a qualidade ética e técnica da atuação profissional.
O vice-presidente Michel Temer, em exercício do cargo de presidente da República, vetou integralmente o Projeto de Lei (PL) 3.338/08, que propõe a regulamentação da jornada de trabalho de 30 horas semanais para psicólogas e psicólogos em território nacional, sem a redução de salários. A notícia saiu na seção 1/página 9 do Diário Oficial da União desta terça-feira (18/11).
De acordo com veto presidencial, foram ouvidos os ministérios do Planejamento, Orçamento e Gestão, da Fazenda e da Saúde. O argumento utilizado foi de que a medida prejudicaria os cofres municipais e o atendimento do SUS. Segundo o texto do veto, "A redução da jornada semanal proposta impactaria o orçamento de entes públicos, notadamente municipais, com possível prejuízo à política de atendimento do Sistema Único de Saúde - SUS, podendo, ainda, elevar o custo também para o setor privado de saúde, com ônus ao usuário".
A Advocacia Geral da União (AGU), o Ministério da Justiça e o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), quando visitados, afirmaram ter apresentado pareceres favoráveis ao PL das 30 horas, todavia esses pareceres não foram considerados e sequer aparecem citados no texto do veto.
E agora?
Agora, o PL volta para o Congresso, para ser analisado por representantes do Senado e da Câmara, sobre a possibilidade de rejeitar ou não o veto presidencial. No entanto, para que a decisão do presidente em exercício Michel Temer seja invalidada será necessário que haja maioria absoluta de votos tanto na Câmara como no Senado. O prazo para que isso aconteça é de 30 dias.
Leia o texto do veto na íntegra:
No- 390, de 17 de novembro de 2014.
Senhor Presidente do Senado Federal, Comunico a Vossa Excelência que, nos termos do § 1o do art. 66 da Constituição, decidi vetar integralmente, por contrariedade ao interesse público, o Projeto de Lei no 3.338, de 2008 (no 150/09 no Senado Federal), que "Dispõe sobre a jornada de trabalho do psicólogo e altera a Lei no 4.119, de 27 de agosto de 1962, que dispõe sobre os cursos de formação em Psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo".
Ouvidos, os Ministérios do Planejamento, Orçamento e Gestão, da Fazenda e da Saúde manifestaram-se pelo veto ao projeto pelas seguintes razões: "A redução da jornada semanal proposta impactaria o orçamento de entes públicos, notadamente municipais, com possível prejuízo à política de atendimento do Sistema Único de Saúde - SUS, podendo, ainda, elevar o custo também para o setor privado de saúde, com ônus ao usuário. Ademais, para além de não contar com regras de transição para os diversos vínculos jurídicos em vigor, a medida não veio acompanhada das estimativas de impacto orçamentário, em desacordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Por fim, a negociação coletiva permite a harmonização dos interesses dos gestores da saúde e representantes da categoria profissional."
Essas, Senhor Presidente, as razões que me levaram a vetar o projeto em causa, as quais ora submeto à elevada apreciação dos Senhores Membros do Congresso Nacional.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Pesquisa consegue reverter defeitos em neurônios de autistas clássicos
Por: Alysson Muotri
esta semana Jô Soares surpreendeu na TV. Em vez de começar seu tradicional programa de entrevistas com um tom humorístico, Jô deu uma aula sobre autismo. Seu filho autista, Rafael, com 50 anos, faleceu em decorrência de um tumor cerebral.
Se o tumor teve alguma relação com o autismo de Rafael não sabemos, mas é uma hipótese factível. Recentemente foi mostrado que cérebros de autistas contêm regiões com excesso de neurônios, o que, muito provavelmente, é causado por mutações em genes que regulam a divisão de células progenitoras neurais. Mas até o momento não existe nenhum estudo mostrando alta frequência de cânceres em indivíduos autistas. Nem consigo imaginar como era o mundo quando Rafael nasceu. Sabíamos muito pouco sobre autismo.
O estudo do autismo e outras doenças neurológicas é complicado porque não temos disponíveis para testes neurônios humanos de indivíduos afetados. Lógico que existem outros modelos, como o material post-mortem ou mesmo animais que simulam o comportamento autista. No entanto, nenhum desses modelos oferece as vantagens de um modelo experimental humano.
Em 2010, usamos uma nova estratégia para estudar o espectro autista, a reprogramação celular. Utilizando indivíduos com a síndrome de Rett como prova de princípio, reprogramamos células da pele em neurônios. Dessa forma, obtivemos neurônios vivos para estudos em laboratório pela primeira vez na história. Optamos por fazer isso com a síndrome de Rett porque entendemos a base genética: mutações num único gene, conhecido como MeCP2.
Descrevemos que neurônios derivados de indivíduos com síndrome de Rett eram menores e menos complexos que neurônios derivados de indivíduos não afetados. Além disso, neurônios Rett tinham dificuldade em estabelecer conexões nervosas ou sinapses. Talvez o mais impressionante foi mostrar que tratamentos com drogas experimentais foram capazes de reverter os defeitos desses neurônios, sugerindo que certas doenças do desenvolvimento neural poderiam ser tratadas ou mesmo curadas. Usando nossos métodos, outros pesquisadores reproduziram essa descoberta e também mostraram que a reversão era possível em outras formas sindrômicas de autismo, como a síndrome de Phelan-McDermid.
Na próxima semana, será publicado um novo trabalho de meu grupo, junto a colaboradores internacionais, mostrando que o que aprendemos com a síndrome de Rett também acontece com o autismo clássico (Molecular Psychiatry, 2014). Dessa vez, reprogramamos células da polpa de dente de leite de um indivíduo autista brasileiro. As células desse indivíduo fazem parte de um estudo que já estava em andamento por Maria Rita Passos-Bueno (Genoma/USP) desde 2008, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Quem liderou o artigo foi a brasileira Karina Griesi Oliveira, em parceria com um aluno americano, Allan Acab.
O que a Karina e o Allan mostraram foi que morfologia dos neurônios derivados desse autista mostrou-se menos complexa, com uma arborização menor do que o grupo controle. O número de sinapses e fisiologia das redes nervosas também estavam alteradas. Mas, ao contrário das formas sindrômicas do espectro, autistas clássicos possuem uma base genética complexa. Para entender o porquê dos defeitos nos neurônios desse paciente, decidimos sequenciar o genoma do paciente. Encontramos diversas mutações, inclusive uma que anulava uma das cópias do gene TRPC6. Esse gene codifica para um canal na membrana celular que permite a entrada de cálcio, um sinalizador para a formação de sinapses e maturação neuronal. Como o paciente possui apenas uma cópia funcional do gene TRPC6, isso explicaria a redução de sinapses e as alterações morfológicas observadas.
Mostramos que esse gene era realmente responsável pelos defeitos nos neurônios de duas formas. Primeiro, aumentamos a dose de TRPC6 nos neurônios do autista e eles passaram a se comportar como neurônios controle. Em seguida fizemos o oposto: reduzimos a atividade do TRPC6 em neurônios normais e estes se comportaram como se fossem autistas. Segundo, usamos uma droga chamada hiperforina, o princípio ativo da erva de São João (Hypericum perforatum), que estimula a entrada de cálcio pelo canal TRPC6. Curiosamente, o chá dessa erva é usado como um antidepressivo natural, ajudando casos de inquietação, ansiedade e nervosismo, principalmente na Europa. Ao expor os neurônios do autista a hiperforina por duas semanas, conseguimos reverter os falhas neuronais, aumentando o número de sinapses e recuperando as alterações morfológicas. É possível que o uso do extrato dessa planta ajude a melhorar os sintomas autistas em indivíduos com mutações nessa via metabólica. Até aonde sabemos, menos de 1% dos autistas carregam mutações nesse gene e se beneficiariam de um eventual tratamento.
Uma outra descoberta desse estudo foi que a atividade do gene TRPC6 é controlada pelo MeCP2 (o responsável pela síndrome de Rett). Isso mostra que diferentes tipos de autismos dividem vias moleculares semelhantes, algo muito útil do ponto de vista terapêutico. E para validar essa observação, testamos o efeito de IGF-1 (uma droga em teste clínico para síndrome de Rett) em neurônios do autista clássico. Como prevíamos, o IGF-1 também conseguiu reverter os defeitos nos neurônios do autista clássico, validando seu futuro uso clínico para autismo não-sindrômico.
Esse trabalho confirma a plasticidade dos neurônios humanos, capazes de se adaptar e reverter defeitos morfológicos e funcionais. É mais uma forte evidência de que o “estado autista” não é permanente, e pode ser reversível. Por muito tempo se acreditou que as síndromes genéticas do desenvolvimento seriam simplesmente incuráveis.
Abrimos precedente para a medicina personalizada para o espectro autista. Ao combinar a reprogramação celular com a genômica, conseguimos detectar vias metabólicas que estariam implicadas no quadro clínico, possibilitando receitar medicamentos e doses adequadas para cada individuo. Pode parecer ficção científica, mas não é. Num futuro próximo, cada autista terá seu genoma sequenciado e seu “minicérebro” em laboratório para estudo e testes de drogas.
Não sei o quanto o Jô Soares acompanha os avanços na pesquisa sobre o autismo, mas com certeza aprendemos muito nesses 50 anos. Compreendemos melhor as bases genéticas do autismo e sabemos que o determinismo genético não tem a última palavra. Desmistificamos as vacinas como causadoras do autismo e aprendemos mais sobre como outros fatores, como idade dos pais, podem contribuir para a frequência de autismo na população humana. Estamos vivenciando uma transformação conceitual que, em geral, precede movimentos revolucionários na medicina.
*Imagens: Alysson Muotri
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
E-book Avape em comemoração ao Dia do Livro
Dia 29 de outubro foi o Dia do Livro. Para comemorar, nossos usuários do programa de
Reabilitação Profissional e jovens aprendizes das Unidades de São
Bernardo do Campo e São Paulo desenvolveram textos e desenhos que compõem o
E-book, intitulado ‘ Inclusão e Defesa de Direitos na Avape – A cidadania
expressa em palavras e desenhos dos nossos usuários e aprendizes’.
Clique em um dos links
abaixo para ter acesso a um conteúdo bastante diverso, produzido por pessoas
com e sem deficiência, que dedicaram parte do seu tempo para pensar algo que,
para nós, é de extrema importância para a formação de efetivos cidadãos: a
inclusão social e a defesa de direitos.
Versão PDF: http://goo.gl/YW1MaF
Versão EPUB: http://goo.gl/rl8P0o
Versão EPUB: http://goo.gl/rl8P0o
Mãe, filha e avó levantaram 50 brincadeiras em um e-book para ajudar no desenvolvimento da criatividade a crianças, jovens e adultos
Imagine um livro escrito por
autoras da mesma família de diferentes faixas etárias. A filha, a mãe e a
avó. Reunidas, elas organizaram algumas de suas brincadeiras favoritas e
disponibilizam a todas as famílias e profissionais da educação gratuitamente.
Essa é a proposta do e-Book Play Manual de
Brincadeiras Criativas.
Lançado recentemente, a publicação oferece 50 atividades simples com foco em criatividade, divididas em cinco capítulos: jogos corporais, verbais, musicais, essenciais e relaxamento. A ideia é que essas atividades lúdicas possam colaborar com a criatividade e promover uma convivência de mais qualidade entre adultos e crianças. A iniciativa é voltada para crianças e adultos, famílias, educadores, tutores e cuidadores e pretende ser uma ferramenta de aproximação e integração entre os participantes. “O principal objetivo é oferecer diversidade nos jogos familiares e também escolares. "Nosso livro é uma forma prática de resgate ao contato físico, olho no olho, do encontro, do diálogo, de risos compartilhados, de estímulo à criatividade e à socialização por meio de passatempos lúdicos e divertidos”, diz Mayra Luna, autora do Manual de Brincadeiras Criativas. “Também é um meio de resgate da criança interior, às vezes esquecida no meio de tanta preocupação e responsabilidades da vida adulta”, continua. Muitas das brincadeiras foram criadas por Mayra e sua família, como: Inventando o Futuro – um jogo de imaginação em que os participantes devem falar de possíveis e impossíveis invenções do futuro; e Caixa da Alma, em que cada jogador deve criar uma caixa com recortes e colagem que represente quem ele acredita ser, sua personalidade, seus sonhos, em que, no fim, há uma troca de observações entre todos os participantes. Outras atividades mais conhecidas foram revisitadas e também compõem o e-Book Play. Entre elas, mímica, dublar a música e continuar a história. “Essa brincadeira, a Caixa da Alma, é um ótimo exercício para o jogador, seja ele adulto ou criança, aprender a se expressar, a aceitar elogios e críticas, e entender como é percebido pelos outros. É um jeito de mostrar que todos somos seres únicos que merecem ser respeitados e admirados em nossas diferenças”, explica Mayra. Cada brincadeira tem idade indicativa, número mínimo de participantes, regras, objetivos, dicas e algumas ainda possuem exemplos práticos que podem ser encontrados no canal no youtube da Pitaco e Cia:www.youtube.com/pitacoecia Quem fez Fundadora da Pitaco e Cia e criadora do e-Book, Mayra Luna é publicitária, consultora, escritora, atriz e artista multimídia. Já sua filha de oito anos, Bia, é a co-criadora, colaboradora e incentivadora da obra, já que ajudou a inventar e colocar regras na maior parte dos jogos, escolheu parte das fotos e foi responsável por algumas das ilustrações. Lila, a avó, mãe de cinco filhos e professora de mais de mil crianças, foi a inspiração. Participou do projeto indicando brincadeiras escolares, aquelas com grupos grandes, rodas e algumas das atividades que ela costumava usar bastante em aula.
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terça-feira, 16 de setembro de 2014
Como ajudar pessoas com autismo na interação social
Um
artigo interessante publicado num blog do New York Times examina como ajudar
pessoas com autismo na interação social e dá uma resposta que nós já conhecemos
para essa pergunta: crianças, adolescentes e adultos com autismo podem aprender
a se relacionar e a desenvolver suas habilidades de interação social e
comunicação simplesmente brincando!
Kevin
Pelphrey, diretor do laboratório de neurociência da criança na Universidade de
Yale, defende a individualização e a personalização da terapia para cada
criança e, sendo assim, na opinião dele, se uma criança tem uma afinidade com
certos personagens animados, seria absolutamente válido propor uma terapia que
incorpore os personagens prediletos dela de forma significativa.
Kevin
Pelphrey, juntamente com outros pesquisadores, tais como John D. E. Gabrieli,
do MIT, Simon Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge, e Pamela Ventola, de
Yale, estão propondo um ensaio clínico para testar esta proposta. A ideia teria
surgido a partir do livro “Life, Animated” escrito por Ron Suskind, que é um
ex-repórter do Wall Street Journal. Nele, Ron fala sobre seu filho, Owen, que tem
autismo e que é apaixonado por filmes da Disney como “A Pequena Sereia” e “A
Bela e a Fera”.
Ron
Suskind conta de maneira emocionante como o pequeno Owen, que regrediu em suas
habilidades sociais e em sua comunicação em torno dos 3 anos de idade, usou a
repetição de cenas de um filme da Disney para comunicar aos seus pais a sua
dificuldade em falar. Owen teria escolhido o trecho “Just your voice” (“Apenas
a sua fala”, em Português) da bruxa
Úrsula, que no filme “A Pequena Sereia” havia roubado a voz da sereia Ariel,
para expressar o que ele próprio estava sentindo. Owen tinha perdido sua
habilidade de falar e estava não verbal naquele momento. Assim como a
personagem do filme, o pequeno Owen também não tinha “voz”. Esta experiência
fora crucial para a família, que, aos poucos, decidiu aproveitar o fato de Owen
ficar atento e focado ao assistir seus filmes favoritos para então usar os
elementos e personagens desses filmes como um canal de aprendizado social.
Sobre
o ensaio clínico que será conduzido pelos pesquisadores, originado a partir da
experiência de Ron e de seu filho Owen,
Sally J. Rogers, professora de psiquiatria no Instituto MIND, da
Universidade da Califórnia, e co-autora da abordagem americana Early Start
Denver Model, diz: “A hipótese que se colocou à frente é boa, e absolutamente
vale a pena estudá-la”. “Se você pensar sobre esses personagens animados, eles
são fortes estímulos visuais: as emoções dos personagens são exageradas,
aquelas sobrancelhas e os olhos grandes, a música que acompanha as expressões.
Observando esses personagens, vemos que é uma forma como muitos de nós
aprendemos os scripts que são apropriados nas situações sociais.”
Segundo
o jornal, o estudo que será realizado sobre o tema durará 16 semanas e incluirá
68 crianças com autismo, com idades entre 4 a 6 anos. Metade das crianças
receberá uma terapia utilizando os programas ou filmes que eles mais gostam
como uma estrutura para aumentar a interação e a construção de habilidades que
possibilitem o contato visual e jogo social. A outra metade das crianças será o
grupo controle, que receberá a mesma quantidade de interações com um terapeuta,
mas de forma livre, lideradas pelo interesse da criança.
Leia
o artigo (em inglês) publicado no New York Times para conhecer melhor o ensaio
científico que será realizado e também a opinião de outros pais e profissionais
sobre atividades lúdicas envolvendo personagens. Quer conhecer a história de
Owen e saber como ele se desenvolveu numa terapia que utilizou seus personagens
prediletos? Acesse aqui
http://www.nytimes.com/2014/03/09/magazine/reaching-my-autistic-son-through-disney.html?_r=2
domingo, 31 de agosto de 2014
Caneca diferente criada por menina de 11 anos para ajudar avô com Mal de Parkinson será vendida
No primeiro semestre deste ano, uma garota de 11 anos,
resolveu criar uma caneca que não apenas fosse inquebrável, mas que também não
permitisse facilmente ao usuário derramar o líquido nela colocado. A motivação
da menina-empreendedora era uma só: auxiliar o avô, que sofre do Mal de
Parkinson.
Um copo se quebra. Os pedaços de vidro se espalham. A
sujeira está formada. E o momento mais chato se aproxima: é hora de limpar tudo.
Quem nunca passou por isso? E ainda por cima, ficou com receio de ter deixado
alguns cacos de vidro perdidos pelo chão? Agora esse problema já pode ser
solucionado graças à Lily Born, criadora de uma caneca bem diferente, a
Kangaroo Cup.
O projeto ficou conhecido no mundo todo quando a família da
garota resolveu pedir dinheiro por meio do financiamento coletivo. As pessoas
contribuíram e a família, que pedia US$ 25 mil (R$ 56 mil), acabou recebendo
bem mais: US$ 62 mil (R$ 138 mil). Bem, com o dinheiro, a proposta da menina se
transformou em uma empresa, a Imagiroo, única fabricante da caneca Kangaroo.
Recentemente, a empresa colocou à disposição dos interessados um site em que é
possível encomendar o produto.
De acordo com o site, as entregas devem começar em novembro
deste ano. Uma caneca de cerâmica custará US$ 13 (R$ 29) e o consumidor poderá encomendar
um jogo com quatro unidades por US$ 48 (R$ 107).
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Psicopata é você!
POR DANIEL MARTINS DE BARROS
ESTADÃO - 19/08/14
Depois dos best sellers “Seu chefe é um psicopata”, “Seu
amigo é um psicopata” e do campeão de vendas “Seu ex-marido é um psicopata”,
chegou a hora de falar a verdade: psicopatas somos todos. Ou podemos nos
comportar como um.
Nos últimos dias temos vistos vários sinais de como as
pessoas comuns podem agir com desprezo pelos outros, ao menos no mundo virtual.
Lúcia Guimarães conta sobre a onda de insultos a Robin Willians, via twitter,
depois de sua morte. Por aqui mesmo testemunhamos o mau gosto que se seguiu ao
acidente com Eduardo Campos, desde os trocadilhos políticos até as selfies em
seu velório. Há pouco tempo Erasmo Carlos se surpreendeu com a agressividade
que as pessoas podiam demonstrar on-line, quando debochavam de sua idade. E o aplicativo
Secret, no qual as pessoas podem postar qualquer coisa de forma supostamente
anônima se tornou um palco de ofensas, boatos, calúnias e difamação. O que
acontece, que gente tranquila, que não faz mal a ninguém no mundo real, entra
nessas escaladas de agressividade nas redes socais, cometendo até mesmo crimes
que não faria em outras situações?
Você já deve ter visto alguém limpando o nariz dentro do
carro, tranquilamente tirando “caquinhas” até de repente dar de cara com outra
pessoa. Esse momento de constrangimento, que leva o sujeito a inutilmente
tentar disfarçar a nojeira, acontece porque o olhar do outro é um potente freio
para nossos comportamentos menos louváveis.
Eis o grande problema do mundo virtual: a falta do olhar
alheio. Nosso cérebro está adaptado para interagir face-a-face com os outros –
nesse tipo de conversa recebemos uma série de informações em tempo real, se
estamos agradando, se a pessoa está brava, triste, feliz, e assim ajustamos o
conteúdo e também a forma de nosso discurso de forma automática e inconsciente.
Isso não apenas porque queremos agradar, mas também porque ver o sofrimento do
outro nos incomoda, refreando certos impulsos. Quando não temos esses freios
sociais, funcionamos – em parte – como os verdadeiros psicopatas. Essas pessoas
têm dificuldade para reconhecer adequadamente as emoções negativas nas
expressões faciais; e são incapazes de sofrer quando vêem alguém sofrendo, por
carecerem de empatia. Ora, nas redes sociais somos todos assim: não vemos as
expressões de nossos interlocutores, tanto pela invisibilidade como pela
assincronia do diálogo. E sem esse feedback, não sofremos com a dor alheia, já
que não a testemunhamos diretamente.
Creio que essa é a grande razão para tantas pessoas
assumirem atitudes antissociais diante de uma tela e um teclado, até mais do
que o anonimato. Esse, juntamente com a suposta impossibilidade de ser pego,
pode até fazer com alguns ajam com maldade, mas sobretudo os predispostos a
isso. É como o escritor H. G. Wells ilustrou em O homem invisível. No livro um
cientista se torna criminoso após adquirir invisibilidade, mas sua
personalidade já era fria e algo desumana – ser invisível somente o liberou
para fazer o que gostaria. O anonimato permite que o sujeito que quer ser ruim,
seja. Mas não é ele que vira a cabeça dos bons cidadãos.
Claro que a maioria das pessoas não sofre uma transformação
no mundo virtual. Mas não se pode ignorar que essa nova forma de interação
humana, na qual o exercício da empatia fica prejudicado, está associada a mais
atitudes de desprezo pelos outros. Como acredito na capacidade de adaptação
humana, acho que a solução virá com o tempo. Só não sei quanto.
domingo, 17 de agosto de 2014
Software aumenta precisão na triagem de crianças com autismo
Fonte: BONDE
Profissionais da área da Psicologia poderão contar em alguns
anos com uma ferramenta de análise computacional para realizar a triagem de
crianças com transtorno do espectro autista (TEA) com maior precisão.
Um grupo de pesquisadores da University of Minnesota e da
Duke University, nos Estados Unidos, em colaboração com colegas do Instituto de
Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desenvolveu um
software para análise automatizada de vídeos de testes de triagem de autismo.
Alguns dos resultados das análises dos testes feitas pelo
software foram descritos na edição de junho da revista Autism Research and
Treatment.
"A ideia é que o software possa contribuir para
aumentar a acurácia da triagem de crianças com autismo", disse Thiago Vallin
Spina, estudante de doutorado no Instituto de Computação da Unicamp e um dos
autores do projeto, à Agência FAPESP.
"Nossa meta é ter uma versão do software que possa ser
utilizada em escolas de educação infantil, por exemplo, para realizar a triagem
de crianças com suspeita de autismo com maior precisão e encaminhá-las para a
realização do diagnóstico por especialistas o mais cedo possível", afirmou
Spina, que faz doutorado com Bolsa da FAPESP e orientação do professor
Alexandre Xavier Falcão.
De acordo com Spina, estudos recentes apontam que muitas
crianças com TEA apresentam marcadores comportamentais indicativos de autismo
logo no primeiro ano de vida, tais como a dificuldade de desviar o olhar de um
determinado ponto para rastrear um estímulo visual.
A fim de tentar detectar mais precocemente esses distúrbios
no desenvolvimento infantil – e iniciar uma intervenção clínica intensiva – são
feitos comumente três tipos de testes comportamentais, baseados na Escala de
Observação de Autismo para Lactentes (AOSI, na sigla em inglês), para avaliar a
atenção visual da criança.
No primeiro teste, um brinquedo sonoro é chacoalhado ao lado
esquerdo da criança e, em seguida, outro brinquedo é balançado ao lado direito,
a fim de avaliar o tempo que ela leva para responder ao segundo estímulo por
meio do desvio do olhar.
Já no segundo teste, um brinquedo é movido horizontalmente
próximo ao rosto e no campo de visão da criança, para verificar se há algum
atraso em rastrear o movimento do objeto.
E no terceiro teste, uma bola é rolada em direção à criança
com intuito de verificar se a criança pega a bola e estabelece contato visual e
interação social com o especialista.
O problema é que esses testes ocorrem em tempo real e
durante sua realização o profissional precisa não apenas controlar o estímulo,
como também contar o tempo que a criança leva para reagir, o que torna o
diagnóstico impreciso, segundo Spina. "O tempo de atraso da criança para
reagir aos estímulos considerado nestas medidas de atenção visual é de um a
dois segundos", disse.
"Por isso, o diagnóstico de TEA por meio desses testes
depende em grande parte da experiência e acurácia do especialista em
identificar com precisão o tempo de atraso na resposta da criança ao
estímulo", disse Spina.
Medições automáticas
Para tentar aumentar a precisão dos resultados, os
pesquisadores desenvolveram algoritmos (sequências de comandos) de
processamento de imagens e de visão computacional, que fazem medições
automáticas da atenção visual de crianças durante os testes comportamentais de
triagem de TEA a partir da gravação de vídeos das sessões de avaliação.
Para isso, utilizaram gravações de vídeos de testes
comportamentais durante sessões de avaliação de TEA realizados por Amy Esler,
professora de Pediatria na University of Minnesota, com um grupo de 12
crianças, com idade entre 5 e 18 meses, indicadas para realização dos testes.
As gravações foram feitas durante o estágio de pesquisa de Spina na
universidade norte-americana, no grupo do professor Guillermo Sapiro.
"Colocamos duas câmeras convencionais de alta resolução
na sala onde foram realizadas as sessões de avaliação, sendo uma posicionada no
centro da mesa da professora Esler e com foco direcionado para a lateral das
crianças, e outra em um canto da sala, para obter uma visão geral do
comportamento das crianças durante as sessões", contou Spina.
O software foi capaz de rastrear a direção do rosto das
crianças participantes dos testes comportamentais de atenção visual. Para fazer
isso, o sistema computacional identificou, inicialmente, a direção dos olhos e
do nariz das crianças no primeiro quadro (frame) do vídeo dos testes em relação
ao objeto apresentado a elas.
Por meio de algoritmos de visão computacional, o software
avaliou se a direção dos olhos e do nariz das crianças se repetia ou mudava nos
quadros seguintes do vídeo.
Dessa forma, conseguiu estabelecer vetores de movimento dos
olhos e do nariz da criança de um quadro para outro e, por meio de medidas
geométricas, estimar em que direção ela estava olhando durante os testes em
relação aos objetos – se em direção a eles ou não.
"Como sabia em que direção a criança estava olhando no
primeiro quadro do vídeo e qual a posição do objeto, o software foi capaz de
rastrear os movimentos dos olhos da criança e indicar se apresentavam ou não um
correlação com a direção do brinquedo", explicou Spina.
Os resultados das análises dos vídeos feitas pelo software
foram comparados com a avaliação clínica feita por Esler com base na observação
em tempo real dos testes e nos próprios vídeos – sem terem passado pelas
análises do software – e com as de dois estudantes de graduação em Psicologia e
uma psicóloga não especializada em autismo.
A comparação mostrou que o programa foi capaz de detectar
sinais comportamentais indicativos de autismo tão bem quanto a especialista e
melhor do que a psicóloga e os estudantes de Psicologia.
"O programa permite registrar os tempos de reação da
criança a um estímulo visual com até décimos de segundo, uma vez que cada
segundo de um vídeo tem 30 quadros", explicou Spina.
Possíveis contribuições
O software representa uma primeira etapa de um projeto de
longo prazo, desenvolvido por um grupo multidisciplinar de pesquisadores das
áreas de Psicologia, visão computacional e aprendizado de máquina, que visa
desenvolver ferramentas de baixo custo, automáticas e de análise quantitativa
de dados, que podem ser úteis para identificar crianças com TEA mais
precocemente.
Apesar de os sintomas do autismo surgirem muitas vezes cedo
e o distúrbio comportamental poder ser diagnosticado nos primeiros anos de
vida, a idade média de diagnóstico de TEA em países como os Estados Unidos é
próxima aos 5 anos, apontam os autores do artigo.
"O software poderá contribuir para os profissionais da
área de Psicologia e pesquisadores em TEA na identificação de marcadores de
risco de autismo por meio de análises de grandes quantidades de vídeos do
comportamento natural da criança em casa ou na escola ou das próprias sessões
de avaliação clínica", disse Spina.
"Além disso, abre portas para a melhoria dos protocolos
de avaliação em curso e para descoberta de novas características de
comportamento de crianças com TEA, aumentando a granularidade das análises e
fornecendo dados em uma escala mais fina", avaliou.
Em sua pesquisa de doutorado, Spina utiliza algoritmos para
analisar a partir de vídeos um comportamento motor de posicionamento e
movimento de braços identificado como um possível novo sinal característico de
autismo.
Denominada assimetria dos braços, o comportamento foi
identificado durante estudos realizados nos últimos anos com crianças com
autismo com entre 18 meses e 24 meses de idade.
Os autores do estudo identificaram que, diferentemente do
andar de crianças sem autismo – cujos braços tendem a ficar ao lado do corpo,
em uma posição simétrica e com movimento de balanço – as crianças com autismo
apresentam uma posicionamento assimétrico dos braços, com um estendido e outro
flexionado na horizontal e para frente.
"Desenvolvemos um software para medir esse
comportamento motor específico. A ideia é expandir sua aplicação para medir
outros movimentos que também são bastante característicos de crianças com TEA,
como o balanço do tronco para frente e para trás", contou Spina.
Já o grupo de pesquisadores da Duke University desenvolve um
aplicativo para tablet que pretende substituir a forma como os testes de
atenção visual são feitos hoje. O objetivo é imitar os mesmos tipos de
interações que os testes com brinquedos e bolas medem, mas sem a necessidade de
utilizar os objetos.
"Eles estão discutindo quais tipos de comportamentos
indicativos de autismo poderiam ser identificados por esse aplicativo para
tablet", contou Spina, que não participa diretamente do projeto.
"Pretendemos dar continuidade à cooperação com o Sapiro na Duke University
em projeto conjunto após o fim do meu doutorado."
domingo, 10 de agosto de 2014
As Mãos do Meu Pai
As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...
que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...
(Mario Quintana)
terça-feira, 29 de julho de 2014
Essas pessoas com deficiência
“Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.
Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho ímpar.”
Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho ímpar.”
Carlos Drummond de Andrade, Igual-Desigual, in A Paixão Medida (1980).
Por Lucio Carvalho*
Elas já foram deficientes. Excepcionais. Portadores de deficiência. Portadores de necessidades especiais. Agora, ou melhor, desde que a Convenção sobre Os Direitos das Pessoas com Deficiência foi promulgada com status de emenda constitucional, em 2008, são apenas pessoas com deficiência. Mas nem assim cessou o preconceito e superou-se a estigmatização.
Como parece impossível que sejam pessoas simplesmente nomeadas ou apontadas em um contexto social heterogêneo, a redação jornalística contemporânea vem encontrando novas e inadvertidas forma de estigmatização. Pessoas com deficiência, para efeito de referência, são “essas pessoas”. É o que se encontra invariavelmente em 99% dos textos jornalísticos e reportagens sobre qualquer tema envolvendo a deficiência. Por que não simplesmente usa-se “eles”, “nós” ou os demais pronomes pessoais e oblíquos disponíveis no vernáculo é algo ainda a ser melhor compreendido.
O problema é que, até chegar ao ponto de compreender o que acontece, muito do que está oculto e embutido na linguagem e na forma como ela é empregada emerge, quando não simplesmente salta aos olhos. Ou até mesmo agride.
Isso é o que acontece, por exemplo, quando se procura usar qualquer tipo de deficiência como um qualificativo, ou até mesmo uma metáfora. Ser cego, surdo, autista ou ter uma deficiência intelectual não são experiências comparáveis, razão pela qual o uso de qualquer um dos termos (e qualquer outro tipo ou denominação e deficiência) resvala quase sempre para um significado depreciativo, o que empresta e corrobora um sentido negativo para as condições, absolutamente normais na experiência humana.
Desde que foi introduzida por aqui a controvertida ideia do “politicamente correto”, a situação não melhorou nem um pouco, porque o cuidado excessivo acaba derivando para outra forma de discriminação e exageros igualmente estigmatizadores. Uma dica elementar para alguém entender se está se referindo de forma efetivamente preconceituosa, ao usar uma metáfora ou comparação, é verificar se o termo escolhido é elogioso ou caluniante. Se for caluniante ou prestar-se a um xingamento, não há então do que duvidar, é preconceito.
O “essas pessoas”, no entanto, surge em muitos outros contextos e, na maioria das vezes, de forma absolutamente gratuita. Seja num anúncio simples de um serviço oferecido às pessoas com deficiência ou uma situação envolvendo grupos sociais, quando se refere às pessoas com deficiência como “essas pessoas” o que se obtém é uma diferenciação automática em relação aos demais e uma uniformização de identidades.
Como se de um contexto social múltiplo e diversificado elas fossem arrancadas ao grupo homogêneo de seus iguais, quando é óbvio pensar que, como quaisquer outras pessoas, nem mesmo pessoas com a mesma deficiência são pessoas iguais, imbuídas de uma personalidade única. Além disso, a deficiência é uma expressão decorrente da relação do indivíduo com o meio social, não é um conceito ambulante.
Talvez alguém faça a objeção de que é apenas uma tentativa de agrupamento, inocente e inofensiva, que aqui há mais politicamente correto. Basta substituir o termo por outros e proceder a verificação. Se, em um texto, por exemplo, sobre a população negra, gays ou outras minorias se substituísse o coletivo por “esses negros”, ou “esses gays” ou mesmo “essas pessoas” o texto soaria claramente preconceituoso, não? Por que então, com as pessoas com deficiência, poderia ser diferente?
Cada pessoa é uma pessoa e cada pessoa com deficiência é uma pessoa também, por isso utilizar a expressão “essas pessoas” na redação jornalística ou em qualquer outra é um tipo de uniformização sem sentido. Caso se tratasse de animais, poderia dizer-se “essas vacas” ou “esses dromedários”, mas ao tratar-se de pessoas nunca é demais lembrar que ninguém é igual a ninguém e que tomar o sujeito pela característica anula o que há de mais precioso nele, ou seja, sua própria, implícita e incomparável humanidade.
* Coordenador-Geral da Inclusive – Inclusão e Cidadania
sexta-feira, 30 de maio de 2014
AMBIÇÃO E ÉTICA
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As pessoas mais infelizes que eu conheço são as mais ricas. Quanto mais rico, mais infeliz. Nunca me esqueço do comentário de uma copeira, na casa de um empresário arquimilionário, que cochichava para a cozinheira: "Todas as festas de rico são tão chatas como esta?" "Sim, todas, sem exceção", foi a resposta da cozinheira. De fato, ninguém estava cantando em volta de um violão. Os homens estavam em pé numa roda falando de dinheiro, e as mulheres numa outra roda conversavam sobre não sei o que, porque eu sempre fico preso na roda dos homens falando de dinheiro. Não há nada de errado em ser ambicioso na vida, muito menos em ter "grandes" ambições. As pessoas mais ambiciosas que conheço não são os pontocom que querem fazer uma IPO (sigla de oferta pública inicial de ações) em Nova York. São os líderes de entidades beneficentes do Brasil, que querem "acabar com a pobreza do mundo" ou "eliminar a corrupção do Brasil". Esses, sim, são projetos ambiciosos. Já ética são os limites que você se impõe na busca de sua ambição. É tudo o que você não quer fazer na luta para conseguir realizar seus objetivos. Como não roubar, mentir ou pisar nos outros para atingir sua ambição. A maioria dos pais se preocupa bastante quando os filhos não mostram ambição, mas nem todos se preocupam quando os filhos quebram a ética. Se o filho colou na prova, não importa, desde que tenha passado de ano, o objetivo maior. Algumas escolas estão ensinando a nossos filhos que ética é ajudar os outros. Isso, porém, não é ética, é ambição. Ajudar os outros deveria ser um objetivo de vida, a ambição de todos, ou pelo menos da maioria. Aprendemos a não falar em sala de aula, a não perturbar a classe, mas pouco sobre ética. Não conheço ninguém que tenha sido expulso da faculdade por ter colado do colega. "Ajudar" os outros, e nossos colegas, faz parte de nossa "ética". Não colar dos outros, infelizmente, não faz. O problema do mundo é que normalmente decidimos nossa ambição antes de nossa ética, quando o certo seria o contrário. Por quê? Dependendo da ambição, torna-se difícil impor uma ética que frustrará nossos objetivos. Quando percebemos que não conseguiremos alcançar nossos objetivos, a tendência é reduzir o rigor ético, e não reduzir a ambição. Monica Lewinsky, uma insignificante estagiária na Casa Branca, colocou a ambição na frente da ética, e tirou o Partido Democrata do poder, numa eleição praticamente ganha, pelo enorme sucesso da economia na sua gestão. Definir cedo o comportamento ético pode ser a tarefa mais importante da vida, especialmente se você pretende ser um estagiário. Nunca me esqueço de um almoço, há 25 anos, com um importante empresário do setor eletrônico. Ele começou a chorar no meio do almoço, algo incomum entre empresários, e eu não conseguia imaginar o que eu havia dito de errado. O caso, na realidade, era pessoal: sua filha se casaria no dia seguinte, e ele se dera conta de que não a conhecia, praticamente. Aquele choro me marcou profundamente e se tornou logo cedo parte da ética na minha vida: nunca colocar minha ambição à frente da minha família. Defina sua ética quanto antes possível. A ambição não pode antecedê-la, é ela que tem de preceder à sua ambição.
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Stephen
Kanitz
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