Nas áreas urbanas do mundo ocidental, entre 8 e 10% das
crianças do primeiro ciclo são diagnosticadas com TDA/H (Transtorno do Déficit
de Atenção —com ou sem Hiperatividade ). O que significa, grosso modo, que elas
não conseguem focar, são constantemente distraídas e, quando hiperativas, não
param de se movimentar.
Sabe aquelas crianças que, na hora de ler ou estudar, são
atormentadas por coceiras irresistíveis, rolam de um lado para o outro da cama,
batucam, acham que a camiseta está apertada ou que é urgente abrir a janela (ou
fechá-la)? Pois é, essas mesmo.
Elas atrapalham a classe inteira, exasperando pais e
professores. E, de fato, o transtorno é, antes de mais nada, uma queixa dos
adultos, os quais, às vezes, pedem que médicos, psicólogos e pedagogos façam
"alguma coisa" —pelo amor de Deus.
Mas não só os adultos pagam a conta: as crianças com déficit
de atenção e hiperativas não aprendem a metade do que aprenderiam se ficassem
sentadas e focadas. Várias experiências mostram que só é possível combinar
pensamento (ou aprendizado) com agitação física à condição de ser um pensador
(ou um aluno) medíocre.
Alguns dizem que tudo isso acontece porque não sabemos mais
disciplinar nossas crianças. Não queremos correr o risco de contrariá-las e de
perder seu amor e, com isso, somos absurdamente permissivos; logo,
insatisfeitos com nossa própria permissividade, tentamos corrigi-la com
erupções de severidade descabida. Essa alternância piora a tensão e a agitação
física e mental das crianças.
Enfim, diante do TDA/H, três estratégias possíveis:
1) sugerir mudanças no comportamento das crianças e dos
adultos ao redor delas (há pequenos gestos que fazem uma diferença: organizar o
trabalho escolar, acalmar e ordenar o ambiente familiar, desligar a TV durante
as refeições );
2) entender os conflitos internos que talvez se expressem na
falta de atenção e na hiperatividade da criança e tentar intervir;
3) medicar (descobriu-se que os melhores remédios não eram
calmantes, mas estimulantes como Ritalina ou Dexedrina).
No começo dos anos 1990, nos EUA, uma grande (e apressada)
pesquisa chegou à conclusão de que medicar era o caminho mais eficiente
—certamente, era o mais barato.
Hoje, vários autores daquela pesquisa duvidam de suas
próprias conclusões. Lamentam, por exemplo, que a gente, apostando nos remédios,
tenha deixado de se ocupar do resto, que talvez fosse mais importante a longo
prazo ("New York Times" de 30/12/2013).
Mas o artigo do "NYT" não é uma novidade: numa
matéria da "Der Spiegel" em 2012 (http://migre.me/hqR7i), Leon
Eisenberg, um papa da psiquiatria norte-americana, encorajava os psiquiatras a
voltar a se interessar pelas "razões psicossociais" que levariam a um
"problema de comportamento", como o TDA/H. Infelizmente, ele
comentava, o interesse por essas questões leva tempo, enquanto prescrever uma
pílula é coisa de um minuto.
Nota aparte: para muitas crianças diagnosticadas com TDA/H,
a falta de atenção depende da atividade na qual elas se engajam. Quase nunca
falta a concentração exigida por um videogame, como não faltam a atenção esperada
do goleiro ao longo de uma partida ou a paciência do surfista que aguarda uma
onda, no fundo. Ou seja, o déficit de atenção não é uma inaptidão cerebral.
Mas a pesquisa dos anos 1990, abençoando o uso sistemático
da medicação, atrasou o trabalho de todos, terapeutas comportamentais,
psicanalistas etc.
Um artigo de 2007 (http://migre.me/hqROf) retoma uma tese
antiga, que insiste desde os anos 1990, e que fala mais dos efeitos do TDA/H do
que de sua origem: o TDA/H lutaria contra o sentimento de rejeição pelos pares,
porque pensar é uma atividade solitária (com riscos de discórdia), enquanto é
rápido e fácil se enturmar ao redor de ações e movimentações físicas.
Enfim, resta um círculo vicioso clássico. Tal criança morre
de tédio assim que abre um livro ou entra num museu; agora, sem cultura para
enriquecer a experiência, é a vida dela inteira que se tornará mortalmente
chata —inclusive a agitação que deveria garantir a distração.
Por:
Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em
psicologia clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e
foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley.
Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo
(patológicas e ordinárias). Escreve às quintas.
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