Na contemporaneidade, a psicopatologia infantil está sendo
diagnosticada em número superior a outras épocas. Nos EUA, 9% das crianças em
idade escolar são diagnosticadas com TDAH e medicalizadas. O Brasil é o segundo
colocado em diagnósticos de TDAH e medicalização, vindo logo atrás do EUA. O
livro torna-se uma arma contra os que defendem a etiologias deterministas de
tais transtornos e, ainda, ao apontar as relações familiares como principal
fator para o desenvolvimento das potencialidades da criança, mostra que,
possivelmente, o principal fator para o desenvolvimento de neuroses infantis
são relações conturbadas estabelecidas desde o início da vida, e que a
medicalização não é o melhor caminho para a intervenção nos ditos transtornos
comportamentais e sim, uma reconfiguração dessas relações.
As teses essenciais do livro “O Bebê do Amanhã", de
Thomas Verny e Pamela Weintraub, são três: 1) A interação bebê/criança e o
ambiente (mãe) é o fator mais forte para o desenvolvimento de uma personalidade
saudável; 2) Interações positivas, carregadas de afeto positivo, facilitarão o
desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, e as negativas terão efeito
oposto; 3) Essa interação começa desde o momento da concepção, ou seja, ainda
no momento uterino. Para defender tais teses, Verny e Weintraub se fundamentam
nas modernas pesquisas da Neurociência.
A interação com o meio ambiente não ocorre apenas após o
nascimento, e sim desde o momento da concepção, sendo então, a mãe, o meio
ambiente do feto e esta inserida no seu próprio ambiente. Logo, a mãe passará
sinais do ambiente para sua criança. Verny e Weintraub colocam que as
experiências, do pré-natal e após o parto, são as mais importantes para
desenvolvimento sadio da pessoa.
Vários estudos, do campo da Neurociência, são apresentados
no livro. Um deles mostra que a aprendizagem ocorre em momentos específicos da
vida criança e não, de modo contínuo, onde uma janela na área cerebral,
responsável por tal aprendizagem, é aberta, e a criança se torna apta a receber
a aprendizagem, por exemplo: matemática, música, linguagem, etc. Outro estudo
que impressiona é o que mostra a passagem de sinais do ambiente para o feto
feito pela mãe.
O estudo que se coaduna com a tese defendida por Verny e
Weintraub é o projeto Genoma, de Bipton (98). Ele mostra que mais de 95% do DNA
humano não codificam dado, são interruptores. Tais genes são responsáveis por
ativar e desativar os genes que vão determinar as nossas características
genéticas. Ou seja, uma característica genética pode ser, ou não, ativada pelos
seus interruptores, diminuindo assim, a força de hipóteses do postulado do
determinismo genético. Impressiona, também, nas descobertas recentes, a
velocidade do desenvolvimento das potencialidades da criança, bem superior ao
que se imaginava. Com 22 semanas, os fetos já mostram padrões de ondas
cerebrais semelhantes aos adultos.
O feto, desde que começa a existir, está em conexão com os
sinais emocionais que a mãe envia para ele, e tal fator influenciará o estado
emocional do feto e todo seu desenvolvimento. As vias de comunicação, que criam
um verdadeiro diálogo da criança com a mãe e pela mãe com o mundo externo,
dão-se pelo cordão umbilical e são por três canais: 1) Comunicação molecular,
quando as moléculas maternas, inclusive os hormônios, chegam ao feto por meio
do cordão umbilical e placenta; 2) Sensorial, quando a mãe fala, acaricia a
barriga, conversa, caminha ou corre, o feto já tem seus sentidos desenvolvidos
para apreender tal comunicação de alguma
modo, mesmo que rústico ainda; 3)Intuitiva, quando a forte ligação mãe e bebê
faz com que ocorra a ligação de pensamentos, sentimentos e estados emocionais entre eles.
Desta maneira, nota-se que a criança, no útero da mãe, mais
do que percebe os estados afetivos da mãe, ela os sente no próprio corpo. Logo,
o bebê sentirá quando a mãe está feliz, triste, alegre, com raiva, ansiedade,
angústia ou medo e, mais do que isso, sentirá os verdadeiros sentimentos que a
mãe tem para com ele, se o ama, se o deseja, se o teme, se odeia ou se o
repulsa, entre outros tanto sentimentos possíveis . Pesquisas de várias áreas
mostram como estados afetivos positivos influenciam o melhor desenvolvimento
das habilidades emocionais e cognitivas da criança.
“Antes do nascimento, a experiência ajuda a estabelecer os
circuitos primários do cérebro, formando uma base par a o desenvolvimento...”
(p 210).
Um parênteses se faz importante: não existe pessoa, nem mãe,
perfeita, e é provável, que todos os esses sentimentos estejam presentes em
todas as mães, em maior ou menor escala, bem como anseios e dúvidas em relação
ao novo futuro que está por vir. Neste ponto, Verny e Weintraub colocam a
importância de uma “faxina emocional”, o que não significa jogar as emoções e
sentimentos ruins fora, tal coisa não é possível, mas, sim, falar sobre eles,
ser sincera consigo mesma, pois a melhor maneira de lidar com os sentimentos
negativos é assumi-los, não recalca-los e enfrentá-los de frente.
Outro momento crucial na vida da criança é o parto. O parto
é, provavelmente, a primeira experiência traumática da vida da criança, onde
ela vai sair do ambiente ótimo do útero materno para o ambiente externo, cheio
de ameaças, e terá que fazer movimentos, rumo a sua adaptação. A primeira
difícil é adaptação ocorre logo na respiração, quando a criança, que antes
obtinha oxigênio, através do cordão umbilical e da placenta, terá que se
esforçar para conseguir este oxigênio do
meio ambiente. As marcas do parto são mantidas em nossa memória inconsciente,
corporal para sempre na vida. A tarefa, que se impõe neste momento, é promover
um parto mais acolhedor possível. Verny e Weintraub citam o programa de
estimulação neonatal de Panthuraamphorn (1994) de Bangkok, no qual seis
elementos são fundamentais: pouca luz e pouca estimulação visual, som ambiente
abafado e pouca estimulação auditiva, toques suaves (o bebê necessita sentir o
toque da mãe), calor (salas em temperatura ambiente com ar-condicionado
desligado) e movimentos e atividades de apoio. Tais medidas visam diminuir o
impacto da mudança do útero para o ambiente externo mundano.
O recém-nascido é um ser muito mais completo do que se cria
antigas teorias. Ele já apresenta estágios muito avançados de consciência e
percepção sensorial. Assim sendo, percebe e apreende o ambiente a sua volta,
sendo sensível a experiência que viverá desde seu nascimento. As experiências
positivas e as negativas, como a de dor, permanecerão, na memória emocional,
para o restante da vida.
As experiências afetivas vividas pelo recém-nascido não
afetarão apenas o desenvolvimento emocional, mas, também, o desenvolvimento
cognitivo. As modernas teorias neurocientíficas mostram a interligação dos
circuitos neurais destas áreas específicas do cérebro, principalmente, no que
tange o momento do desenvolvimento.
Então, experiências afetivas positivas tendem a acelerar o
desenvolvimento global destas áreas, enquanto, as negativas têm efeito oposto.
“A pesquisa (Shore, 1997) demonstra que a aquisição da
linguagem, a cognição e a inteligência reforçam-se mutuamente e dependem da
relação entre a criança e a pessoa que cuida dela. O que o oxigênio é para o
cérebro, as palavras pronunciadas com delicadeza, respeito e amor são para a
jovem psique.” (p 209).
Portanto, é visto que o ser é, integralmente, corpo e
psique, lançado na existência, desde o início da vida, e encontra, na interação
com o mundo, o centro de sua formação. O corpo fisiológico se modifica de
acordo com o modo que vai se estabelecendo sua relação com o mundo. A
experiência, nessa relação, inevitavelmente, deixará marcas na sua existência.
É importante salientar que o livro formula, com bases em
evidências científicas, condições ideais para o desenvolvimento da criança,
porém, é mister, ressaltar que o ideal,
provavelmente, nunca é alcançado. Não se trata de pais negligentes, mas sim de
que, as exigências e contingências da vida fazem com que seja improvável que
alguém consiga atender todas as premissas enumeradas no livro. Porém, o ideal é
sempre algo a ser buscado, mesmo que nunca alcançado, por isso, o livro é
arcabouço fundamental de informações, e é presumível que pais afetuosos,
suficientemente maduros e interessados, façam bom uso dessas informações e
possibilitem um bom ambiente para o desenvolvimento das potencialidades da
criança.
Referências:
O Bebê do Amanhã - um novo paradigma para a criação dos
filhos (2014). Verny, Thomas R. e Weintraub, P.; Barany, Editora; São-Paulo -
SP.
Why French
Kids Don't Have ADHD; Wedge, M – Psychology Today – disponível em
http://www.psychologytoday.com/blog/suffer-the-children/201203/why-french-kids-dont-have-adhd acessado em 31/12/2014
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