Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.

Carl Rogers

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Onde fica o inconsciente?



Autor: Caio Nogueira

Onde fica o Inconsciente? A pergunta que abre este texto está mal formulada. E, nas ciências, quando uma pergunta é mal formulada, conduz, inevitavelmente, a conclusões erradas. Mal formulada porque o inconsciente, como a consciência, não fica em um determinado lugar do cérebro. É resultante da função do cérebro no seu conjunto, organizado pela linguagem. Salvo, é claro, os automatismos que governam, por exemplo, o ritmo respiratório, os processos metabólicos, a temperatura corporal, as sinergias neuromusculares, os batimentos cardíacos. Embora esses também sofram alterações quando o sujeito percebe ou evoca objetos, situações, acontecimentos que o perturbam.
Quando um homem cruza o olhar com uma desconhecida no metrô e seus batimentos cardíacos se aceleram, sabe que essa mulher significa algo diferente para ele, embora não saiba o que e por quê. Traços dela que evocam experiências de satisfação ou insatisfação configuraram significados imaginários que podem mudar o curso de sua vida assim como, nesse instante, mudaram seu metabolismo. Isso opera a nível inconsciente. O inconsciente não está nos olhos que miram nem no córtex occipital que recebe o estímulo óptico, nem sequer no coração acelerado, mas na rede de significações que tal percepção dispara.
A memória genética de comportamentos adaptativos que o Homo sapiens herdou na evolução das espécies mostrou-se insuficiente para assegurar a sobrevivência. Por isso, foi necessária a invenção de um sistema de memória externo ao organismo: a linguagem. Não foi uma mutação espontânea que criou as palavras, mas foram as palavras necessárias que selecionaram mutações, moldando nosso cérebro, tornando-o sensível e permeável às palavras, numa das expressões do que hoje chamamos de plasticidade. Pesquisas que vão de Terrence Deacon (premiado neuroantropólogo britânico) a Eric Kandel (Prêmio Nobel de Medicina em 2000) oferecem fundamentação científica a essa tese.
Sigmund Freud antecipou-se em 100 anos aos recentes achados das neurociências, fazendo a crítica do dualismo “mente-corpo” e oferecendo os instrumentos de clínica e pesquisa que permitiram compreender por que as experiências infantis têm o poder de moldar nosso psiquismo e o quanto elas são responsáveis pelo caráter traumático que podem assumir as experiências da vida adulta. Tal poder consiste na plasticidade com que nosso cérebro recebe, guarda e permite funcionar as configurações complexas que a linguagem lhe impõe.
Enquanto a psicanálise se ocupa em decifrar essas configurações complexas, tanto para compreender a criatividade e a dinâmica dos desejos humanos quanto para intervir clinicamente no campo da saúde mental, as neurociências avançam na descoberta dos mecanismos sistêmicos, celulares e moleculares que veiculam as transformações provocadas pelo campo da palavra. A resultante dessas duas vias de pesquisa não somente tem humanizado o tratamento das doenças mentais, mas também tem confirmado o que a psicanálise antecipou nas descobertas que a experiência clínica lhe ensinou.
Os 100 bilhões de neurônios do cérebro humano, com mais sinapses do que estrelas na galáxia, se organizam em diversos níveis: tissular, órgão, sistema. Mas há uma organização superior cujo funcionamento ainda desconhecemos. Supõe-se que reside na configuração de circuitos neuronais, incluindo também células não neuronais do tecido nervoso, que podem se modificar constantemente, estabelecer “esquemas” com memórias simples que se conectariam com outros milhares de “esquemas” para dar lugar a associações mais complexas como o pensamento, a linguagem, a consciência, o inconsciente. Ou seja: funções que se desenvolvem em cada um configurando um cérebro único.
Por isso nos surpreende que um mestre dos estudos sobre a memória como o Dr. Iván Izquierdo diga que “a psicanálise foi superada pelos estudos das neurociências, é coisa de quando não tínhamos condições de fazer testes, ver o que acontecia no cérebro“. Quais seriam os testes que nos permitiriam “ver” como se formam a linguagem, o pensamento simbólico, o desejo, o prazer, as identificações, a filiação simbólica, a representação do futuro, os laços sociais, o amor e o ódio, a racionalidade, a culpa, a consciência moral, os sonhos, os ideais, os devaneios, os delírios, as escolhas de destino? E ainda, se as pudéssemos ver, essas formações que chamamos “do inconsciente”, se configuram por um automatismo biológico espontâneo ou pela inscrição que no cérebro produzem os pais do pequeno sujeito em formação? François Ansermet (psicanalista, professor de Psiquiatria da Universidade de Lausane) e Pierre Magistretti (neurocientista, presidente da International Brain Research Organization) no seu livro A cada um seu cérebro (2004), oferecem uma resposta: “Uma biologia do inconsciente e da pulsão é hoje possível graças aos avanços recentes das neurociências”. Um avanço capaz de “oferecer ao mesmo tempo à psicanálise as verificações da biologia que Freud esperava já há algumas décadas, e às neurociências, um novo acesso às questões específicas do campo de exploração que habilita a hipótese do inconsciente”. Trata-se, então, não de “superar”, mas de conjugar os respectivos saberes: do devir de cada sujeito e do devir de cada cérebro.
 


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O que Neurociência?

Fonte:
http://neurosaber.com.br/artigos/o-que-e-neurociencia/

Você saberia dizer o que é a neurociência? Se não, você provavelmente já escutou esta palavra, correto? Embora este campo do conhecimento seja mencionado nos noticiários após a divulgação de um estudo, a maioria esmagadora das pessoas não sabe explicar o que a neurociência significa de fato, mas não precisa se culpar porque realmente não é algo fácil de conceituar. No entanto, mostraremos tudo (ou quase tudo) de forma bem tranquila para que você entenda.
Resposta resumida
Neurociência consiste no estudo sobre o sistema nervoso e suas funcionalidades, além de estruturas, processos de desenvolvimento e alguma alteração que possa surgir no decorrer da vida. É uma análise minuciosa sobre o que manda e desmanda em nossa vida.
Resposta mais detalhada
Depois de explicar em poucas linhas, agora falaremos sobre a neurociência em sua versão mais aprofundada. É importante adiantar que esta área de estudo trabalha com três elementos, a saber: o cérebro, a medula espinhal e os nervos periféricos. Mas por quê? Porque o sistema nervoso é algo complexo a quem se destina a estudá-lo a fim de desenvolver pesquisas para algum conhecimento científico ou voluntário. Sendo assim, é preciso separar por partes para que haja uma divisão que vise à facilidade de assimilação dos profissionais e estudiosos.
No entanto, a separação da neurociência não é só a que foi citada acima, pois é necessário dividir os campos que especificam a complexidade do sistema nervoso.
Parte superior do formulário
Parte inferior do formulário
Quais são esses campos?
– Neuropsicologia: esta parte estuda a interação que há entre as ações dos nervos e as funções ligadas à área psíquica.
– Neurociência cognitiva: este campo foca na capacidade cognitiva (conhecimento) do indivíduo, como o raciocínio, a memória e o aprendizado.
– Neurociência comportamental: quem segue esta linha procura estabelecer uma ligação entre o contato do organismo e seus fatores internos (emoções e pensamentos) ao comportamento visível, como a forma de falar, de se postar e até mesmos os gestos usados pela pessoa.
– Neuroanatomia: uma das partes mais complexas da neurociência, ela tem por objetivo compreender toda a estrutura do sistema nervoso. Com isso, o estudioso precisa separar o cérebro, a coluna vertebral e os nervos periféricos externos para analisar cada item com muita cautela a fim de compreender a respectiva função de cada parte e nomeá-la.
– Neurofisiologia: por último, mas não menos importante, temos a neurofisiologia, que estuda as funções ligadas às várias áreas do sistema nervoso. 
Neurociência abrange muitas áreas do conhecimento
Como deu para você perceber, a neurociência é um campo de pesquisa de extrema complexidade e está sempre em pauta, em evolução, por se tratar do sistema nervoso e suas implicações na vida de uma pessoa.
A neurociência abrange muitas áreas do conhecimento, a partir do momento em que o cérebro se torna o foco em comum de todas as neurociências; e como tudo em nossa vida se relaciona ao cérebro, essa multidisciplinaridade é plenamente justificável.
Os estudos da neurociência são contínuos e podem revelar alguma descoberta para pesquisadores que desenvolvem máquinas, equipamentos e até mesmo chips para auxiliar algum indivíduo que seja portador de uma limitação física, para citar apenas um exemplo dentre vários.
Há estudiosos também que estudam as funções que o sistema nervoso representa para as atitudes mais básicas do ser humano, como fazer um simples movimento.
Enfim, trouxemos a você um assunto complexo, mas que vale muito a pena conhecer, mesmo que um pouco, para saber que há profissionais em busca do melhor para nossa saúde sempre!


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Entenda o que é o Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD)

Entenda o que é o Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD)
Agosto de 2016


Quem de nós nunca se deparou com uma criança extremamente opositiva, desafiadora, que discute por qualquer coisa, que não assume seus erros ou responsabilidades por falhas e que costuma sempre se indispor com os demais de seu grupo ou de sua família de maneira a demonstrar que a cada situação será sempre difícil convencê-lo, mesmo que a lógica mostre que suas opções estão evidentemente equivocadas? Se você conhece uma criança assim, provavelmente ela tem Transtorno Opositivo-Desafiador.

Tal quadro leva a severas dificuldades de tempo e de avaliação para analisar regras e opiniões alheias e intolerância às frustrações, levando a reações agressivas, intempestivas, sem qualquer diplomacia ou controle emocional. Essas crianças costumam ser discriminadas, perdem oportunidades e desfazem círculos de amizades. Não raro, sofrem bullying e são retiradas de eventos sociais e de programações da escola por causa de seu comportamento difícil. Os pais evitam sair ou passear com elas e muitas vezes as deixam com parentes ou em casa. Entre os irmãos, são preteridos, mal falados e considerados como “ovelhas negras” tratados, assim, diferentes e mais criticados pelos pais.
Os sintomas podem aparecer em qualquer momento da vida, mas é mais comum entre os 6 e 12 anos. A associação com TDAH é frequente (50% dos casos), deve ser observada e investigada em todas estas crianças para que sejam tomadas as medidas necessárias, a fim de prevenir problemas de aprendizagem e baixo rendimento escolar. O ambiente doméstico costuma ser conturbado, com pais divergentes quanto ao modo de educar e conduzir o (a) filho (a) e de como estabelecer parâmetros, mas evidências mostram que existem fatores genéticos e neurofisiológicos predispondo o seu desenvolvimento.

O tratamento desta condição é multidisciplinar e depende de três eixos: medicação, psicoterapia comportamental e suporte escolar. A medicação auxilia em boa parte dos pacientes e melhora a auto-regulação de humor frente às frustrações; a psicoterapia deve centrar em mudanças comportamentais na família com medidas de manejo educacional (dar bons exemplos, dialogar com a criança, ter paciência ao falar, explicar o motivo das ordens dadas, etc.); e, em relação ao suporte escolar, deve-se oferecer apoio, reforço e abertura para um bom diálogo, pois esta abertura melhora o engajamento do aluno opositor às regras escolares e a se distanciar de maus elementos.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Estudo Mulheres Grávidas em face da Síndrome Congênita do Zika

grafico que mostra que 90% das mulheres gostariam de ter acesso ao teste da zika. durante a gravidez
O zika vírus ganhou relevância no debate público e em fevereiro foi considerado uma emergência global pela Organização Mundial da Saúde, em função da associação entre a presença do vírus em gestantes e a síndrome congênita em recém-nascidos, cuja manifestação mais evidente em um primeiro momento era a microcefalia.
Embora as mulheres estejam no centro da epidemia de zika, suas demandas e direitos estão fora do foco principal do debate público. Ante essa lacuna e a urgência na garantia de direitos, o Instituto Patrícia Galvão realizou duas pesquisas de opinião – uma qualitativa e outra quantitativa – para mapear como as mulheres grávidas têm lidado com o vírus zika, buscando trazer suas perspectivas para o centro da discussão sobre as políticas públicas de saúde, planejamento familiar e saneamento básico.
A pesquisa quantitativa, realizada em julho pelo Instituto Patrícia Galvão, em parceria com o aplicativo BabyCenter e o instituto de pesquisa Locomotiva, obteve respostas de 3.155 usuárias que se encontravam grávidas ao responder o questionário. O projeto contou com apoio da ONU Mulheres e da Fundação Ford.
Lançada no dia 02 de agosto, na Fiocruz, no Rio de Janeiro (RJ), as pesquisas repercutiram na imprensa brasileira e trouxeram a voz das mulheres neste momento de emergência pública de saúde no Brasil e no mundo.
fonte http://www.inclusive.org.br/arquivos/29630


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Controle de stress evita doenças cardíacas em mulheres




Pesquisa realizada pelo Centro Psicológico do Controle do Stress aponta que a administração do stress pode diminuir os níveis de colesterol LDL e triglicérides durante e após menopausa. Com a chegada da menopausa alguns incômodos surgem na vida das mulheres: ondas de calor, alterações repentinas de humor e dores nas articulações são sintomas comuns nessa fase. A longo prazo, outra consequência preocupante da menopausa é o aumento da incidência de doenças cardiovasculares. Uma solução para quem sofre desse problema pode ser o Treino de Controle de Stress (TCS), técnica criada pela Dra. Marilda Lipp, presidente do Centro Psicológico de Controle do Stress (CPCS). Pesquisa recente do CPCS, realizada com mulheres entre 45 e 75 anos, aponta que a técnica diminui os fatores de risco para doenças cardiovasculares. Durante o estudo o grupo de mulheres foi submetido ao método que consiste em treinar a habilidade de lidar com o stress através de psicoterapia, técnicas de relaxamento, pratica de exercícios físicos e manter uma alimentação anti-stress.

Durante o estudo 47 mulheres receberam TCS, além do tratamento médico que já estavam recebendo antes da pesquisa ser iniciada, constituindo-se do grupo experimental (GE) e 18 outras mulheres não receberam o TCS, se constituindo, assim, em um grupo controle (GC). Os critérios para verificar se o TCS seria fator significativo na melhora do quadro das pacientes foram: a redução da pressão arterial basal, mudança nos testes psicológicos, redução do nível de stress e redução dos fatores de risco identificados pelos médicos cardiologistas.

As psicocirurgias e a neuropsicologia TOC

Fonte: https://psicologado.com/neuropsicologia/as-psicocirurgias-e-a-neuropsicologia © Psicologado.com

Resumo: Este artigo investigou de forma geral aspectos históricos, sua perspectiva na atualidade, bem como as técnicas atuais de intervenção psicocirúrgica. Logo em seu surgimento as técnicas de psicocirurgia foram alvo de grandes escândalos e insucessos, causando uma má impressão em toda a população, o que se reflete ainda hoje; Perpassamos por alguns aspectos éticos para que se possa ter uma visão mais ampla acerca dos cuidados atuais tomados para que se realize esse procedimento em último caso e de forma que o paciente tenha o total controle sobre a decisão de permitir ou não a intervenção. Para finalizar compilamos rapidamente as quatro técnicas atualmente utilizadas principalmente para o tratamento de pacientes refratários com TOC ou transtorno de ansiedade grave. E identificamos a necessidade de este procedimento continuar evoluindo para atingirmos uma maior eficácia na sua aplicação.
Palavras-chave: psicocirurgia, técnicas, tratamento, TOC
1. Introdução

Um dos grandes desafios das psicoterapias sempre foi lidar com aqueles pacientes que não respondem positivamente ao tratamento, seja psicoterápico ou farmacológico. Com o advento dos procedimentos cirúrgicos, este cenário parecia se encaminhar para uma mudança, uma vez que a psicocirurgia facilitaria a vida destes pacientes com transtornos mentais graves. Todavia, como defende Ballone (2005), os métodos iniciais do tratamento neurocirúrgico conduziram este procedimento ao descrédito e ao fracasso, devido ao seu uso indiscriminado e consequentemente ao grande número de pacientes que morreram em decorrência das péssimas condições desta intervenção, a exemplo dos grandes sanatórios, que se tornaram verdadeiros centros de tortura dos “excluídos da sociedade”. Tanto que quando se fala em psicocirurgia, a maioria das pessoas ainda associa esta técnica com as lobotomias e leucotomias que eram praticadas por volta de 1935.
Não obstante a isso, esta técnica tem sofrido, ao decorrer do tempo, inúmeras interferências das diversas áreas do conhecimento, como a Bioética, Medicina e Psicologia, que se preocupam, sobretudo, com a integridade moral e física do indivíduo.
Corroborando com isto, as pesquisas da neurociência têm favorecido esta intervenção com uma maior precisão das especificidades funcionais de cada área cerebral.
Assim sendo, considera-se a grande valia para os profissionais da saúde mental conhecer esta via de tratamento e os efeitos que pode promover aos indivíduos que recorrem a ela. Por envolver muitas restrições, aspectos éticos e ser uma área em plena expansão, é imprescindível aprofundar os conhecimentos neste tema.
2. Desdobramento Histórico

Pode-se considerar a trepanação como a cirurgia neurológica mais antiga, com achados arqueológicos de crânios perfurados, desde o período neolítico. Este procedimento tinha como objetivo espantar maus espíritos e demônios, que atormentavam o comportamento dos antigos pacientes, causando a loucura e doença do cérebro (NETO, 2011; SABBATINI, 1997).
O cérebro sempre foi um órgão considerado “proibido” para estudos, por não se ter o conhecimento detalhado da anatomia e da correlação funcional precisa. Com a descoberta de que certas partes do cérebro são responsáveis pelo temperamento, fala, emoções e intelecto, a “porta” para psicocirurgia começava a se abrir. Em 1935, o neurologista português Antônio Caetano de Abreu Freire Egas Moniz, após observações clínicas em hospitais, a familiaridade com a ideia de plasticidade cerebral, estudo sobre o caso de Phineas Gage, e estudos decorrentes de uma cirurgia realizada em chimpanzés que se tornaram dóceis e passivos após a retirada dos lobos frontais, juntamente com seu assistente Almeida Lima, realizou a primeira cirurgia em pacientes psicóticos (NETO, 2011; SABBATINI, 1997; MASIERO, 2003).
Egas Moniz, seu assistente Lima, e os neurologistas Walter Freeman e James Watts criaram duas técnicas que eram aplicadas a fim de conseguir uma modificação comportamental ou eliminar sintomas psicóticos, chamadas lobotomia e leucotomia. A leucotomia refere-se ao corte da substância branca, enquanto a lobotomia seria a secção de todo um lobo. (NETO, 2011; SABBATINI, 1997; MASIERO, 2003).
A psicocirurgia foi então, introduzida como uma opção de tratamento para doença mental severa. Seu aspecto polêmico faz com que tenha períodos de aprovação eufórica e outros de rejeição pela classe médica e pela sociedade leiga. (BALLONE, 2005)
Em 1949 Egaz Moniz ganhava o prêmio Nobel de Medicina por causa de sua inovadora técnica cirúrgica chamada lobotomia pré-frontal (retirada de uma parte do lobo frontal do cérebro), indicada para alguns transtornos mentais graves e de difícil controle. Essa técnica frequentemente deixava sequelas cognitivas e de personalidade devastadoras, impregnando definitivamente o raciocínio de leigos em medicina sobre esses procedimentos (BALLONE, 2005).
Em 1954, com a descoberta e introdução de clorpromazina para o tratamento psiquiátrico, o controle satisfatório da doença psiquiátrica tornou-se positivo. Essa disponibilidade da medicação psicotrópica, mais os efeitos colaterais da psicocirurgia realizada até então, e mesmo seu uso excessivo e sem critérios nas décadas anteriores levaram ao abandono quase completo da cirurgia para doença mental. (BALLONE, 2005).
2.1 As psicocirurgias na atualidade

Atualmente, as psicocirurgias são feitas, mas existem muitas restrições. O foco deste tipo de intervenção é voltado para aqueles pacientes que não correspondem mais às intervenções da psicoterapia nem as interferências dos fármacos. Ou seja, casos extremamente graves que comprometem e incapacitam totalmente o indivíduo. Entretanto, a intervenção cirúrgica só pode ser realizada mediante a comprovação dos efeitos positivos que serão decorrentes dela.
[...] alguns pacientes deixam de responder adequadamente a todas as intervenções terapêuticas existentes e continuam gravemente incapacitados. Para esses pacientes, a intervenção cirúrgica poderia ser considerada apropriada se o nível global de funcionamento pudesse ser melhorado (COSGROVE, 2003, p. 2).
Segundo Cosgrove (2003), todo o processo de descoberta das bases biológicas das doenças mentais facilitou, com o decorrer do tempo, e continua facilitando maior precisão para a realização das psicocirurgias. Uma vez descoberta a "origem" das doenças mentais, ou seja, a área específica do cérebro onde ela está localizada, a precisão da intervenção cirúrgica será ainda mais precisa e eficaz, uma.
vez que esse tipo de tratamento consiste em romper o tecido cerebral comprometido com o objetivo de reduzir os sintomas dos transtornos mentais. Conforme a Organização Mundial da Saúde, a psicocirurgia é o campo da neurocirurgia voltado à remoção cirúrgica seletiva e/ou destruição de vias neurais, com a finalidade de modificar ou influenciar certos comportamentos (NETO, 2011).
Este procedimento, além de questões emocionais e sociais, envolve dilemas éticos. A começar pela ambiguidade do tema, pois se trata de um recurso terapêutico, mas também se refere a um procedimento experimental. Ainda neste sentido, surgem os desafios de apresentar documentos que comprovem que foram utilizados, sem efeito, todos os procedimentos não invasivos possíveis, que não são obrigatórios por enquanto, fazendo com que esta questão torne os procedimentos psicocirúrgicos, muitas vezes, utilizados sem a devida necessidade (BOMBARDA, ALVES E BACHESCHI, 2004).
Conforme Bombarda, Alves e Bacheschi (2004), baseado nisso, o Conselho Federal de Medicina ampara-se em duas resoluções para a realização das psicocirurgias. A primeira é fundamentada nas normas da ONU de 17/12/1991, que prevê 25 princípios para a Proteção de Pessoas Acometidas de Transtorno Mental e para a Melhoria da Assistência à Saúde Mental, onde a psicocirurgia é englobada no princípio 11, que determina o consentimento para o tratamento por parte do paciente e a comprovação por parte de um corpo externo de profissionais que garantam que esse tratamento é o que melhor atende à saúde do usuário. Já a segunda especifica estes princípios e assegura que o consentimento do paciente não pode ser substituído pela aprovação de um corpo de revisão.
3. Principais Técnicas

Atualmente os procedimentos psicocirúrgicos são realizados através da técnica estereotáxica, método minimamente invasivo, que indica a localização precisa da área do cérebro a ser lesada. A estereotaxia é guiada por técnicas de imagens, como a ressonância magnética (RM) ou a tomografia computadorizada (TC), e auxiliada pela fixação de um halo metálico no crânio do paciente, que possui um sistema de coordenadas multidimensionais (MESQUITA et al., 2008)
Existem diferentes técnicas estereotáxicas, como a cingulotomia anterior, a capsulotomia anterior, a tractotomia do subcaudado e a leucotomia límbica. O que varia em cada um destes procedimentos é o ponto que será o alvo cirúrgico. Atualmente, todos estes procedimentos são realizados bilateralmente e envolvem a desconexão de um ou mais circuitos límbicos; a anestesia é local, com leve sedação. Todas estas técnicas podem ser usadas para o tratamento do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) refratário, bem como estados crônicos de ansiedade e depressão (NASSER, 2002; COSGROVE, 2003).
Estes quatro tipos de procedimentos diferem em relação à área que visam lesar, propondo que a partir da lesão ocorra uma espécie de correção cerebral, objetivando não a cura, mas sim uma melhora na qualidade de vida e funcionamento do paciente (NASSER, 2002).
3.1 Cingulotomia

A cingulotomia anterior é realizada na porção anterior do giro do cíngulo, produzindo lesões térmicas por radiofrequência. Esta técnica resulta em uma lesão de 2 cm de altura e 8mm a 10mm de diâmetro. Segundo estudo de Ballantine, citado por Cosgrove, há uma demora para o início do efeito benéfico após a cingulotomia, chegando a um período de 3 a 6 meses, onde cerca de 64% dos pacientes com depressão maior e 33% dos pacientes com TOC apresentam uma melhora significativa. Os pacientes que apresentam transtornos afetivos respondem melhor ao tratamento do que aqueles com TOC, e aproximadamente 40% deles exigirão mais de um procedimento cirúrgico (NASSER, 2002; COSGROVE, 2003).
3.2 Capsulotomia

A capsulotomia anterior é executada na área cerebral chamada cápsula interna, que liga o cérebro ao resto do sistema nervoso. Consiste na lesão de porções do terço anterior da cápsula interna. Este procedimento pode ser realizado mediante a radiofrequência, que seria a neurocirurgia convencional, ou pela radiocirurgia por Gamma Knife, a qual evita a abertura do crânio, tem grande precisão e baixa exposição à radiação do tecido cerebral adjacente. Cosgrove cita um estudo de Mindus, onde 137 pacientes (64%), de 362, apresentaram resultado satisfatório após o procedimento, sendo a melhora mais significativa daqueles pacientes com depressão e TOC (NASSER, 2002; MESQUITA, 2008; LOPES et al.2004).
3.3 Tractotomia do subcaudado

A tractotomia do subcaudado visa realizar uma lesão na região da substância inominata, precisamente abaixo da cabeça do núcleo caudado, interrompendo a comunicação (os tratos de substância branca) entre o córtex órbitofrontal com as estruturas subcorticais (tálamo, hipotálamo e amígdalas). Segundo Cosgrove, as primeiras revisões pós-procedimento cirúrgico revelam bons resultados em 68% dos casos de pacientes que sofriam de depressão e 50% dos que pacientes com TOC. É importante ressaltar que pacientes portadores de esquizofrenia, transtorno de personalidade, abuso de substâncias psicoativas ou de álcool, não apresentaram resultados positivos (RÓZ et al.2011; COSGROVE, 2003).
3.4 Leucotomia límbica

A leucotomia límbica consiste em uma combinação entre a cingulotomia e a tractotomia do subcaudado, sendo o tipo de cirurgia menos utilizado. Nesta cirurgia, criam-se lesões de 6 mm no quadrante medial inferoposterior de cada lobo frontal, provocando rompimento com conexões frontolímbicas. Após, fazem-se duas lesões em cada giro do cíngulo, impedindo conexões com o Circuito de Papéz. Como em outros processos de intervenção cirúrgica a melhora não se dá de forma imediata, mas sim progressivamente. Segundo um estudo publicado por Cosgrove, observou- se que houve melhora clínica em 89% dos pacientes com TOC, 66% dos casos de ansiedade crônica e 78% dos casos de depressão maior (RÓZ et al.2011; COSGROVE, 2003).
As alterações neurológicas que aparecem após estas neurocirurgias são, na maioria das vezes, convulsões isoladas, hemorragia intracerebral, cefaleia, aumento de peso, cansaço, marcha instável, tonturas, confusão, retenção urinária, acentuação de traço de personalidade indesejável (LOPES et al.2004; COSGROVE, 2003).
4. Conclusão

Conclui-se que o método de intervenção psicocirúrgico vem a se tornar um grande aliado tanto do paciente refratário quanto da equipe médica que o acompanha, pois visa propiciar ao indivíduo uma melhor qualidade de vida.
Por outro lado, verificou-se ser um método que precisa ser minimamente avaliado antes de ser aplicado, valendo-se de caso a caso não existindo um padrão especifico para realização da intervenção cirúrgica. Por representar alto índice de risco ao paciente e possuir uma história carregada de insucessos e erros torna-se alvo de grande insegurança mesmo em casos que é a melhor opção de tratamento.
Acreditamos ser uma área que já evoluiu muito, principalmente em questões do rigor para sua aplicação e métodos. E confiando na evolução científica, espera-se que continue o desenvolvimento de exames, e que estes proporcionem cada vez mais a precisão das áreas cerebrais para que então, diminuam-se os riscos e elevem-se os índices de sucessos nas intervenções alcançando um número maior de pacientes que precisam deste auxílio para poder ter uma vida digna.
Sobre os Autores:

Referências:

Da RÓZ, L. M. et al. Psicocirurgia para tratamento de transtorno obsessivo compulsivo. Arq. Bras. Neurocir 30(3): 120-8, 2011. Disponível em <http://files.bvs.br/upload/S/0103-5355/2011/v30n3/a2705.pdf> Acesso em 13 de Maio de 2015.
NETO, A. R. S. História das cirurgias para transtornos mentais - psicocirurgia. Dilemas Éticos. Outubro de 2011. Disponível em
<http://www.neuronrn.com.br/artigo/28/historia-das-cirurgias-para-transtornos- mentais-psicocirurgia-dilemas-eticos> Acesso em 06 de Maio de 2015.
MESQUITA, A. M. et al. Capsulotomia anterior e cingulotomia anterior para o tratamento do transtorno obsessivo compulsivo. Agência Nacional de Saúde Suplementar, Rio de Janeiro, Outubro de 2008. Disponível em<http://200.214.130.94/rebrats/publicacoes/Informe_ANS_n03.pdf ?> Acesso em 13 de Maio de 2015.
NASSER, J. A. A Herança da lobotomia. Revista Galileu, Medicina e Saúde. Edição 187, Fevereiro 2007. Disponível em <http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT669589-1940-3,00.html> Acesso em 12 de Maio de 2015.
BALLONE, G. J. Psicocirurgia ou Cirurgia Psiquiátrica. PsiqWeb, Internet, revisto em 2005. Disponível em<http://www.psiqweb.med.br/>Acesso em 15 de Maio de 2015.
LOPES, A. C. et al. Atualização sobre o tratamento  neurocirúrgico do transtorno obsessivo-compulsivo. Rev. Bras. Psiquiatr.,São Paulo, v. 26, n. 1,p. 62-66, 2004. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516- 44462004000100015&lng=en&nrm=iso> Acesso: 13 de Maio de 2015.
BOMBARDA, J. M., ALVES, L. C. A.e BACHESCHI, L. A. Psicocirurgia: a busca de um equilíbrio ético. Revista Brasileira de Psiquiatria, 26(1), pp. 6-7. 2004. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rbp/v26n1/a04v26n1.pdf> Acesso em 18 de Maio de 2015.
COSGROVE, G. R.Cirurgia Para Distúrbios Psiquiátricos. MD, FRCS(C). NeuroPsicoNews - Sociedade Brasileira de Informações de Patologias Médicas – SBIPM. 2003. Disponível em <http://www.psiquiatriageral.com.br/cerebro/cirurgi a.htm> Acesso em 15 de Maio de 2015.
MASIERO, A. L. A lobotomia e a leucotomia nos manicômios  brasileiros. História, Ciências, Saúde. Manguinhos, vol. 10(2): 549-72, maio-ago. 2003. Disponível       em  <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702003000200004&script=sci_arttext Acesso em 06 de Maio de 2015.
SABBATINI,R. M. E. A História da Psicocirurgia. Revista Cérebro & Mente. Junho de 1997.Disponível em <http://www.cerebromente.org.br/n02/historia/trepan_p.htm> Acesso em 15 de Maio de 2015.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

"Primeiro sentimos, depois julgamos”.



O Professor Dr. Jorge Moll é presidente do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino. Ele investiga as bases neurais do comportamento e da cognição moral através de estudos clínicos em pacientes com distúrbios neuropsiquiátricos e experimentos com ressonância magnética funcional.
http://idor.org/images/pdf/65/Primeiro%20sentimos,%20depois%20julgamos%20-%20Mente%20C%C3%A9rebro.pdf

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Entrevista com Irvin D. Yalom: ‘A consciência da finitude nos ensina a viver’O psiquiatra americano fala sobre envelhecimento e morte em sua nova obra

Quando escreve, em especial quando relata casos de pacientes que atende em seu consultório, o psiquiatra americano Irvin D. Yalom, hoje professor emérito de Stanford, onde lecionou por mais de 50 anos, tem em mente como leitor ideal o estudante de psicologia. Seus livros, porém, são um sucesso que extrapola esse nicho - vide o caso de Quando Nietzsche Chorou, romance com 5 milhões de cópias vendidas pelo mundo, 500.000 só no Brasil. 
O apelo da obra de Yalom se deve à universalidade dos temas que explora. Em Criaturas de um Dia (tradução de Ivo Korytowski, 176 páginas, 29,90 reais), livro recém-lançado pela editora Agir, o autor de best-sellers como A Cura de Schopenhauer trata do envelhecimento e da morte, a partir dos medos de seus pacientes, mas também dos próprios.
"Odeio essas situações embaraçosas. Reconhecer rostos nunca foi meu forte, e conforme envelheci isso foi progressivamente piorando", escreve, em certo trecho do livro. "Costumo refletir melhor quando ando de bicicleta. Por isso, fiz um longo passeio pela costa sul de Kauai. Isso não significava que eu havia superado meu próprio medo da morte. Isso era um trabalho constante e diário", compartilha com o leitor em outro momento. "A ansiedade diante da morte não desaparece. Especialmente para aqueles que, como eu, continuam sondando o inconsciente."
Valer-se de exemplos da própria experiência permitem a Yalom não apenas quebrar a distância que há entre terapeuta e paciente - afinal, envelhecer e enfrentar a morte não são desafios apenas para quem procura ajuda profissional. Mas também a criar aquilo que os psicólogos chamam de vínculo, um caminho útil para a cura. E o americano, que fez terapia ao longo de toda a carreira para lidar com as próprias questões e se preparar para administrar as de outros, não tem medo de falar de si mesmo.
"Acho difícil que eu volte a escrever romances aos 84 anos, um romance exige muito da memória", diz ao site de VEJA, ao comentar o próprio envelhecimento. "Todos nós, que envelhecemos, esquecemos palavras ou nomes e precisamos criar truques mnemônicos que nos ajudem a lembrar das coisas. Envelhecer é esquecer."
Ao lado do envelhecimento e da morte, a maneira como lidamos com ele é outro ponto forte de Criaturas de um Dia, um novo compilado de casos colhidos em seu consultório. "Eu trabalhei com pacientes de câncer e ouvi muitos dizerem, 'Que pena que tive de esperar até agora, que meu corpo está debilitado pela doença, para aprender a viver'." Então, essa é a vantagem de tomarmos logo consciência da nossa finitude."
Por que o senhor resolveu intitular seu livro com uma expressão do imperador filósofo Marco Aurélio, da Antiga Roma, "criaturas de um dia"? Não é um caminho óbvio procurar agir de maneira correta para ser uma pessoa melhor? Acho que Marco Aurélio é profundo em sua simplicidade. Ele nos lembra que somos criaturas de um dia - que somos transitórios e evanescentes e que a consciência da nossa finitude pode nos ensinar algo sobre como podemos ou devemos viver. Muito tempo atrás, eu trabalhei com pacientes de câncer e ouvi muitos dizerem, "Que pena que tive de esperar até agora, que meu corpo está debilitado pela doença, para aprender a viver". Então, essa é a vantagem de tomar consciência da nossa finitude e deixar que esse saber nos guie e nos ajude a decidir como viver. Toda vez que volto a Marco Aurélio, me sinto iluminado por ele. Um dos aspectos interessantes desse livro foi que eu recomendei a leitura de Marco Aurélio para dois pacientes meus e cada um tirou algo diferente - mas útil - do autor. E, além disso, algo diferente do que eu imaginava que tirariam da leitura.
Muitos de seus pacientes encontram sentido para a vida em seu consultório. É mesmo importante dar um sentido à vida? Eu posso ajudar pacientes a encontrar ou inventar um significado para as suas vidas, e isso é de fato útil. O livro Em Busca de Sentido (Vozes), do psiquiatra austríaco Viktor E. Frankl, é um best-seller há meio século porque ali Frankl descreve como a ideia de dar um significado à vida o fez sobreviver a um campo de concentração. Ele quis viver para sair dali e compartilhar essa experiência com outras pessoas, para que muitos soubessem e a atrocidade não se repetisse. Como disse Nietzsche: "Aquele que tem um porquê para viver pode suportar qualquer coisa".
Há pessoas que, depois do nascimento de um filho, passam a pensar menos na morte. Temos filhos para espantar o medo da morte? Sim, essa é uma observação interessante. Crianças são, como disse, o nosso projeto de imortalidade, mesmo que não tenhamos consciência disso. Em um livro que escrevi um bom tempo atrás, De Frente para o Sol - Como Superar o Terror da Morte (Agir), eu mencionei que a transmissão (de genes, de nós mesmos) era uma das formas potentes para dissipar a angústia da morte - a ideia de transmissão para o futuro, de passar algo de si mesmo aos outros como a ondulação provocada por uma pedra jogada na água.
No capítulo sobre a enfermeira que conforta os outros, mas não a si mesma, o senhor cita o poeta irlandês William Butler Yeats para dizer que o luto pela morte de uma criança é a "tragédia levada ao paroxismo". Isso lembra a comoção mundial causada pela recente morte, por afogamento, de um menininho sírio. Por que é mais difícil aceitar a morte de uma criança? Acredito que a morte de uma criança seja a mais difícil de todas de suportarmos. Pais que perderam filhos enfrentam uma angústia extraordinariamente dura. Por um lado, essa perda é também a morte do nosso projeto de imortalidade - a inviabilidade de projetarmos a nós mesmos ou parte de nós mesmos no futuro. É uma catástrofe poderosa que não raramente acaba com casamentos. Cada um, pai e mãe, sente a perda à sua maneira, o que resulta na quebra do vínculo conjugal. Um dos pais, por exemplo, pode viver seu luto mantendo um memorial do filho morto em casa, deixando seu quarto, com as roupas e os móveis, intacto, e querer falar sobre a morte com frequência. Já o outro pode escolher negar a perda e mergulhar no trabalho para não pensar a respeito.
Também no capítulo sobre a enfermeira, o senhor diz à sua paciente que as ações são mais importantes que os pensamentos. Isso é sempre verdade? Fantasiar uma relação com outra pessoa, portanto, não é trair o parceiro? Se fantasiar uma relação com outra pessoa é uma forma de traição, então, temo que não haja inocentes entre nós.
É mesmo mais digno, como o senhor escreve, manter a compostura diante da morte e não demonstrar desespero? É difícil imaginar alguém que não sinta ou demonstre desespero em algum ponto do processo de morrer, mas ao mesmo tempo eu penso que há como transcendê-lo. Lembro que o meu grupo de pacientes com câncer, que deixei algum tempo atrás, tinha uma mulher que caía frequentemente em desespero, até que um dia ela apareceu muito mais vigorosa, muito mais viva e, quando eu perguntei o que havia acontecido, ela disse que havia decidido ser, para seus filhos, um modelo de como encarar a morte com elegância. Em outras palavras, encontrar um sentido no processo, mesmo que seja o processo de deixar a vida, pode nos ajudar a superar o desespero.
O envelhecimento parece um tema difícil para o senhor, mas, como ele surge bastate no livro, é preciso perguntar: como lida com ele hoje? Eu tenho 84 anos e todos os dias testemunho o que é envelhecer. Sou abençoado por ter saúde física, mas poucos de nós escapam à perda da memória. Estou escrevendo um livro de memórias agora - algo apropriado para se fazer na minha idade - e sinto que deveria escrever rápido, enquanto ainda consigo lembrar tudo de que me lembro agora. Tenho sorte de ter uma parceira de vida, a minha mulher, que eu conheci aos 15 anos. Ela está ao meu lado e pode me ajudar com coisas que eu tenha esquecido. Todos nós, que envelhecemos, esquecemos palavras ou nomes e precisamos criar truques mnemônicos que nos ajudem a lembrar das coisas. Não acho que exista alguém com 80 anos que não tenha tido a experiência de entrar em um quarto sem saber por quê, por exemplo. Envelhecer é esquecer.
O senhor tem romances sobre Nietzsche, Espinoza e Schopenhauer. Vê muitas semelhanças entre a filosofia e a psicanálise? Anos atrás, quando era um estudante de psiquiatria, me vi descontente com os principais quadros de referência disponíveis - um esquema formal de psicanálise e um referencial médico-biológico. Foi quando me ocorreu que a psiquiatria não teria começado de fato no século XIX, com as descobertas de Freud e Jung, e sim remontaria aos textos dos grandes filósofos da antiguidade. Tem sido o trabalho da minha vida tentar tirar lições de grandes pensadores e escritores, como Epicuro, Plantão, Camus, Kierkegaard, Spinoza, Schopenhauer e muitos outros e aplicar seus pensamentos à psicoterapia.
No epílogo de Criaturas de um Dia, o senhor diz esperar que o livro aumente a sensibilidade dos terapeutas para temas existenciais, que são muito presentes em toda a obra. Com um assunto tão premente e o gosto claro por filosofia, por que o senhor nunca escreveu um romance sobre Sartre ou outro grande nome do Existencialismo? É tudo uma questão de mortalidade. Se pudesse viver mais e continuar a escrever romances, eu com certeza consideraria escrever sobre Camus e Sartre, porque eles fizeram descobertas extraordinárias. Contudo, se a gente olhar de perto, vai ver que poucos romancistas continuam a escrever depois dos 80 anos de idade. Escrever um romance é uma façanha da memória. Quando faz um capítulo, você tem de ter em mente tudo o que aconteceu nos anteriores, desde a trama desenhada para o livro. Escrever é difícil, e por isso pode ter vida mais curta.
Em que medida um terapeuta precisa ser maduro e bem resolvido para atender com eficiência os seus pacientes? Sempre que meus alunos me perguntavam sobre a necessidade de treinar para atender, em um consultório, eu enfatizava que eles deviam fazer terapia, como pacientes. E sublinhava que deviam fazer isso várias vezes ao longo da vida, para lidar com questões que surgem com o tempo, como a angústia que vem com o envelhecimento. Eu fiz terapia durante toda a minha carreira. E, cerca de 30 anos atrás, comecei um grupo com outros nove psiquiatras - um grupo sem líder em que nos encontrávamos para trocar ideias e experiências, e que foi uma importante fonte de apoio e formação. Recomendo a todos os terapeutas.

  Por: Maria Carolina Maia REvista Veja outubro de 2015.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

8 ATITUDES TÍPICAS DE PESSOAS QUE TÊM DEPRESSÃO, MAS NÃO DEMONSTRAM:

Medo ou desconhecimento?
Nesse artigo conheça 8 sintomas de pessoas que levam a vida com o que chamados de “depressão mascarada”, doença que elas tentam esconder ou mesmo que nem sabem que têm.
Embora a sociedade atual demonstre, de modo geral, um maior conhecimento sobre a depressão, o que se vê, muitas vezes, é uma compreensão equivocada desta doença e de seus sintomas.
Por tratar-se de uma doença marcada por um estigma, nem sempre conseguimos identificar familiares ou pessoas próximas que estejam lutando contra a depressão. Pior ainda: devido às concepções equivocadas sobre os diferentes modos de manifestação da doença, e o tipo de ajuda a ser buscado, muitos indivíduos que sofrem de depressão não recebem o devido diagnóstico.
O resultado disso é que muitos indivíduos convivem com uma depressão mascarada – ou seja, invisível para as pessoas que os cercam, ou mesmo para eles próprios. Além disso, nos casos em que não recebeu o diagnóstico adequado, o indivíduo tenderá a lidar com seus problemas de modo a esconder a depressão, e terá dificuldades para reconhecer os verdadeiros sintomas da doença.
É preciso deixar de lado a concepção de que o sofrimento é sempre visível. Deste modo, será possível compreender melhor e oferecer ajuda aos que lutam contra as doenças não manifestas. Listamos, a seguir, alguns sinais de uma pessoa que talvez sofra de uma depressão mascarada.

1. Ela talvez “não pareça deprimida”

Influenciados por estereótipos culturais e veiculados pela mídia, muitos têm uma imagem equivocada do comportamento e da aparência do indivíduo com depressão. Na visão do senso comum, esta pessoa raramente sai de seu quarto, veste-se com desleixo, e parece estar sempre triste. Porém, nem todos que sofrem de depressão têm o mesmo comportamento.
Claro que os indivíduos são diferentes, assim como variam os sintomas e a capacidade de cada um de lidar com a doença. Muitos conseguem exibir um “verniz” de boa saúde mental – como mecanismo de autoproteção –, mas o fato de serem capazes de fazê-lo não significa que eles sofram menos. Do mesmo modo, as pessoas incapazes de mostrar tal “verniz” não são mais “fracas” que as demais.

2. Ela pode parecer exausta, ou queixar-se de um cansaço constante

Um efeito colateral da depressão é um cansaço permanente. Embora este sintoma não se manifeste em todos que sofrem de depressão, ele é muito comum. Em geral, é um dos piores efeitos colaterais desta doença.
Além disso, se o indivíduo não recebeu o diagnóstico de depressão, a causa deste cansaço pode ser uma incógnita. Mesmo que ele durma um número suficiente de horas à noite, talvez acorde na manhã seguinte como se tivesse dormido pouco. Pior que isso: talvez ele culpe a si mesmo, atribuindo isso à preguiça ou então que algum defeito de sua personalidade esteja causando esta sensação de fraqueza e falta de energia.
Este sintoma também acaba se tornando uma dificuldade para quem recebeu o diagnóstico de depressão, mas tenta ocultá-la dos amigos e colegas. Isso porque esta sensação de cansaço afeta o seu ritmo de trabalho e também os seus relacionamentos pessoais.

3. Ela poderá ficar mais irritadiça

O comportamento de uma pessoa com depressão pode ser interpretado equivocadamente, como melancolia. É muito comum que a pessoa deprimida fique mais irritadiça, e que isso não seja interpretado como um sintoma da doença. Isso é compreensível, já que a depressão não é problema de saúde “visível”, e tampouco pode ser medido com precisão – o que dificulta o combate à doença.
Além disso, o esforço constante exigido do indivíduo para lidar, ao mesmo tempo, com as inúmeras demandas de sua vida cotidiana, e com a depressão, suga suas energias, deixando-o impaciente e incapaz de ter a compreensão exata sobre as coisas.
Se o seu amigo ou conhecido recebe o diagnóstico de depressão, e compartilha esta informação com você, uma dificuldade poderá surgir, caso o comportamento desta pessoa não corresponda à imagem (equivocada) que se tem de uma pessoa com depressão: um indivíduo tímido e calado. A tendência a ter “pavio curto” e a irritar-se com facilidade é, na verdade, um efeito colateral da depressão.

4. Para ela, pode ser difícil corresponder ao afeto e preocupação das pessoas ao redor

A ideia equivocada mais comum em relação à depressão, sugerida nos parágrafos acima, é que ela causa um sentimento de tristeza.
Pelo contrário: muitas vezes, o indivíduo com depressão não sente nada; ou então vive as emoções de modo limitado ou passageiro. Depende de cada caso, mas muitos relatam um sentimento parecido com o “torpor”, e o mais próximo que chegam de uma emoção é uma espécie de tristeza, ou irritação.
Deste modo, o indivíduo terá dificuldade para corresponder de modo adequado a gestos ou palavras afetuosas. Ou então nem se dará ao trabalho de manifestar qualquer reação.
Talvez demonstre uma irritação nada racional: é possível que o cérebro dele tenha dificuldades para processar e corresponder ao seu afeto e carinho.

5. Talvez recuse a participar de atividades de que gostava muito

Uma atípica falta de interesse em participar de atividades – e durante um longo período – pode ser um sinal de depressão. Conforme mencionado acima, esta doença drena a energia do indivíduo tanto no plano físico quanto no mental – o que afeta sua capacidade de sentir prazer com as atividades cotidianas.
Um indivíduo com depressão talvez não se sinta mais atraído por atividades que adorava no passado, pois esta doença acaba dificultando o desfrute de tais atividades, que não satisfazem mais o indivíduo. Se não há nenhum outro sinal visível que possa explicar o interesse cada vez menor do indivíduo por estas atividades, este talvez seja um sintoma de depressão clínica.

6. Talvez passe a ter hábitos alimentares incomuns

O indivíduo deprimido desenvolve hábitos alimentares incomuns por duas razões: como um modo de lidar com a doença, ou como um efeito colateral da ausência do cuidado consigo mesmo. Comer pouco ou em demasia é um sinal comum de depressão. A ingestão excessiva de alimentos é vista como vergonhosa, e neste caso a comida talvez seja a principal fonte de prazer da pessoa com depressão, o que a faz comer além do necessário.
Quando o indivíduo depressivo come pouco, em geral é porque a doença está afetando seu apetite, transformando o ato de comer em algo desagradável. Isso também pode ser uma necessidade subconsciente de controlar algo, já que ele não é capaz de controlar sua depressão. Se a pessoa não recebeu o devido diagnóstico, ou se omitiu diante das pessoas o fato de estar deprimida, elas poderão considerar que os hábitos alimentares “errados” se devem a um defeito de personalidade, e tal “julgamento” fará com que o indivíduo deprimido se sinta ainda pior.

7. Os outros talvez passem a exigir mais de você

Naturalmente, as funções vitais de um indivíduo com depressão não podem ser as mesmas de alguém com boa saúde mental. Haverá coisas que ele não será mais capaz de fazer com a mesma frequência, ou abandonará de vez. Perturbá-lo ou fazer com que ele se envergonhe por causa disso só tende a causar mágoas, em vez de ajudar. Se a depressão é um assunto que ele tem tido dificuldade de abordar, será igualmente difícil para ele lidar com alguém que fique irritado diante de sua incapacidade de agir do mesmo modo que uma pessoa mentalmente sadia.
Por isso, convém sempre ser compreensivo com as pessoas, seja de seu círculo profissional ou do pessoal. Não há como saber se um indivíduo está simplesmente “desacelerando”, ou se está enfrentando um verdadeiro problema de saúde.

8. Ela poderá ter dias ruins, e dias “melhores”

Trata-se de uma doença com altos e baixos. Se o indivíduo sofre de uma depressão mascarada, ou não diagnosticada, pode parecer que suas flutuações de humor são aleatórias, dependendo da regularidade de sua depressão. Para você (e mesmo para ele, no caso de ele não ter recebido um diagnóstico), talvez não haja uma motivação para as alterações de humor, mas esta é simplesmente a maneira como a depressão se manifesta em algumas pessoas.
Se você sabe que o indivíduo sofre de depressão, poderá ter a falsa impressão de que ele, tendo passado por uma sequência de dias “bons”, está definitivamente curado. O fato de ele ter passado um dia melhor do que na véspera pode ser excelente, mas convém que você sempre lhe peça para que ele deixe claro o que consegue ou não fazer, e em que momentos.
Concluir que o indivíduo que sofria de depressão está plenamente recuperado, ou forçá-lo a retomar rapidamente a rotina normal poderá sobrecarregá-lo, e fazer com que ele se “retraia” novamente. Ofereça apoio ao amigo ou parente com depressão, mas deixe queele tome as decisões necessárias.

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Fonte: lifehack via PensadorAnônimo

quinta-feira, 9 de julho de 2015

A quem Ama - Artur da Távola

Um pedacinho de um dos meus livros prediletos - Que está sendo lido pela Quarta Vez.....
DO AMOR, Ensaio de Enigma

O homem (se) constrói o mito da perfeição pela dificuldade de aceita a inerente imperfeição  e incompletude dos atos da vida. Quanto mais o ser humano se ausculte, será para defrontar-se com a impossibilidade de alguma solução pacificadora, permanente, perfeita e acabada. Somos um fazer-se sem descanso.  Só temos paz nos raros momentos em que acertamos  ou intuímos a existência de uma plenitude cuja percepção escapa, logo de alcançada.
Os casos de amor vivem rondados por frustração ou arrependimento. Não o amor. Este é íntegro, irrefutável, cristalino, pleno e indubitável; mas os amantes, seus precários portadores. Quase sempre o tamanho do amor é maior que o dos amantes.  As pessoas têm mais amor do eu podem. Daí o fardo pesado que é carregar a chance de felicidade.
O amor é pleno mas cada amante vive envolto numa teia de limitações. Sobrevém a eterna disjuntivas: frustração ou arrependimento. Entregar-se a um amor é abandonar outros. Optar é renunciar. E, do que se renuncia e abandona, pode provir, depois, arrependimento. Afastar-se de um amor, ainda que por lúcidas razões, pode gerar, adiante, a frustração pelo que se deixou de viver.
Arrependimento e frustração são, pois, duas ameaças inevitáveis para amantes que se descobrem viáveis em pele, olho, poesia e suspiro, na medida em que se sabem cercados de repressões, compromissos, impossibilidades ou, então, exorbitantes preços existenciais a pagar pela meia felicidade.
Viver implica essa dolorosa tarefa (suplício e enigma): a de integrar esses pedaços opostos, incorporando dificuldades, vivenciando a eterna imperfeição de tudo.  Viver é descobrir-se inocente e virgem quando já se considerava pronto, vivido, definido e auto-suficiente. Somos fadados a ser pessoas sempre em algum limiar. Quanto mais conhecimento e vivência, novos limiares.
O sofrimento do homem deriva dessa estranha divisão de sua alma: ele precisa de nitidez, de encaixes perfeitos, de caminhos retos, mas só lhe e dado viver situações provisórias e incertas, sinuosos pedaços de retidão, o que o leva a manifestar, até pela mentira, as suas mais fundas verdades.
O amor, porém (não os amantes), rompe esse exercício de sofrimento, pois liga o homem a uma finalidade. Por isso o amor permite o sabor-saber, fugidio e delicioso, de algo pleno, sempre fora e além de nós, mas vivido em nós (por isso enigma), uma certeza adivinhada (e breve vivida) de plenitudes impossíveis.
O amor traz a certeza secreta de uma instância de paz, plenitude e perfeição da qual a vida é um aprendizado, por isso incompleta e inacabada, provisória e sempre em busca. O amor é o filme, mas a vida e os amantes são o trailer de um filme que se intui possível, porém nunca alguém o verá.
O amor é pleno mas os amantes precários, impossíveis, atrapalhados por eles mesmos e suas opções sempre “certerradas”.
No amor, a todo Idea corresponde algum erro real de exercício. Por isso, quem ama vive a misturar pedaços de verdades pela impossibilidade de viver a totalidade. Aqui residem o suplício e o enigma de viver: o amor é total, pleno, mas a vida de quem ama é feita de pedaços, de renuncias ou arrependimentos, de impossibilidades ou carências. Aceitar o enigma sem o deslindar é aprender a viver; é amadurecer: exige trabalho interior penoso, grandeza, equilíbrio e autoconhecimento.

Somos um todo fragmentante que, para se recompor e harmonizar, precisa viver as divisões, os sofrimentos e os açoites das mentiras que conduzem às nossas verdades mais profundas.  Viver em plenitude todos os polos de que somos compostos, eis a ressurreição em vida. O amor, em sua qualidade de rio de muitas vertentes, ajuda e ilumina esse processo de autoconhecimento permanente que é a única forma de autoconhecer-se. Por isso o amor é um estranhamento; e, ao vive-lo, os amantes atrapalham-se, atropelando-o. (Artur da Távola)

sábado, 4 de julho de 2015

A felicidade pode ser construída - Não aguento mais! Onde encontro a felicidade?

ss artigo 2
A partir de uma reflexão, um tema muito vivenciado entre os seres humanos desde épocas muito remotas e nada melhor do que partir do princípio de Freud com a seguinte citação: “Entretanto, quanto menos um homem conhece a respeito do passado e do presente, mais inseguro terá de mostrar-se seu juízo sobre o futuro” (p. 15). As pessoas de modo geral têm dificuldade em olhar para seu presente, vida pessoal, atitudes, suas relações interpessoais ou no trabalho, o mesmo em relação ao passado, que muitas vezes desejam apagar o que não querem ver, ou mesmo realmente não lembram, tendo uma vaga lembrança do que se foi. Pensam que poderiam ter feito diferente, que realmente não sabiam o que estavam fazendo, ou que pouco importa, pois já aconteceu.
O fato é como Freud colocou que “não somos donos da nossa própria casa” e que dentro do inconsciente não se sabe qual será o próximo passo, apesar de muitas vezes ignorar-se a intuição de que algo irá se repetir. O ser humano é sequioso de respostas, indagações de como será seu futuro, fantasiando que tudo será melhor, que fará diferente, esquecendo-se de que sem olhar para seu passado e para seu presente, a tendência será uma série de repetições que no final das contas será de muita insatisfação pelo que não deveria ter feito ou pelo que deixou de aproveitar. Esquece-se de que a vida não é feita de ilusões, mas precisa ser vivida mesmo diante de circunstâncias difíceis que virão o tempo todo, pois existe algo muito maior que se chama natureza.
O homem está fixado no que Freud chamou de narcisismo, somente olha para si, mas não um olhar de reforma íntima ou crescimento, mas sim de um querer absoluto e imediatista. Apesar de a ciência ter evoluído e auxiliado as gerações, o ser humano se esquece das relações interpessoais, buscando apenas aparelhos mais sofisticados para sua satisfação. Sendo essa uma fantasia de completude, um prazer efêmero, fazendo-o buscar sempre mais. Essa busca além de trazer a frustração interna, faz com que permaneça belicoso com a natureza, mesmo sabendo que o perdedor será ele mesmo.
Como conseguir uma solução para essa angústia que atormenta as pessoas? Pode-se pensar que a fé tem sido uma aliada, aliviando as dores, mas, mesmo assim, muitas pessoas ainda sentem um vazio, uma angústia, uma dor que se torna física, mas que inicialmente não encontra vestígios num consultório médico, e fica-se com a seguinte receita: “Você está estressado! Tome uma pílula da felicidade, afogue suas mágoas, esqueça os problemas, durma sem sonhar que poderá um dia mudar sua vida!” Num primeiro instante parece ser a solução, volta-se a dormir, sente-se mais calmo. Ou será que está na verdade, “zumbizando” durante o horário de trabalho? Então a sujeira debaixo do tapete começa a aparecer, atos falhos, esquecimentos, chefe cobrando, a família cobrando, não se brinca mais com os filhos, só se grita ou se cobra, só se tem vontade de dormir, dentre vários canais com assuntos diferentes você não se interessa por nenhum, pronto ela chegou: sua depressão! E agora, o que aconteceu? Você se pergunta: Fiz tudo o que o médico falou, tomei a pílula, cortei alguns alimentos, nem todos claro, um chocolate às escondidas, voltei a fazer atividade física, tudo bem que falto mais do que vou, bebo agora só nos finais de semana, que mal há em beber uma cervejinha com os amigos? O problema é que minha gastrite voltou, tenho pressão alta, o fígado não está bom e meu mau humor nem se fala! O que há de errado? Todos parecem tão felizes, eu os vejo no facebook, na televisão, no meu vizinho! Então como não se dar conta da própria vida? Olha-se a do vizinho, dos filhos, da sogra, do colega de trabalho, dizendo que toda a culpa é dos pais que fizeram ou deixaram de fazer algo.
Sabe-se que nos homens existem tendências destrutivas, com isso, na sociedade, encontramos indivíduos cada dia mais doentes, não aceitam proibições, regras ou leis. Finalmente percebe-se que as pessoas encontram-se fadadas à frustração e à insatisfação. Será mesmo esse o fim? Nesse mundo não existe felicidade? Para finalizar Freud coloca: “Gerações novas, que forem educadas com bondade, ensinadas a ter uma opinião elevada da razão, e que experimentarem os benefícios da civilização numa idade precoce, terão atitude diferente para com ela. Senti-la-ão como posse sua e estarão prontas, em seu benefício, a efetuar os sacrifícios referentes ao trabalho e à satisfação instintual que forem necessários para sua preservação” (p. 18). O exemplo mostra práticas saudáveis e que pode-se plantar sementes de solidariedade, capacitando uns aos outros, solidificando uma consciência construtiva para que a sociedade busque aliar-se às leis naturais, lutando pela própria vida. Existe uma explicação para todas essas dores e enfermidades, que não tem origem fisiológica, uma explicação que a Psicanálise pode mostrar. Não é com uma pílula que as coisas se resolverão, mas sim com atenção, respeito, confiança. O processo psicanalítico pode mostrar as respostas, que na verdade, estão muito mais próximas do que se imagina.

Referência:
FREUD. Sigmund. O futuro de uma ilusão, o Mal-Estar na Civilização e outros trabalhos (1927-1931). Coleção Imago. Vol. XXI
 extraído do original de Natália Tesouro Pereira
Psicanalista

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O Amor é cego e a loucura sempre o acompanha - Especial Dia dos Namorados

Os Sentimentos Humanos certo dia se reuniram para brincar. Depois que o Tédio bocejou três vezes porque a Indecisão não chegava à conclusão nenhuma e a Desconfiança estava tomando conta, a Loucura propôs que brincassem de esconde-esconde. A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo, e a Intriga começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear.
O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu a Dúvida e Apatia, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. A Verdade achou que isso de esconder não estava com nada, a Arrogância fez cara de desdém pois a idéia não tinha sido dela, e o Medo preferiu não se arriscar: “Ah, gente, vamos deixar tudo como esta”, e como sempre perder a oportunidade de ser feliz.
A primeira a se esconder foi a Preguiça, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. O Otimismo escondeu-se no arco-íris, e a Inveja se ocultou junto a Hipocrisia, que sorrindo fingidamente atrás de uma arvore estava odiando tudo aquilo.
A Generosidade quase não conseguia se esconder porque era grande, e ainda queria abrigar meio mundo, a Culpa ficou paralisada, pois já estava mais do que escondida em si mesma, a Sensualidade se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem frígida; o Egoísmo achou um lugar perfeito onde não cabia ninguém mais.
A Mentira disse para Inocência que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada, a Paixão meteu-se na cratera de um vulcão ativo, e o Esquecimento já nem sabia o que estava fazendo ali.
Depois de contar 99 a Loucura começou a procurar.
Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o Amor, com os olhos furados pelos espinhos.
A loucura o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando beleza pelo mundo. Desde então o Amor é cego e a Loucura o acompanha.
Juntos fazem a vida valer a pena.

Lya Luft

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Resenha do Livro: O Bebê do Amanhã - um novo paradigma para a criação dos filhos

 Por: Roberto da S. Melo

O livro “O Bebê do Amanhã” atravessa com seus postulados questões substanciais da contemporaneidade, como: o desenvolvimento saudável e desenvolvimento de transtornos psicológicos, as questões educacionais na formação da criança até questões éticas e filosóficas, como aborto e o início da vida. As teses de Verny e Weintraub mostram a força da relação entre o ser e o mundo, na construção da personalidade, desde o início da vida. Logo, são ferramentas preciosas para pais e educadores.

Na contemporaneidade, a psicopatologia infantil está sendo diagnosticada em número superior a outras épocas. Nos EUA, 9% das crianças em idade escolar são diagnosticadas com TDAH e medicalizadas. O Brasil é o segundo colocado em diagnósticos de TDAH e medicalização, vindo logo atrás do EUA. O livro torna-se uma arma contra os que defendem a etiologias deterministas de tais transtornos e, ainda, ao apontar as relações familiares como principal fator para o desenvolvimento das potencialidades da criança, mostra que, possivelmente, o principal fator para o desenvolvimento de neuroses infantis são relações conturbadas estabelecidas desde o início da vida, e que a medicalização não é o melhor caminho para a intervenção nos ditos transtornos comportamentais e sim, uma reconfiguração dessas relações.

As teses essenciais do livro “O Bebê do Amanhã", de Thomas Verny e Pamela Weintraub, são três: 1) A interação bebê/criança e o ambiente (mãe) é o fator mais forte para o desenvolvimento de uma personalidade saudável; 2) Interações positivas, carregadas de afeto positivo, facilitarão o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, e as negativas terão efeito oposto; 3) Essa interação começa desde o momento da concepção, ou seja, ainda no momento uterino. Para defender tais teses, Verny e Weintraub se fundamentam nas modernas pesquisas da Neurociência.

A interação com o meio ambiente não ocorre apenas após o nascimento, e sim desde o momento da concepção, sendo então, a mãe, o meio ambiente do feto e esta inserida no seu próprio ambiente. Logo, a mãe passará sinais do ambiente para sua criança. Verny e Weintraub colocam que as experiências, do pré-natal e após o parto, são as mais importantes para desenvolvimento sadio da pessoa.

Vários estudos, do campo da Neurociência, são apresentados no livro. Um deles mostra que a aprendizagem ocorre em momentos específicos da vida criança e não, de modo contínuo, onde uma janela na área cerebral, responsável por tal aprendizagem, é aberta, e a criança se torna apta a receber a aprendizagem, por exemplo: matemática, música, linguagem, etc. Outro estudo que impressiona é o que mostra a passagem de sinais do ambiente para o feto feito pela mãe.

O estudo que se coaduna com a tese defendida por Verny e Weintraub é o projeto Genoma, de Bipton (98). Ele mostra que mais de 95% do DNA humano não codificam dado, são interruptores. Tais genes são responsáveis por ativar e desativar os genes que vão determinar as nossas características genéticas. Ou seja, uma característica genética pode ser, ou não, ativada pelos seus interruptores, diminuindo assim, a força de hipóteses do postulado do determinismo genético. Impressiona, também, nas descobertas recentes, a velocidade do desenvolvimento das potencialidades da criança, bem superior ao que se imaginava. Com 22 semanas, os fetos já mostram padrões de ondas cerebrais semelhantes aos adultos.

O feto, desde que começa a existir, está em conexão com os sinais emocionais que a mãe envia para ele, e tal fator influenciará o estado emocional do feto e todo seu desenvolvimento. As vias de comunicação, que criam um verdadeiro diálogo da criança com a mãe e pela mãe com o mundo externo, dão-se pelo cordão umbilical e são por três canais: 1) Comunicação molecular, quando as moléculas maternas, inclusive os hormônios, chegam ao feto por meio do cordão umbilical e placenta; 2) Sensorial, quando a mãe fala, acaricia a barriga, conversa, caminha ou corre, o feto já tem seus sentidos desenvolvidos para apreender  tal comunicação de alguma modo, mesmo que rústico ainda; 3)Intuitiva, quando a forte ligação mãe e bebê faz com que ocorra a ligação de pensamentos, sentimentos e  estados emocionais entre eles.

Desta maneira, nota-se que a criança, no útero da mãe, mais do que percebe os estados afetivos da mãe, ela os sente no próprio corpo. Logo, o bebê sentirá quando a mãe está feliz, triste, alegre, com raiva, ansiedade, angústia ou medo e, mais do que isso, sentirá os verdadeiros sentimentos que a mãe tem para com ele, se o ama, se o deseja, se o teme, se odeia ou se o repulsa, entre outros tanto sentimentos possíveis . Pesquisas de várias áreas mostram como estados afetivos positivos influenciam o melhor desenvolvimento das habilidades emocionais e cognitivas da criança.

“Antes do nascimento, a experiência ajuda a estabelecer os circuitos primários do cérebro, formando uma base par a o desenvolvimento...” (p 210).

Um parênteses se faz importante: não existe pessoa, nem mãe, perfeita, e é provável, que todos os esses sentimentos estejam presentes em todas as mães, em maior ou menor escala, bem como anseios e dúvidas em relação ao novo futuro que está por vir. Neste ponto, Verny e Weintraub colocam a importância de uma “faxina emocional”, o que não significa jogar as emoções e sentimentos ruins fora, tal coisa não é possível, mas, sim, falar sobre eles, ser sincera consigo mesma, pois a melhor maneira de lidar com os sentimentos negativos é assumi-los, não recalca-los e enfrentá-los de frente.

Outro momento crucial na vida da criança é o parto. O parto é, provavelmente, a primeira experiência traumática da vida da criança, onde ela vai sair do ambiente ótimo do útero materno para o ambiente externo, cheio de ameaças, e terá que fazer movimentos, rumo a sua adaptação. A primeira difícil é adaptação ocorre logo na respiração, quando a criança, que antes obtinha oxigênio, através do cordão umbilical e da placenta, terá que se esforçar  para conseguir este oxigênio do meio ambiente. As marcas do parto são mantidas em nossa memória inconsciente, corporal para sempre na vida. A tarefa, que se impõe neste momento, é promover um parto mais acolhedor possível. Verny e Weintraub citam o programa de estimulação neonatal de Panthuraamphorn (1994) de Bangkok, no qual seis elementos são fundamentais: pouca luz e pouca estimulação visual, som ambiente abafado e pouca estimulação auditiva, toques suaves (o bebê necessita sentir o toque da mãe), calor (salas em temperatura ambiente com ar-condicionado desligado) e movimentos e atividades de apoio. Tais medidas visam diminuir o impacto da mudança do útero para o ambiente externo mundano.

O recém-nascido é um ser muito mais completo do que se cria antigas teorias. Ele já apresenta estágios muito avançados de consciência e percepção sensorial. Assim sendo, percebe e apreende o ambiente a sua volta, sendo sensível a experiência que viverá desde seu nascimento. As experiências positivas e as negativas, como a de dor, permanecerão, na memória emocional, para o restante da vida.

As experiências afetivas vividas pelo recém-nascido não afetarão apenas o desenvolvimento emocional, mas, também, o desenvolvimento cognitivo. As modernas teorias neurocientíficas mostram a interligação dos circuitos neurais destas áreas específicas do cérebro, principalmente, no que tange o momento do desenvolvimento.  Então, experiências afetivas positivas tendem a acelerar o desenvolvimento global destas áreas, enquanto, as negativas têm efeito oposto.

“A pesquisa (Shore, 1997) demonstra que a aquisição da linguagem, a cognição e a inteligência reforçam-se mutuamente e dependem da relação entre a criança e a pessoa que cuida dela. O que o oxigênio é para o cérebro, as palavras pronunciadas com delicadeza, respeito e amor são para a jovem psique.” (p 209).

Portanto, é visto que o ser é, integralmente, corpo e psique, lançado na existência, desde o início da vida, e encontra, na interação com o mundo, o centro de sua formação. O corpo fisiológico se modifica de acordo com o modo que vai se estabelecendo sua relação com o mundo. A experiência, nessa relação, inevitavelmente, deixará marcas na sua existência.

É importante salientar que o livro formula, com bases em evidências científicas, condições ideais para o desenvolvimento da criança, porém, é mister,  ressaltar que o ideal, provavelmente, nunca é alcançado. Não se trata de pais negligentes, mas sim de que, as exigências e contingências da vida fazem com que seja improvável que alguém consiga atender todas as premissas enumeradas no livro. Porém, o ideal é sempre algo a ser buscado, mesmo que nunca alcançado, por isso, o livro é arcabouço fundamental de informações, e é presumível que pais afetuosos, suficientemente maduros e interessados, façam bom uso dessas informações e possibilitem um bom ambiente para o desenvolvimento das potencialidades da criança.

Referências:

O Bebê do Amanhã - um novo paradigma para a criação dos filhos (2014). Verny, Thomas R. e Weintraub, P.; Barany, Editora; São-Paulo - SP.

Why French Kids Don't Have ADHD; Wedge, M – Psychology Today – disponível em http://www.psychologytoday.com/blog/suffer-the-children/201203/why-french-kids-dont-have-adhd  acessado em 31/12/2014