POR DANIEL MARTINS DE BARROS
ESTADÃO - 19/08/14
Depois dos best sellers “Seu chefe é um psicopata”, “Seu
amigo é um psicopata” e do campeão de vendas “Seu ex-marido é um psicopata”,
chegou a hora de falar a verdade: psicopatas somos todos. Ou podemos nos
comportar como um.
Nos últimos dias temos vistos vários sinais de como as
pessoas comuns podem agir com desprezo pelos outros, ao menos no mundo virtual.
Lúcia Guimarães conta sobre a onda de insultos a Robin Willians, via twitter,
depois de sua morte. Por aqui mesmo testemunhamos o mau gosto que se seguiu ao
acidente com Eduardo Campos, desde os trocadilhos políticos até as selfies em
seu velório. Há pouco tempo Erasmo Carlos se surpreendeu com a agressividade
que as pessoas podiam demonstrar on-line, quando debochavam de sua idade. E o aplicativo
Secret, no qual as pessoas podem postar qualquer coisa de forma supostamente
anônima se tornou um palco de ofensas, boatos, calúnias e difamação. O que
acontece, que gente tranquila, que não faz mal a ninguém no mundo real, entra
nessas escaladas de agressividade nas redes socais, cometendo até mesmo crimes
que não faria em outras situações?
Você já deve ter visto alguém limpando o nariz dentro do
carro, tranquilamente tirando “caquinhas” até de repente dar de cara com outra
pessoa. Esse momento de constrangimento, que leva o sujeito a inutilmente
tentar disfarçar a nojeira, acontece porque o olhar do outro é um potente freio
para nossos comportamentos menos louváveis.
Eis o grande problema do mundo virtual: a falta do olhar
alheio. Nosso cérebro está adaptado para interagir face-a-face com os outros –
nesse tipo de conversa recebemos uma série de informações em tempo real, se
estamos agradando, se a pessoa está brava, triste, feliz, e assim ajustamos o
conteúdo e também a forma de nosso discurso de forma automática e inconsciente.
Isso não apenas porque queremos agradar, mas também porque ver o sofrimento do
outro nos incomoda, refreando certos impulsos. Quando não temos esses freios
sociais, funcionamos – em parte – como os verdadeiros psicopatas. Essas pessoas
têm dificuldade para reconhecer adequadamente as emoções negativas nas
expressões faciais; e são incapazes de sofrer quando vêem alguém sofrendo, por
carecerem de empatia. Ora, nas redes sociais somos todos assim: não vemos as
expressões de nossos interlocutores, tanto pela invisibilidade como pela
assincronia do diálogo. E sem esse feedback, não sofremos com a dor alheia, já
que não a testemunhamos diretamente.
Creio que essa é a grande razão para tantas pessoas
assumirem atitudes antissociais diante de uma tela e um teclado, até mais do
que o anonimato. Esse, juntamente com a suposta impossibilidade de ser pego,
pode até fazer com alguns ajam com maldade, mas sobretudo os predispostos a
isso. É como o escritor H. G. Wells ilustrou em O homem invisível. No livro um
cientista se torna criminoso após adquirir invisibilidade, mas sua
personalidade já era fria e algo desumana – ser invisível somente o liberou
para fazer o que gostaria. O anonimato permite que o sujeito que quer ser ruim,
seja. Mas não é ele que vira a cabeça dos bons cidadãos.
Claro que a maioria das pessoas não sofre uma transformação
no mundo virtual. Mas não se pode ignorar que essa nova forma de interação
humana, na qual o exercício da empatia fica prejudicado, está associada a mais
atitudes de desprezo pelos outros. Como acredito na capacidade de adaptação
humana, acho que a solução virá com o tempo. Só não sei quanto.
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