A
BOA ESCOLA
Meu brilhante
colega Gustavo Ioschpe, uma das mais lúcidas vozes no que diz respeito à
educação, escreveu sobre o que é um bom professor. Eu já começava este artigo
sobre o que acho que deva ser uma boa escola, então aqui vai.
Primeiro, a escola
tem de existir. No Brasil há incrivelmente poucas escolas em relação à
necessidade real.
Tem de existir
escolas para todas as crianças, em todas as comunidades, as mais remotas, com
qualidades básicas: não ultrapassar o número de alunos bem acomodados, e que
eles não tenham de se locomover para muito longe; instalações dignas, que vão
das mesas as paredes, telhado, pátio para diversão e recreio, lugar para
exercício físico e esportes; instalações sanitárias decentes, cozinha para
alimentar os que não comem suficientemente em casa; alguém com experiência
médica ou de enfermagem para atender os que precisarem.
Em cada sala de
aula, naturalmente, uma boa prateleira com livros sem dúvida doados pelos
governos federal, estadual, municipal. E que ali se ensine bem o essencial:
aritmética, bom uso da linguagem, noções de história e geografia para que
saibam quem são e onde no mundo se situam.
Falei até aqui
apenas de ensino elementar em escolas menos privilegiadas economicamente. Em
comunidades mais resolvidas nesse sentido, tudo isso não será apenas bom, mas
excelente, desde a parte material até professores muito bem preparados que
sejam bem exigidos e bem pagos.
No chamado segundo
grau, além de livros, quem sabe computadores, mas – ainda que escandalizando
alguns – creio que esses objetos maravilhosos, que eu mesma uso constantemente,
não substituem um bom professor. E que, nesse degrau da vida, todos sejam
preparados para a universidade, desde que queiram e possam.
Pois nem todos
querem uma carreira universitária, nem todos têm capacidade para isso: para
eles, excelentes Escolas Técnicas, depois das quais podem ter mais ganho
financeiro do que a maioria dos profissionais liberais.
Professores com
mestrado e se possível doutorado, diretores que conheçam administração,
psicólogos que conheçam psicologia, todos com saber e postura que os alunos
respeitem a fim de que possam aprender.
Finalmente a
universidade, que enganosamente se julga ser o único destino digno de todo
mundo (já mencionei acima os cursos técnicos cada dia melhores e mais
especializados). Universidade precisa existir, mas não na abundância das
escolas elementares.
É incompreensível e
desastrosa a multiplicação de faculdades de medicina, por exemplo, cujas falhas
terão efeitos dramáticos sobre vidas humanas. Temos pelo país muitas onde
alunos não estudam anatomia, pois não há biotério, não têm aulas práticas, pois
não há hospital-escola. Essa é uma realidade assustadora, mas bastante comum,
que, parece, se tenta corrigir.
Dessas
pseudofaculdades sairão alunos reprovados nas essenciais provas do CRM, mas que
eventualmente vão trabalhar sem condição de atender pacientes. Faculdades de
direito pululam pelo país, sem professores habilitados, sem boas bibliotecas,
formando advogados que nem escrever razoavelmente conseguem, além de
desconhecer as leis – e reprovados aos magotes nas importantíssimas provas da
OAB.
Coisa semelhante
aconteceria com faculdades de engenharia mal preparadas, se existirem, de onde
precisam sair profissionais que garantam segurança em obras diversas, de
edifícios, casas, estradas, pontes.
Vejam que aqui
comentei apenas alguns dos inúmeros cursos existentes, muitos com excelente
nível, mas não se ignorem os que não têm condições de funcionar, e mesmo assim…
existem. Em todas essas fases, segundo cada nível, incluam-se professores bem
preparados, muito dedicados, e decentemente pagos – professor não é sacerdote
nem faquir.
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| Lya Luft |
O que aqui escrevo
é mero, simples, bom-senso. Todos têm direito de receber a educação que os
coloque no mundo sabendo ler, escrever, pensar, calcular, tendo ideia do que
são e onde se encontram, e podendo aspirar a crescer mais.
Isso é dever de
todos os governos. E é nosso dever esperar isso deles.


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