Você já reparou, caro leitor, que em cenas de novelas e
filmes em que há a presença de personagens infantis, nunca há vestígios da
presença de crianças nas casas? Sofás claros sem nenhuma mancha, vasos com
plantas lindas e viçosas, enfeites delicados feitos com material muito
vulnerável, como cristal ou vidro, por exemplo. Tudo intacto. Diferentemente
das casas em que moramos, em que crianças fazem a maior bagunça, não é verdade?
Assim tem sido já há um bom tempo. Talvez, desde que o mundo
do espetáculo tomou conta de nossas vidas e que famosos mostram, com orgulho,
fotos de suas casas. Impecáveis, por sinal.
O corpo e a casa dos famosos têm sido uma pedra no sapato de
quem vive a vida como ela é. A aparência é tudo, não é? Por isso, queremos, a
todo custo, uma casa semelhante às fotos que vemos em revistas.
O problema que nos impede: temos crianças em casa. E
crianças querem ver o que há embaixo da planta que a sustenta firme e forte em
pé no vaso, querem saber o que acontece quando um enfeite cai no chão, desabam
no sofá quando querem assistir à televisão ou, apenas, descansar. Aliás, como
nós, quando chegamos em casa. A diferença é que eles não sabem controlar o
corpo, ainda.
Não é à toa que a palavra lar caiu em desuso. Lar --que
evoca família, uso da casa, convivência, afetividade-- foi substituída por
casa. Queremos uma casa bonita, perfeita. Ou quase.
Lena Gino já antevia esse movimento e, em seu poema
"Casa Arrumada", diz: "...casa, para mim, tem que ser casa e não
um centro cirúrgico, um cenário de novela.... Sofá sem mancha? Tapete sem fio
puxado? Mesa sem marca de copo? Tá na cara que é casa sem festa". Sem
criança, acrescento.
Por conta desse anseio do mundo contemporâneo, muitas mães e
pais estão às voltas com a questão de como ensinar o filho a arrumar as suas
coisas. Ensinar talvez não seja a palavra certa. Exigir cai melhor.
Em uma rede social da qual participo, um post fez sucesso
nos últimos dias. Uma tabela, feita por um pai, mostra os descontos de mesada
que o filho sofre ao deixar de fazer o que ele considera necessário. Além das
questões escolares, prioridade dos pais na atualidade, a mesada será descontada
se o filho deixar a casa desarrumada.
Então, vamos lembrar: crianças com menos de cinco anos, mais
ou menos, não são capazes de organizar suas coisas. Aprendem ajudando
--ajudando!-- seus pais, que são os responsáveis pela arrumação. Dos
brinquedos, inclusive.
Elas também não conseguem se conter quando querem explorar o
mundo. E a casa em que moram é seu mundo! Por isso, com criança pequena em
casa, é melhor recolher enfeites preciosos e plantas. E esquecer do sofá claro
todo limpo.
Depois dos cinco anos, ela já consegue se organizar, mas com
a ajuda de seus pais, e não com tabelas punitivas. Ela arruma, e seus pais
ajudam.
Finalmente, na adolescência: os filhos podem ser
responsabilizados pela própria organização e pelo respeito aos ambientes comuns
da casa, mas ainda com a tutela dos pais. Não adianta querer que eles se
comportem como adultos!
Você já tinha se dado conta, caro leitor, de como nosso
estilo de vida afeta a educação que damos aos filhos e a convivência com eles?
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