Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.

Carl Rogers

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sobrecarga Psíquica Constante pode gerar e Agravar Doenças e Inflamações Cutâneas.



Às 5h45 do dia 17 de janeiro de 1995 a terra tremeu no sul do Japão. Em apenas 20 segundos, a catástrofe natural em Kobe eliminou ávida mais de 6 mil pessoas e aniquilou 300 mil casas. A violenta destruição não passou incólume pelo psiquismo dos afetados. Conforme comprovam inúmeros estudos, nas áreas destruídas repentinamente muito mais gente passou a sofrer de doenças vasculares associadas ao estresse, em comparação às estatísticas nas regiões não afetadas.
 No entanto, a sobrecarga emocional não prejudica apenas o coração. O dermatologista Atsuko Kodama, do Centro Médico de Câncer e Doenças Cardiovasculares de Osaka, observou em 1999 que a catástrofe provocou um efeito surpreendente: piorou sensivelmente também a situação da pele de muitas pessoas com neurodermite. Mais de um terço da população passou a sofrer de eczemas, coceiras e inflamações cutâneas com mais frequência.
Essa constatação não surpreende pessoas que sofrem com problemas de pele. Em geral, elas sabem que irritação, preocupações e tensão podem piorar os sintomas. Principalmente as doenças de pele inflamatórias como a neurodermite, a psoríase (uma manifestação autoimune que causa uma forte descamação da pele) ou o vitiligo pioram justamente quando estamos diante de uma situação na qual nos sentimos avaliados, enfrentamos uma grande frustração ou em casos de conflito.
Em várias ocasiões a origem do problema está na infância. É o que demonstraram em 2010 a psicóloga Edita Simoni e seus colegas do Departamento de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade de Rijeka, na Croácia. Os pesquisadores entrevistaram pacientes com psoríase e pessoas saudáveis do grupo de controle, perguntando sobre experiências traumáticas que tinham vivido na infância. De fato, aqueles que sofriam de psoríase relataram com muito mais frequência experiências dolorosas e estressantes. Vários, no entanto, começaram a sofrer com as escamações de pele somente na adolescência. Os pesquisadores supõem que, provavelmente, a instabilidade emocional tão presente nessa fase da vida reforça os efeitos negativos das vivências traumáticas.
Mas por qual caminho o estresse “penetra na pele”? Segundo médicos e psicólogos, a tensão e a sobrecarga emocional crônicas desequilibram as defesas do corpo – principalmente se faltam estratégias pessoais adequadas de superação (por exemplo, acompanhamento psicológico, hábito de praticar meditação e espaço entre os afazeres diários para simplesmente se dedicar a atividades prazerosas).
EM DESEQUILÍBRIO
Quando enfrentamos uma situação estressante, os sistemas nervoso, hormonal e imunológico reagem com um complicado mecanismo de adequação. O corpo libera mais os chamados receptores adrenérgicos: adrenalina e noradrenalina. Essas substâncias elevam a frequência cardíaca e a pressão sanguínea – o que nos prepara para uma eventual fuga ou luta. Além disso, deflagram processos que podem culminar em inflamações: células do sistema imunológico se deslocam do sangue até os tecidos para atacar potenciais agentes patogênicos, caso estes sejam identificados.

Pouco depois, entra no jogo o cortisol, conhecido como o hormônio do estresse. Sua tarefa consiste em reverter as inflamações causadas pela adrenalina e noradrenalina. Problemas crônicos, principalmente na infância, costumam atrapalhar o equilíbrio dessas duas reações. Assim, em algum momento o corpo pode não produzir mais cortisol suficiente. Se essas pessoas são submetidas a fortes sobrecargas psíquicas, as inflamações resultantes não são mais aliviadas – um passe livre para as neurodermites e outros problemas de saúde.
Em 2008, pesquisadores coordenados por Eva Peters, da Santa Casa de Berlim, descobriram a importância de outro sistema bioquímico do estresse para doenças psicossomáticas de pele – o chamado eixo de neuropeptídeos e neurotrofinas. Durante um dia inteiro, os cientistas submeteram camundongos que sofriam de uma espécie de neurodermite a um barulho que causava temor.
Ao analisarem a pele dos animais procurando diversos marcadores de inflamações, os pesquisadores alemães perceberam a presença de um tipo específico de célula nervosa que se multiplica de forma especialmente rápida em situações de estresse. Nessas ocasiões, os neurônios liberam diversas moléculas mensageiras, entre elas a proteína “substância P”. Esta, por sua vez, põe em cena os mastócitos – agentes do sistema imunológico que liberam histamina (substância que aparece em caso de alergias, causa coceiras insuportáveis e faz a pele inchar). Aparentemente ela também é responsável pelo surgimento de eczemas em fases de turbulências psíquicas.
Agora cientistas buscam possibilidades de tornar a substância P inócua. “Um medicamento que inibisse o efeito da substância poderia ser um importante elemento terapêutico para refrear as reações inflamatórias da pele”, acredita Eva Peters. O problema é que nem sempre apenas medicamentos são suficientes para reverter processos orgânicos complexos. Hoje, médicos e psicólogos utilizam cada vez mais técnicas de relaxamento e psicoterapia para complementar os procedimentos de tratamento dermatológico. “Parece inegável que doenças crônicas de pele estão, na maioria dos casos, associadas a doenças psíquicas como ansiedade e depressão”, afirma Uwe Gieler, da Clínica de Psicossomática e Psicoterapia da Universidade de Giessen, na Alemanha.
Muitas vezes, os problemas físicos e psíquicos entram em um ciclo vicioso: o estresse estimula as reações inflamatórias da pele e a coceira aumenta. Os pacientes se coçam, o que piora ainda mais a inflamação. Assim, principalmente as noites se tornam uma tortura. Instaura-se então um círculo vicioso: as pessoas dormem mal, sua disposição e desempenho durante o dia diminuem e elas tendem a sentir o estresse “normal” de fora especialmente pronunciada, o que prejudica ainda mais os sintomas. Além disso, devido às alterações visíveis da pele, frequentemente se sentem estigmatizadas e emocionalmente fragilizadas.
Alguns programas de acompanhamento têm ajudado crianças, jovens e seus pais a lidar com a patologia. Na Alemanha foi desenvolvido o Consórcio para Treinamento para Conviver com Neurodermite (Agnes, na sigla alemã), com base na psicologia comportamental. Durante as reuniões, médicos e psicólogos oferecem informações sobre a doença; ensinam, por exemplo, como agem os desencadeadores típicos das crises e como evitá-los. Os pacientes aprendem como cuidar corretamente da pele e o que podem fazer contra a coceira. Administração do estresse e técnicas de relaxamento estão também entre os temas abordados. Além disso, os participantes têm a oportunidade de trocar experiências e buscar os possíveis sentidos que os sintomas ocupam em sua história de vida.
Outro programa, Estudo Alemão sobre Intervenções em Dermatite Atópica (Gadis, na sigla em inglês), realizado com mais de 800 crianças e adolescentes que sofriam de neurodermite, mostrou que um treinamento de seis semanas pode favorecer sensivelmente o estado da pele. Tanto as crianças quanto adultos que cuidavam delas passaram a lidar melhor com a doença e sua qualidade de vida melhorou muito. Um ano após o treinamento, os efeitos ainda permaneciam. Atualmente, especialistas concordam que aprender como superar o estresse psíquico, todos os dias, é essencial para nos sentirmos bem na própria pele.
Fonte: Mente e Cérebro


sexta-feira, 22 de março de 2013

Transtono de Apego Reativo na Infância



Resumo: O Transtorno de Apego Reativo é um grave distúrbio psicológico; a doença é listada no DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Afeta crianças e bebês, e a desordem se desenvolve durante a infância, e não pode ser completamente curada. Antes de prosseguir para encontrar as respostas a respeito de como tratar um transtorno de apego reativo, vamos obter uma visão geral dessa doença em si. 
Descrição geral da doença segundo o DSM-IV: 313.89 Transtorno de Apego Reativo na Infância
Características Diagnósticas
A característica essencial do Transtorno de Apego Reativo é uma ligação social acentuadamente perturbada e inadequada ao nível de desenvolvimento na maioria dos contextos, com início antes dos 5 anos de idade e associada ao recebimento de cuidados amplamente patológicos (Critério A). Existem dois tipos de apresentação: no Tipo Inibido, a criança fracassa persistentemente em iniciar ou responder à maior parte das interações sociais de uma forma adequada a seu nível de desenvolvimento. A criança apresenta um padrão de respostas excessivamente inibidas, hipervigilantes ou altamente ambivalentes (por ex., vigilância fixa, resistência a ser confortada ou um misto de abordagem e esquiva) (Critério A1). No Tipo Desinibido, existe um padrão de vinculações difusas.
A criança demonstra uma sociabilidade indiscriminada ou falta de seletividade na escolha das figuras de vinculação (Critério A2). A perturbação não é explicada unicamente por um atraso no desenvolvimento (por ex., como no Retardo Mental) e não satisfaz os critérios para um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (Critério B). Por definição, a condição está associada a cuidados amplamente patológicos, que podem assumir a forma de negligência persistente em relação às necessidades emocionais básicas da criança por conforto, estimulação e afeto (Critério C1); negligência persistente em relação às necessidades físicas básicas da criança (Critério C2); ou mudanças repetidas de quem cuida primariamente da criança, evitando a formação de vínculos estáveis (por ex., mudanças freqüentes de pais adotivos) (Critério C3). Os cuidados patológicos supostamente respondem pela perturbação na interação social (Critério D).
Subtipos
Tipo Inibido:O tipo predominante de perturbação na ligação social pode ser indicado pela especificação de um dos seguintes subtipos para o Transtorno de Apego Reativo:
Tipo Desinibido: Este subtipo é utilizado se a perturbação predominante na ligação social é uma sociabilidade indiscriminada ou uma falta de seletividade na escolha das figuras de vinculação.
Características e Transtornos Associados
Características descritivas e transtornos mentais associados. Certas situações (por ex., hospitalização prolongada da criança, extrema pobreza ou inexperiência dos pais) podem predispor ao desenvolvimento de cuidados patológicos. Entretanto, cuidados visivelmente patológicos nem sempre resultam no desenvolvimento de um Transtorno de Apego Reativo; algumas crianças podem formar vínculos e relacionamentos sociais estáveis mesmo em face de acentuada negligência ou abuso. O Transtorno de Apego Reativo pode estar associado com atrasos no desenvolvimento, Transtorno de Alimentação da Primeira Infância, Pica ou Transtorno de Ruminação.
Achados laboratoriais associados:
Achados ao exame físico e condições médicas gerais associadas. O exame físico pode documentar condições médicas associadas que possivelmente contribuem para as dificuldades em cuidar da criança ou que decorrem destas dificuldades (por ex., atraso de crescimento, evidências de abuso físico).
Prevalência:
Os dados epidemiológicos são limitados, mas o Transtorno de Apego Reativo parece ser muito raro.
Curso:
O início do Transtorno de Apego Reativo geralmente se situa nos primeiros anos de vida e, por definição, ocorre antes dos 5 anos de idade. O curso parece variar, dependendo de fatores individuais na criança e em seus responsáveis, da gravidade e da duração da privação psicossocial associada, bem como da natureza da intervenção. Uma melhora considerável ou remissão pode ocorrer com o oferecimento de um ambiente com apoio adequado. De outro modo, o transtorno segue um curso contínuo.
Diagnóstico Diferencial:
No Retardo Mental, os vínculos apropriados com os responsáveis geralmente se desenvolvem de um modo consistente com o nível de desenvolvimento geral da criança. Entretanto, alguns bebês e crianças pequenas com Retardo Mental severo podem ser particularmente problemáticos para os responsáveis e apresentar sintomas característicos de Transtorno de Apego Reativo. Este deve ser diagnosticado apenas se estiver claro que os problemas característicos na formação de vínculos seletivos não decorrem em função do retardo.
O Transtorno de Apego Reativo deve ser diferenciado do Transtorno Autista e outros Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. Nestes, os vínculos seletivos não se desenvolvem ou apresentam alto grau de desvio, mas isto geralmente ocorre na presença de um ambiente Transtorno Autista e outros Transtornos Invasivos do Desenvolvimento também se caracterizam pela presença de um prejuízo qualitativo na comunicação e padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento. O Transtorno de Apego Reativo não é diagnosticado se são satisfeitos os critérios para um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento. O Tipo Desinibido deve ser diferenciado do comportamento impulsivo ou hiperativo característico do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade. Comparado com o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, o comportamento desinibido no Transtorno Reativo de Vinculação está caracteristicamente associado com uma tentativa de formar um vínculo social após um período muito breve de conhecimento.
Cuidados amplamente patogênicos são um aspecto definidor do Transtorno de Apego Reativo. Uma anotação adicional de Abuso ou Negligência à Criança ou Problemas de Relacionamento entre Pai/Mãe-Criança pode ser indicada. Quando os cuidados amplamente patogênicos não resultam em acentuada perturbação na ligação social, Negligência da Criança ou Problemas de Relacionamento entre Pai/Mãe-Criança podem ser anotados, ao invés de Transtorno de Apego Reativo.
Critérios Diagnósticos para 313.89 Transtorno de Apego Reativo na Infância
A. Ligação social acentuadamente perturbada e inadequada ao nível de desenvolvimento na maioria dos contextos, iniciando antes dos 5 anos e evidenciada por (1) ou (2):
(1) fracasso persistente em iniciar ou responder de maneira adequada ao nível de desenvolvimento à maior parte das interações sociais, manifestado por respostas excessivamente inibidas, hipervigilantes ou altamente ambivalentes e contraditórias (por ex., a criança pode responder aos responsáveis por seus cuidados com um misto de aproximação, esquiva e resistência ao conforto, ou pode apresentar uma vigilância fixa)
(2) vinculações difusas, manifestadas por sociabilidade indiscriminada, com acentuada incapacidade de apresentar vinculações seletivas adequadas (por ex., familiaridade excessiva com pessoas relativamente estranhas ou falta de seletividade na escolha das figuras de vinculação)
B. A perturbação no critério A não é explicada unicamente por atraso no desenvolvimento (como no Retardo Mental) e não satisfaz os critérios para Transtorno Invasivo do Desenvolvimento.
C. Cuidados patogênicos, evidenciados por pelo menos um dos seguintes critérios:
(1) negligência persistente em relação às necessidades emocionais básicas da criança por conforto, estimulação e afeto
(2) negligência persistente quanto às necessidades físicas básicas da criança
(3) repetidas mudanças de responsáveis primários, evitando a formação de vínculos estáveis (por ex., mudanças freqüentes de pais adotivos)
D. Existe uma suposição de que os cuidados no Critério C são responsáveis pela perturbação comportamental no Critério A (por ex., as perturbações no Critério A começaram após os cuidados patogênicos no Critério C).
Especificar tipo:
Tipo Inibido: o Critério A1 predomina na apresentação clínica.
Tipo Desinibido: o Critério A2 predomina na apresentação clínica.

Achados laboratoriais consistentes com desnutrição podem estar presentes. Neste subtipo, a perturbação predominante na reatividade social é o fracasso persistente em iniciar e responder à maioria das interações sociais de um modo adequado ao nível de desenvolvimento.
O que Causa Transtorno de Apego Reativo? 
Quando um bebê é ignorado e não recebe os cuidados adequados e nem atenção, desenvolve uma antipatia para com os pais e cuidadores. Há muitas causas que levam a esse transtorno de apego em crianças, e se não forem tomadas medidas para impedi-lo, pode levar a muitas complicações futuras. Uma criança com transtorno de apego reativo não pode ser curada totalmente, mas algumas medidas podem ajudar a criança a se desenvolver e vir a ser maduro e responsável. Conforme a criança cresce, ele / ela pode achar que é difícil estabelecer relações de confiança com as pessoas ao redor.
Em um transtorno de apego reativo, a criança não consegue estabelecer um vínculo com os pais ou com o cuidador. Não podemos dizer com certeza quais as causas que levam a essa desordem, as causas podem variar de um caso para o outro. A infelicidade da mãe grávida durante a gravidez também pode desenvolver essa doença em um bebê; o mais aceito é que o comportamento hostil de um cuidador/dos pais é a razão para o transtorno de apego reativo em crianças. O comportamento hostil e ressentido afeta o desenvolvimento cerebral da criança, a criança não se sente segura na companhia dos pais, e vivencia a falta de apego. Se o cuidador não se comporta bem, a criança tende a restringir-se socialmente, e tem dificuldade de se relacionar com as pessoas ao redor. Uma criança em um orfanato também pode desenvolver um transtorno de apego reativo, porque ele não recebe bastante amor e cuidado, e também é submetido a um comportamento severo na maioria das vezes. A criança também carece de atenção dos pais, no caso de existirem outros problemas na família; um filho de pais com história de doenças mentais é também suscetível a desenvolver esta desordem. Os sintomas do transtorno de apego reativo começam a mostrar-se muito cedo, mesmo antes da criança atingir cinco anos de idade. 
Esta perda de sentimentos por parte da criança/adulto resultam em vergonha, raiva, falta de confiança, um medo mórbido de se apegar alguém, uma incapacidade de compreender o pensamento de causa e efeito e uma necessidade compulsiva de controlar todas as situações.
Os casos extremos são normalmente causados por negligência crônica na infância, seguido por anos de instabilidade uma combinação muito comum para crianças que vivem em lares adotivos.
Sem intervenção adequada, estas crianças têm pouca chance de construírem relacionamentos significativos. Na assistência social, muitas vezes eles vão de um orfanato para o outro, e isso acontece por causa da gravidade dos problemas de comportamento da criança; porém cada movimento agrava a condição. Crianças com Transtorno Reativo de Apego são mestres em rejeitar os cuidadores e em destruir pontes.
Eles são estigmatizados como inadaptáveis e freqüentemente passam suas infâncias inteiras em um orfanato, um sistema projetado para ser temporário. O extremo disso inclui as crianças que são violentas, destrutivas, perigosas e sociopatas.
O desenvolvimento cerebral em crianças negligenciadas é diferente das Crianças Saudáveis; as experiências no início da vida têm um impacto tremendamente importante no desenvolvimento do cérebro.  No córtex cerebral (onde a emoção, a linguagem e a lógica são desenvolvidas) por exemplo, traumas ou falta de estimulação durante a infância levam ao subdesenvolvimento dos neurotransmissores nessa região.
Consequentemente, esta parte do cérebro é realmente menor em crianças abusadas e negligenciadas do que em crianças saudáveis. Crianças traumatizadas secretam quantidades anormalmente elevadas de hormônios de stress, que têm uma miríade de efeitos adversos a longo prazo.
Assim, quando uma criança com Transtorno Reativo de Apego parece incapaz de adquirir confiança ou empatia ou remorso, há boas razões para acreditar que sua etiologia é neurológica e não apenas uma desobediência intencional.
Os sintomas de Transtorno de apego reativo em bebês 
* O bebê chora e evita qualquer bajulação dos pais. 
* O bebê nunca sorri e está sempre com um humor ruim. 
* Os bebês normalmente reagem quando você os deixa sozinhos, mas bebês com transtorno de apego reativo não mostram quaisquer sinais. 
* O bebê evita contato visual, e não reage ou faz qualquer ruído quando as pessoas estão ao redor. 
Os sintomas de Transtorno de apego reativo em crianças e adultos 
Crianças acima de 3 anos de idade e adultos podem apresentar os seguintes sintomas: 
* Essas crianças evitam estranhos, e qualquer cuidado ou o amor vindo deles. 
* Pessoas com esse transtorno são difíceis de lidar e muitas vezes se comportam de forma agressiva. Há muitas vezes uma exibição de um sentimento de raiva e ressentimento para com os outros. 
* As pessoas com este transtorno são observadores argutos, mas nunca participam de qualquer discussão. 
* Eles sempre escondem suas emoções e nunca compartilham seus sentimentos com os outros. 
Os sinais podem ser por vezes contraditório. O comportamento é classificado em dois tipos - comportamento inibido e desinibido. No comportamento inibido, a criança se isola do mundo social e se mantém longe de estranhos. No tipo de desinibido, as crianças e adultos com este transtorno muitas vezes procuram a atenção dos outros. 
Tratamentos para o Transtorno de Apego Reativo
A boa notícia é que, com o tratamento adequado, crianças com esse transtorno podem ser reabilitadas e se ajustarem bem dentro da família e na sociedade. Nas mãos de um terapeuta qualificado juntamente com cuidadores/pais dedicados, as crianças normalmente apresentam sinais de melhora acentuada em questão de meses.
No entanto, as tradicionais terapias cognitivas / comportamentais são ineficazes no tratamento da doença, e em alguns aspectos contraproducentes, assim como são os métodos típicos utilizados pelos pais. Sem tratamento adequado, as crianças com apego comprometido continuam a lutar contra as aproximações.
Esse é o grande problema: apenas uma pequena porcentagem das crianças que necessitam de tratamento especializado para a doença estão recebendo tratamento. Os cuidadores/pais precisam de treinamento especial para que o tratamento seja eficaz. Muitas vezes os  pais adotivos perdem a fé n os profissionais de saúde mental e de assistência social, e consequentemente em  suas habilidades de serem pais. Eles se sentem impotentes e sem esperança
Intervenção Precoce é Fundamental
Como a maioria das doenças, a prevenção e intervenção precoces são as melhores soluções.
Os cuidadores/pais e a criança devem desempenhar um papel ativo durante o tratamento do transtorno. Os tipos de tratamentos mais aceitos para distúrbios de apego incluem:
  • Terapia de aconselhamento para as crianças e seus cuidadores/pais;
  • Tratamento de saúde mental (envolvendo medicamentos ou não) para os cuidadores/pais de crianças que estejam mais debilitados emocionalmente;
  • Terapia de família;
  • Palestras que enfatizem os cuidados físicos e emocionais que se deve ter com as crianças;
  • Manter a criança em um ambiente doméstico saudável e aconchegante;
  • Exibir afeição física e verbal sem medo de recusas pela criança,  buscando desenvolver sentimentos como empatia, compaixãoe  sensibilidade ;
  • Medicamentos quando necessário, para diminuir a hiperatividade, “raiva explosiva”, ou outras comorbidades- quando devidamente diagnosticadas.
Se o transtorno de apego faz com que a criança a se comportar de uma maneira que coloca a mesma ou outras pessoas em risco, um médico ou um psicólogo pode recomendar tratamento hospitalar.
Um Caso Real
Na bancada da cozinha de sua casa num subúrbio de Cleveland, Estados Unidos, Heidi Solomon fatiava o queijo para o sanduíche do filho de 10 anos. Era uma tarde comum de abril – tão comum quanto qualquer outra dos três tumultuados anos desde que ela e o marido, Rick, adotaram Daniel. “Não quero isso”, dizia o garoto, irritado. Heidi, uma mulher esguia, pouco mais alta do que Daniel, de 1,50 m, não respondeu. Sabia que a hostilidade do filho não tinha nada a ver com ela.
Daniel passara os primeiros anos de vida num orfanato que parecia uma prisão. Embora fosse amoroso quando os Solomons o adotaram, com o tempo seu comportamento piorou. Quebrava brinquedos, atacava outras crianças e, por fim, foi expulso da escola e encaminhado a um hospital psiquiátrico.
Ainda assim, Heidi não estava preparada para o que iria acontecer em seguida. Com raiva, Daniel pegou do balcão uma faca e encostou-a na garganta dela.
Até sua adoção, Daniel – nascido Florin-Daniel Bica – nunca tivera um par de sapatos, jamais havia sido educado, e nunca recebera sequer um abraço. Ele não sabia se tinha pais. Através de uma única janela, podia ver o mundo além do quarto do orfanato compartilhado com dezenas de garotos. “À noite, víamos as luzes da cidade”, lembra ele, agora com 18 anos. “Eu ficava imaginando o que seria aquilo tudo.”
Foi então que, num dia de outubro de 1996, um homem o conduziu do orfanato até um carro que o esperava. “Eu não tinha ideia do que estava acontecendo”, conta Daniel. “Parecia um sonho.” Em pouco tempo, ele estava num aeroporto, e o homem o mandava cumprimentar um casal. Heidi começou a chorar ao ver aquele menino de casaco azul que acenou com timidez. “Foi aí que teve início minha segunda vida”, diz Daniel, com um sorriso.
Aos 15 anos, Heidi havia se comprometido a adotar uma criança. Tomou essa decisão depois de se mudar para Maryland a fim de, por três anos, treinar como ginasta. Durante esse período, morou com sete famílias diferentes e, em geral, se sentia mais um fardo do que uma convidada. Quando voltou para casa, em Ohio, percebeu a importância da família. “Decidi não ter filhos biológicos, pois há muitos por aí precisando de ajuda”, conta ela.
Tornou-se professora de alunos portadores de necessidades especiais, trabalhando com gangues e crianças com problemas emocionais. Rick, que trabalha com marketing em uma empresa de máquinas de venda automática, não estava tão entusiasmado com a adoção, mas concordou como parte do pacote ao se casar com Heidi.
Pouco depois do casamento, em 1994, o casal iniciou o processo de adoção em outros países. Certa noite, ao folhear o catálogo de uma agência, Heidi se deteve diante da foto de uma criança sorridente com pele cor de caramelo e cabelos negros. “Eu disse a Rick: ‘Este é o nosso filho’”, lembra ela.
Na ocasião, o garoto vivia num austero orfanato em Beclean, Romênia. Os funcionários alimentavam e limpavam as crianças, e às vezes batiam nelas com varetas; fora isso deixavam que se virassem sozinhas.
Nos primeiros seis meses em sua nova casa, Daniel parecia se adaptar bem. Fascinado pelo universo desconhecido, adorou falar ao telefone e, com a nova mãe, aprender a nadar. Mas já apresentava sinais de problemas: tinha acessos de raiva e não conseguia dormir sozinho. Embora entendesse várias palavras em inglês, ainda se comunicava com dificuldade quando entrou na primeira série da escola pública local.
No dia em que completou 8 anos, porém, algo mudou. Foi durante a festa de aniversário organizada pelos pais – a primeira em sua vida – que Daniel percebeu claramente que alguém o trouxera ao mundo e depois o abandonara. O pensamento tomou conta dele com fúria. “Na minha imaginação, Heidi e Rick tinham me abandonado durante sete anos e, depois, me trazido de volta e tentavam agir como se nada tivesse acontecido”, conta Daniel. Eles explicaram várias vezes que não eram seus pais biológicos, mas Daniel não se convencia. “Não me importava o que dissessem”, explica. “A raiva tomou conta de mim.”
Ele irrompia em acessos que duravam horas, atirando qualquer coisa que suas mãos alcançassem e cavando buracos nas paredes da casa inteira. Por fim, Heidi e Rick tiraram tudo de seu quarto, exceto um colchão. Mas as explosões pioraram. Quando Daniel completou 10 anos, os pais lhe deram um cãozinho, que o menino imediatamente tentou estrangular. No mês seguinte, Daniel voltou da sinagoga num carro da polícia, depois de agredir um grupo de crianças com uma pá.
Os Solomons recorreram a terapeutas; Daniel mordeu um na barriga, deixando um corte de oito centímetros. Por três vezes, foi enviado a um hospital psiquiátrico, uma delas depois de ameaçar o diretor da escola com um caco de vidro. As internações apenas aumentavam sua raiva. “Antes ele sentia uma frustração que aumentava progressivamente”, diz Heidi. “Mas, depois de ter estado no hospital, tornou-se deliberadamente violento.”
Heidi era o alvo preferido de Daniel. Ele chegou a sorrir depois de golpeá-la com a cabeça e ver o hematoma ao redor do olho da mãe. Atingiu-a com um taco de golfe, e, mais de uma vez, quando Rick não estava em casa, Heidi pediu socorro à polícia. Talvez a única pessoa que Daniel odiava tanto quanto Heidi era ele mesmo. Falava em suicídio com frequência e fez várias tentativas, ao pular de janelas ou árvores.
A família começou a ruir: Rick falava em ir embora e Heidi se consumia em culpa. Especialistas em saúde mental, amigos e parentes diziam a Heidi que não havia esperança, que Daniel nunca a amaria e que ela deveria abrir mão dele. Mas Heidi se recusava a desistir. “Sabia que o motivo era o que lhe havia acontecido. E sabia que ele precisava de uma família. Daniel é meu filho. Nunca questionei isso.”
No dia em que Daniel lhe apontou uma faca, Heidi, treinada para lidar com alunos violentos, não demonstrou emoção. Retirou a faca das mãos dele com um golpe, e ele recuou. Foi o fim da crise. Só mais tarde ela se permitiu pensar no que poderia ter acontecido. Daniel era um menino franzino de 10 anos, mas estava crescendo. Heidi sabia que não poderiam continuar a viver daquela maneira. Até então, vários medicamentos psicotrópicos haviam sido prescritos para o garoto. Alguns foram inúteis; outros pareceram ajudar a estabilizar suas violentas mudanças de humor. Nenhum deles, porém, pôde tratar seu diagnóstico mais grave: transtorno de apego reativo, doença que impede o paciente de criar vínculos com outras pessoas.
“Uma criança portadora desse transtorno acredita que é má, indesejada, desprezada e impossível de ser amada”, escreveram os psicoterapeutas Terry Levy e Michael Orlans numa publicação médica que Heidi encontrou na Internet. O resultado é uma profunda sensação de alienação que gera raiva e violência. Em resumo: Daniel era incapaz de amar. Embora raro, o transtorno costuma ser encontrado em crianças que sofrem abusos.
Nos últimos anos, sob enorme pressão de governos ocidentais e com a ajuda de organizações sem fins lucrativos, a Romênia tem tomado providências para melhorar o cuidado com suas crianças abandonadas. Embora as condições em algumas instituições ainda sejam terríveis, o Romanian Children’s Relief (Alívio para Crianças Romenas), grupo com sede nos Estados Unidos que trabalha na região, ajudou a fechar muitos dos piores orfanatos. Agora, o orfanato em que Daniel viveu foi modernizado para se assemelhar a um alojamento universitário.
Essas mudanças chegaram muito tarde para ajudar Daniel, e o tratamento do transtorno de apego reativo pode ser não apenas difícil, mas também polêmico.
Em 1999, Heidi estava disposta a tomar medidas drásticas. Entrou em contato com Ronald Federici, neuropsicólogo que prescreveu um tratamento mais brando, porém rigoroso. Por dois meses, Heidi ficaria a um metro de distância de Daniel o tempo todo. Ele não deveria pedir nada, apenas aceitar a comida e as roupas que ela lhe desse. E o mais importante: era necessário que ele fizesse contato visual todas as vezes que os dois interagissem. A ideia era recriar o laço mamãe-bebê que os dois nunca haviam desenvolvido.
“Durante as primeiras semanas, eu odiava minha mãe tanto quanto é possível odiar uma pessoa”, conta Daniel. Com o tempo, ele começou a mudar. Passou a entender que Heidi e Rick não eram seus pais biológicos, e, de alguma forma, a afeição intensa fez com que ele se conscientizasse. A raiva se dissipou. Após oito semanas, seus surtos violentos cessaram e ele parou de tentar se machucar.
Apesar disso, as emoções tumultuadas de Daniel se manifestavam de formas diferentes, e ele passou a ter um comportamento passivo-agressivo: jantava o mais devagar possível e começou a roubar objetos. Mas, em comparação com o que Heidi e Rick haviam passado, isso parecia controlável. O casal então fez algo que até Rick chamou de insano: adotou outro menino órfão do Leste Europeu. Alexander Joseph – A. J. –, de 2 anos, chegou da Ucrânia para se unir à família quando Daniel estava com 12 anos.
Imediatamente, Daniel sentiu ciúmes. Começou a brincar com fósforos e, em determinado momento, ameaçou se matar. Desesperados, Heidi e Rick tentaram outro tipo de terapia de vinculação. Todas as noites, sentavam Daniel, na ocasião com 13 anos, no colo de um deles. Davam-lhe sorvete e não o deixavam sair até que fizesse contato visual e conversasse com os pais. Não houve grandes avanços, mas, durante meses com o ritual, combinado com terapia profissional intensiva, Daniel apresentou uma transformação.
Passou a valorizar tudo o que os pais haviam feito por ele e a perceber que o amavam. Começou a se abrir, parou de roubar e fez algumas amizades. E sua relação com A. J., que lutava com seus próprios problemas de comportamento – inclusive hiperatividade e uma versão branda do transtorno de apego reativo –, melhorou. Daniel sentiu orgulho do papel de irmão mais velho, e, às vezes, até cuidava de A. J.
Com o incentivo de Heidi, também começou a ajudar outras pessoas. Tornou-se líder do grupo jovem da sinagoga, construiu casas com o grupo Habitat for Humanity (Hábitat para a Humanidade) e começou a treinar como bombeiro voluntário. Há dois anos, para espanto de todos, foi premiado na sinagoga como aluno destaque da escola. Recebeu o prêmio com um discurso para 300 pessoas. Nele, Daniel falou do início de sua vida no orfanato e agradeceu toda a mudança a Heidi e Rick. Em seguida, com a voz embargada, falou as palavras que os pais temiam nunca ouvir de sua boca: “Amo vocês.”
“Foi, sem dúvida, o momento mais incrível da minha vida”, afirma Heidi.
A batalha ainda não terminou para Daniel, que ainda faz terapia e, embora seja perfeitamente articulado para conversar, apresenta dificuldade de ler e escrever. Apesar disso, deve concluir o ensino médio. A faculdade não é uma opção realista, mas Daniel tem outros planos: espera se tornar bombeiro profissional. Por experiência própria, aprendeu o que significa dar – e até arriscar – tudo por alguém. E agora pretende colocar essa lição em prática.
Tratamentos Controversos
A Academia Americana de Psiquiatria pediátrica explica que alguns praticantes promovem tratamentos potencialmente prejudiciais — e possivelmente mortais — para o transtorno de apego.
Em muitas áreas, estas técnicas constituem abuso infantil e podem agravar o transtorno de apego reativo. Estas estratégias perigosas incluem fazer a criança a passar fome ou forçar a criança a comer ou beber; vinculação ou subordinação a criança puxando os membros da criança; ou gritar com o filho até que ele ou ela se submeta aos desejos do cuidador.
Especialistas alertam os pais e cuidadores para terem cautela e cuidado com os profissionais de saúde mental que promovem essas técnicas, que não podem ser considerados tratamentos seguros e eficazes.
Um fato interessante com relação a essa história: Em abril de 2000, Connel Watkins, a terapeuta de Beth Thomas, conduziu uma sessão de terapia fatal em uma menina de 10 anos chamada Candance Newmaker. A terapia conhecida como “renascimento” culminou na asfixia de Candance. Connel foi condenada a 16 anos de prisão, cumpriu 7 anos e foi libertada em 2008. Ela foi proibida de trabalhar com crianças. 
Referências:
Associação Americana de Psiquiatria n/a Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (revista 4 ª ed.). Washington, DC: autor.
Dulkan, M.K n/a Livro do Dulcan de criança e Adolescent Psychiatry. Arlington, VA: American Psychiatric Publishing, Inc

terça-feira, 19 de março de 2013

Entre os muros, na escola




Por Lucio Carvalho *

Antes de qualquer outra coisa o título acima não está errado. Não irei falar aqui (atrasadamente) do premiado filme francês “Entre os muros da escola”, mas de uma situação muito real acontecida recentemente aqui mesmo no Brasil, na cidade de Belo Horizonte, revelada numa reportagem do Jornal da Record, disponível neste link:http://noticias.r7.com/videos/direcao-de-escola-em-bh-quer-separar-com-muro-alunos-com-deficiencia-de-outros-estudantes/idmedia/51313f686b710e72f1d31c5f.html.
Trata-se de uma iniciativa dos “gestores” da escola em erguer um muro dividindo seu pátio interno para separar alunos com deficiência dos demais. Através das declarações das autoridades competentes pode-se saber que a escola, que no passado havia sido exclusivamente destinada às pessoas com deficiência, enfrenta alguns problemas de convivência. O muro, no caso, foi a solução encontrada para resolver o impasse.
Murar os pátios escolares e os espaços públicos não é exatamente uma novidade mundo afora, muito menos aqui. Sob o pretexto de conter pessoas supostamente incontroláveis ou apenas como edificação de um critério distintivo explícito entre pessoas, muros – queira-se ou não – são símbolos inequívocos do apartheid. Tampouco trata-se de uma novidade para as pessoas com deficiência, afinal por anos elas estiveram encerradas em pátios especiais e instituições filantrópicas. O espanto consiste em verificar-se que, em pleno séc. XXI, ainda se busque esse tipo de solução para a convivência entre os seres humanos, ainda mais em se tratando de crianças.
Muito provavelmente o gênio que bolou a ideia deve pensar consigo mesmo: como não pensei nisso antes? Diante de um problema, o melhor a fazer é liquidar com ele. Não parece verdade o fato de não se perceber um problema significar que ele não exista? Pois é, parece mentira que alguém ainda pense assim, mas não é.
Mas o que mais incomoda na situação é o fato de que a medida, adotada sob as tendas do “gerenciamento” e da “administração escolar”, seja debitada exatamente na conta de uma implausível preocupação com as pessoas com deficiência. É “para o bem” dessas pessoas, dirão outras, de cenho franzido. É claro que uma medida dessas foi gestada sem consulta alguma à comunidade escolar ou mesmo às leis vigentes sobre educação no país. Caso contrário isso não teria sido levado adiante, não é possível.
O fato é escandoloso sob muitos outros aspectos, mas nada que se compare à humilhação que se quer perpetrar sobre as pessoas com deficiência e sua famílias, como aponta uma das mães da entrevista. E, além disso, há tanta coisa para ser construída nas escolas do Brasil inteiro que não sejam muros.. Para que, afinal, gastar tempo, recursos públicos e energia com isso??

* Coordenador-Geral da Inclusive – Inclusão e Cidadania.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O autismo na era da indignação



Pintura da artista plástica Deborah Paiva para a edição de 17 de março da "Ilustríssima"
RESUMO Pai de um menino com autismo, jornalista faz apanhado dos discursos sobre a síndrome, tanto no campo social e midiático como nos estudos científicos. Apesar de progressos pontuais, como lei aprovada em dezembro passado, a carência de políticas públicas no país e a desinformação alimentam o preconceito vigente.
No filme "As Chaves de Casa" (2003), de Gianni Amelio, Nicole (Charlotte Rampling) diz a Gianni (Kim Rossi Stuart) como percebeu que ele, embora negasse, era o pai de Paolo (Andrea Rossi), um adolescente com deficiências físicas e intelectuais: pela vergonha estampada em seu rosto. A vergonha é um sentimento que também não abandona quem tem um filho com autismo --eu tenho um, de 12 anos.
Se antigamente o deixaríamos trancado em casa, para não expô-lo (e não nos expormos) aos olhos da sociedade, hoje nos esforçamos para levá-lo à praia, ao cinema, às compras e, sobretudo, à escola. Mas a vergonha está, com frequência, na nossa cara, porque na cara dos outros à volta estão o desconhecimento, o desconforto, ou pior, o escárnio, o nojo.
Antes (e ao lado) da vergonha, vêm o luto e a culpa. Depois vem a indignação. Essa divisão esquemática não sobrevive ao crivo de nenhum psicólogo ou psiquiatra. Não tem problema: uma coisa que um pai de autista aprende logo é a se lixar para certos crivos. Assim como nossos filhos, temos um mundo bem particular.
Quem ri de nós ou faz cara feia costuma ser alvo de iras avassaladoras. É o que anda acontecendo. Se vivemos numa era em que tudo é motivo de indignação (no Facebook, nas conversas pelo celular, nas mensagens anônimas nos sites de notícias, nos programas matinais de rádio, nas revistas semanais, às vezes até em praças públicas), também queremos, em nome dos filhos que tanto amamos, nosso quinhão de gritos. A ONU legitima os que poderemos dar no próximo 2 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo.

Pintura da artista plástica Deborah Paiva para a edição de 17 de março da "Ilustríssima"
SÍNDROME
Um resumo sobre o autismo: ele se caracteriza por problemas na comunicação (mesmo as pessoas verbais têm fala atípica e dificuldade para expressar ideias e sentimentos); na socialização (possibilidade de mal-estar em meio aos outros, pouco contato visual e compreensão por vezes precária das conversas); e no comportamento (padrões repetitivos e movimentos estereotipados, como balançar o corpo). É uma síndrome, um conjunto de sintomas, não exatamente uma doença. No Brasil, não há qualquer estatística, mas pesquisas em outros países apontam para algo como um autista em cada cem habitantes. Você não sabe ou não quer saber, mas tem um aí ao seu lado.
Percebi que meu filho poderia estar nesse quadro da maneira que a maioria dos pais percebe: em função do atraso na fala. Aos dois anos, seu vocabulário era muito pequeno e pouco funcional. Depois de uma romaria por terapeutas, processo sofrido e também usual, o diagnóstico foi fechado quando ele contava quatro anos.
Por vício de repórter, que costuma encarar missão dada como missão cumprida, fui apurar o que era necessário fazer para, digamos, resolver a questão. Descobri que o buraco era tremendamente profundo. E que a questão nunca se resolve, é para sempre. Ao menos não fiquei patinando no luto, que é aterrador. O diagnóstico significa o desmoronamento das habituais fantasias acerca de filhos e um xeque-mate na própria vida. Do luto à luta leva tempo.
Há dois meses, em seu blog no site da Folha (assimcomovo ce.blogfolha.uol.com.br), o jornalista Jairo Marques chamou os autistas de "povão tchubirube", entre outras brincadeiras.
Centenas de pais protestaram junto ao jornal e nas redes sociais. Não vou dizer que gostei dos termos, mas, talvez por conhecer Jairo e saber que ele jamais teria um gesto preconceituoso, não me incomodei. Embora compreensível, a reação foi exagerada.
É diferente do quadro "Casa dos Autistas", que a MTV apresentou em 2011, com Marcelo Adnet e outros fazendo --com um alcance, multiplicado pelas sucessivas postagens do vídeo na internet, muito maior do que o de um jornal--, a propaganda do bullying, do escárnio. Participei do movimento que levou a emissora, mesmo com relutância, a se retratar. Jairo riu, não escarneceu. E humor que anda na linha não é humor. Mas humor que agride quem não pode se defender tampouco o é.
Passamos por algo muito pior no final de 2012. Em 14 de dezembro, Adam Lanza, de 20 anos, matou 20 crianças e seis mulheres numa escola da cidade de Newtown, em Connecticut, nos Estados Unidos. Antes, matara a própria mãe em casa. E, depois de dar por concluído o massacre, atirou em si mesmo.
Seu irmão Ryan disse que Adam era "meio autista". A frase correu mundo, esteve em primeiras páginas e despertou nos meios de comunicação um interesse por investigar as relações entre autismo e matanças em série. Os resultados ficaram entre a frustração das pautas, por inexistência de tais relações, e a disseminação do preconceito, por ignorância de quem resolveu tratar do assunto.
Dois dias após a chacina, o "Domingão do Faustão", programa da Globo cujo repertório de atrações já é habitualmente nefasto, dedicou longos minutos a uma entrevista de seu apresentador com uma desastrada psicóloga que, mesmo sem desejar, conseguiu misturar Síndrome de Asperger (forma branda de autismo que era, acredita-se, um dos diagnósticos de Lanza) com psicopatia. A indignação dos pais, preocupados com mais esse estigma sobre seus filhos, virou uma onda que desaguou em outras reportagens, agora mostrando o absurdo da mistura.
A emissora promete tratar do assunto na próxima novela das 21h. Aguardamos com atenção e esperançosos, pois pode ser uma ótima forma de divulgação e esclarecimento.
LEI BERENICE
Foi num gesto contra o preconceito e o isolamento que a presidente Dilma Rousseff sancionou, em 27 de dezembro do ano passado, a lei nº 12.764/12, conhecida como Lei Berenice Piana, em homenagem à mãe de Itaboraí (RJ) que tanto batalhou pelo projeto que pode beneficiar seu filho e milhares de outros.
A nova lei dá direito a atendimento especializado e obriga o Estado e as entidades privadas a garantir o acesso à educação e ao mercado de trabalho, dentre outros direitos. Escolas e planos privados de saúde não poderão rejeitar pessoas com autismo, e estas terão como reivindicar prioridade no atendimento. O gestor escolar que recusar a matrícula de um aluno com deficiência pode receber multa de 3 a 20 salários mínimos.
Os pais e profissionais que defendem o ensino especial (por acharem que os alunos aprendem mais assim e ficam protegidos de bullying, argumentos sérios que devem sempre ser levados em conta) vêm se queixando de uma desvalorização dos trabalhos voltados diretamente para autistas. Mas a redação da lei não impede que as escolas especiais continuem a existir. O que não tem havido é incentivo público a essa ala da educação, opção que precisa continuar a ser debatida.
Mais urgente é a criação de uma política pública para o autismo. O Estado brasileiro praticamente ignora o assunto. E o passo inicial é simples: propagar pelo país a experiência da Casa da Esperança, de Fortaleza, referência internacional em atendimento a autistas. O que vemos, no entanto, é a casa lutando para não fechar as portas, pois a prefeitura da capital cearense retarda o repasse das verbas do SUS. A maioria dos autistas não vota, então não interessa aos donos do poder.
E quem somos esses agora indignados, os pais? Por muito tempo, fomos os vilões responsáveis pelo autismo dos nossos filhos.
A síndrome começou a ser descrita na década de 1940 pelo norte-americano Leo Kanner (1894-1981) e pelo austríaco Hans Asperger (1906-80), cada qual em seu continente. Não havia, naquela época, condições de pesquisa que permitissem a médicos e psicólogos saber o que sabemos hoje: o autismo é fundamentalmente genético, embora, ao contrário da síndrome de Down, ainda não seja possível isolar os genes causadores, pois são incontáveis, e seus funcionamentos variam muito de acordo com a combinação entre eles.
Resulta que o chamado "espectro autista" é amplo: dos casos severos, com comprometimentos absolutos, aos de alto funcionamento, que podem desenvolver sofisticadíssimos softwares no Vale do Silício. E há os savant, aqueles que têm facilidade extrema para alguma atividade específica, como a matemática para Kim Peek, o americano que inspirou o filme "Rain Man" --e que tinha enormes prejuízos em outros campos. Meu filho está no TID-SOE (Transtorno Invasivo do Desenvolvimento sem Outra Especificação), a larga faixa entre os extremos.
FRIEZA
A psicanálise assumiu, já em meados do século passado, a hegemonia nas interpretações sobre o autismo. E, então, como não poderia deixar de ser, a culpa sobrou para os pais. Mais especialmente, para as mães, cuja suposta frieza causaria o problema.
Bruno Bettelheim (1903-90), psicólogo norte-americano nascido na Áustria, cunhou a expressão "mãe geladeira". E chamou os autistas de "fortaleza vazia". As duas imagens, temos certeza hoje, são falsas e estúpidas. Ele e seus seguidores defendiam que os filhos fossem afastados das mães para que se cogitasse alguma evolução. O mal que Bettelheim fez a gerações de pais jamais será sanado.
Parece haver um lugar, no entanto, em que suas ideias continuam sendo respeitadas e a psicanálise permanece hegemônica quando o assunto é autismo. Esse lugar é a França.
Ao menos, é o que tenta provar Sophie Robert nos 51 minutos de seu filme "Le Mur" ("O Muro"). Concluído em 2011, o documentário continua sofrendo fortes críticas de psicanalistas franceses, e sua exibição em cinemas e na TV foi vetada, mas é facilmente encontrado --e muito acessado-- no YouTube. Três dos psicanalistas entrevistados estão processando a diretora, alegando que tiveram suas falas deturpadas.
É mais correto supor que a edição foi capciosa, selecionando o que de pior eles devem ter dito. Sophie Robert não demonstra, nas conversas, a agressividade de um Michael Moore, que nem sequer simula equilíbrio na feitura de seus documentários, mas não contemporizou na montagem dos depoimentos. Denuncista, o filme é uma colagem de declarações assustadoras, feitas por discípulos tardios de Bettelheim que, embora digam atender autistas, não aparentam ter a mais vaga ideia do que seja conviver com eles.
O problema é que pessoas como essas não vivem em cativeiro na França. Estão soltas por aí. A primeira terapeuta à qual levei meu filho tinha um consultório chique no Leblon (zona sul do Rio), com divã tradicional e tudo. Durante mais de um ano, ela se recusou a dar um diagnóstico, pois dizia que essa era uma questão restrita ao relacionamento com o cliente, no caso uma criança pouco verbal de três anos de idade. Afirmava que seu papel era estimular o inconsciente do meu filho a aflorar. E que o autismo era um tipo de psicose (absurdo sepultado nos anos 1970, quando ela devia estar na faculdade). De quem era a culpa de tudo? Dos pais, que brigavam muito.
No seu maniqueísmo, o filme de Robert acompanha dois adolescentes: Julien, que não avançou por ter ficado submetido à psicanálise, e Guillaume, que progrediu por ser tratado com os métodos comportamentais, principalmente o programa de exercícios ABA (Applied Behavior Analysis, ou análise comportamental aplicada). Ao reduzir assim um universo tão amplo (não há um autista igual a outro), a diretora comete um grande erro e faz propaganda enganosa.
A linha comportamentalista predomina nos países anglo-saxões, sobretudo nos Estados Unidos. Consiste numa série de práticas visando à integração social a partir da repetição, do reforço das convenções, da orientação sobre o que se pode ou não se pode fazer. Por um lado, o trabalho garante, se bem-sucedido, a adequação às regras da convivência. Por outro lado, parte do princípio de que existem cânones a ser cumpridos e que cada pessoa deve se adequar a eles, em vez de ter suas características peculiares compreendidas.
Voltando a um exemplo pessoal, a segunda terapeuta de meu filho era comportamentalista. A substituição foi propositalmente radical. Ela atendia numa clínica de Botafogo (também zona sul, mas com um PIB bem inferior ao do Leblon) e estava sempre elegante, o que levou minha irmã a chamá-la de "Barbie terapeuta". Não se sujava, embora trabalhasse com crianças, porque ficava sempre numa mesa diante delas, fiel às regras do programa ABA. No caso de meu filho, queria, por exemplo, ensiná-lo o que era amarelo, azul, vermelho, mas na abstração, sem casar as cores com nada que fizesse parte do cotidiano dele. Quando a paciência se esgotava, ele dizia "cocô" e se fechava no banheiro, fugindo da chatice inútil.
VOZES
Sem querer também incorrer no erro do reducionismo, os extremos de que se falou até aqui refletem, a meu ver, o seguinte problema: como um dos pilares do autismo é a deficiência na comunicação, os discursos produzidos são, em sua quase totalidade, sobre a síndrome e sobre as pessoas afetadas por ela. Há disputas pelas representações do autismo: catastrofismo x esperança; educação especial x inserção escolar; psicanálise x comportamentalismo... É um grande alento quando surgem vozes, por assim dizer, de dentro do autismo.
A que mais me impressionou em tempos recentes foi a de Carly Fleischmann, uma adolescente canadense que, após viver 11 anos fechada em si mesma, abriu-se para o mundo a partir do computador. Passou a escrever como ninguém supunha que ela pudesse. E começou, digitando, a falar de sua condição e a responder sobre autismo a quem a consulta. Na última vez em que vi, sua página no Face- book estava com 69.561 "curti". No site brasileiro em que descobri a história, o texto sobre Carly tem 113 mil compartilhamentos.
É enriquecedor ver o curta-metragem "Carly's Cafe", feito a partir dos relatos dela. A câmera filma do ponto de vista de Carly, mostrando como uma pessoa com autismo é sensível a sons e outros estímulos, e como ela se frustra por não conseguir expressar o que quer.
O inglês Mark Haddon não é autista, mas escreveu em 2006 um belíssimo romance, narrado por um adolescente que tem a síndrome. "O Estranho Caso do Cachorro Morto" [trad. Luiz Antonio Aguiar, Record, 288 págs., R$ 37,90] reproduz, inclusive com mapas e desenhos, como funciona a cabeça de um autista obcecado por cálculos e que segue seu raciocínio lógico para tentar descobrir quem matou um cachorro, fato do qual é suspeito. Dos muitos títulos dessa minibiblioteca temática que acabei formando, esse é um dos meus favoritos.
Para quem vive próximo do tema, o caso paradigmático de sucesso é o da norte-americana Temple Grandin.
Hoje uma senhora de 65 anos, Grandin foi uma criança condenada por médicos a passar a vida internada. Trilhou outro caminho graças, principalmente, à sua paixão por animais. Inventou o método menos sofrido --e largamente mais utilizado-- de abate do gado, que não percebe que vai morrer. Foi tema do belo ensaio que dá nome ao livro "Um Antropólogo em Marte" [trad. Bernardo Carvalho, Companhia das Letras, 352 págs., R$ 54], do médico e escritor inglês Oliver Sacks --a expressão do título é como Grandin define um autista. Escreveu em 1986, com o auxílio da jornalista Margaret M. Scariano, a autobiografia "Uma Menina Estranha" [trad. Sergio Flaksman, Companhia das Letras, 200 págs., esgotado]. Foi tema do filme "Temple Grandin" (2010), com Claire Danes em seu papel. E palestras suas estão disponíveis no YouTube.
Aprendi lendo Grandin que mesmo os autistas pouco ou nada verbais entendem praticamente tudo o que é dito à sua volta. Passei a ser mais cuidadoso e a respeitar mais os longos silêncios do meu filho.
O geólogo baiano Argemiro Garcia é uma referência no Brasil entre pais de pessoas com autismo. Coordena a maior lista de discussão sobre o tema na internet e, à frente da Afaga (Associação de Familiares e Amigos da Gente Autista), participa de campanhas importantes. Em um texto inicialmente dirigido às mães, "Bem-vinda à Montanha-russa", ele afirma que é dispensável perguntar se nossos filhos serão como Temple Grandin. "Eu jamais vou conseguir ser como ela!", ressalta, antes de tocar num ponto fundamental para quem tem um filho com autismo: "Duvido que ele venha a se tornar um canalha. Isto, nunca ouvi falar que um autista fosse". Infelizmente, por não saberem mentir e manipular, ficam mais vulneráveis a canalhas mentirosos e manipuladores.
Acho que é por isso que nos indignamos tanto quando ouvimos a palavra "autista" usada como ofensa --substituindo, por exemplo, "mongoloide" e "retardado mental", hoje não tão ouvidas, felizmente. Esse uso é muito comum entre políticos. E ninguém vai querer o diagnóstico do próprio filho na boca de um Renan Calheiros, de um Eduardo Cunha. Mas a estupidez é democrática: o adjetivo também já foi endereçado pelo intelectual Emir Sader a Ana de Hollanda, ex-ministra da Cultura.
Por mais santa que seja a nossa ira, não somos policiais da língua. Temos que moderar nossa caça às bruxas. Escrevi várias vezes aqui a palavra "autista". Mas ela vem sendo banida dos discursos de pais e profissionais, que a consideram estigmatizante por transformar uma característica em algo que define totalmente a pessoa, nublando sua subjetividade. Pois imaginem se, num texto de 17 mil toques, eu tivesse de escrever sempre "pessoa com autismo". Prefiro mandar às favas o que vejo como preciosismo.
O politicamente correto também quer nos forçar a dizer que é muito legal ter filhos com determinados problemas, como se isto nos tornasse seres humanos melhores. Quando vejo programas de TV sobre a família Kirton (um casal americano, John e Robin, e seus seis filhos autistas), fico me perguntando que tipo de fanatismo religioso impede dois adultos de parar de procriar se está claro que a combinação de seus genes é problemática.
"Quando se tem filhos deficientes, é preciso suportar ouvir muita bobagem", escreve o francês Jean-Louis Fournier, pai de dois meninos com problemas genéticos (não autistas) em "Aonde a Gente Vai, Papai?" [trad. Marcelo Jacques de Moraes, Intrínseca, 160 págs., R$ 9,90], um livrinho que concilia, sem censuras, amor e humor. "Há também os que dizem: 'O filho deficiente é um presente dos Céus'. E não dizem isso como piada. Raramente são pessoas que têm filhos deficientes. Quando se recebe esse presente, dá vontade de dizer aos Céus: 'Ah, não precisava...'."
Mesmo em forma de sarcasmo, é possível manter a alegria quando se tem algo como o autismo tão perto, tão dentro de você. Se não for assim, é impossível suportar. Mas não subestimem nossa ira. Somos mais incontroláveis do que nossos filhos

LUIZ FERNANDO VIANNA
ESPECIAL PARA A FOLHA

domingo, 17 de março de 2013

Assumr novos desafios ajuda a reduzir perdas cognitivas


Desempenhar funções atribuídas aos mais jovens pode prevenir e até mesmo reverter efeitos negativos do envelhecimento no cérebro. É o que sugere a bióloga Gro Amdam, da Universidade Estadual do Arizona, que estuda o comportamento de abelhas. Em artigo publicado no Ex­perimental Gerontology, ela relata que abelhas mais velhas que mudam de papel social aprimoram suas habilidades cognitivas. Segundo Gro, isso pode valer para os humanos.

 Ela explica que, quando uma abelha envelhece, seu papel no grupo muda – ela deixa de desempenhar funções fora da colmeia e passa a cuidar dos insetos que acabaram de nascer. Essa transição é marcada por um leve declínio das habilidades físicas e cognitivas. No entanto, em um experimento no qual retirou os filhotes da colmeia e obrigou as “abelhas babás” a ficarem do lado de fora, Gro descobriu algo inusitado: a maioria das abelhas idosas se revelou capaz de realizar tarefas de forma semelhante às adultas jovens.

 A regressão da perda cognitiva foi mais expressiva em insetos que apresentavam no cérebro maiores níveis do antioxidante PRX6, proteína existente em humanos que alguns cientistas consideram associada à proteção contra doenças neurodegenerativas. A teoria de Gro é que reassumir comportamentos tidos como exclusivos dos mais jovens pode aumentar a quantidade do antioxidante e manter o cérebro saudável por mais tempo.

 por: Mente e Cérebro Postado em: 12 Março 2013

 

terça-feira, 12 de março de 2013

LINGUAGEM CORPORAL: A IMPORTÂNCIA DESTA COMUNICAÇÃO PARA O PSICÓLOGO

   




Escrito por: Mary Elizabeth Sampaio de Oliveira

Alguns autores, como Paul Ekman e Charles Darwin, acreditam que as expressões das emoções são universais, pois através de pesquisas com pessoas de várias localidades do mundo pode-se notar como as expressões são idênticas quando referidas a uma certa emoção. Outro fator que influencia para veracidade de que as expressões são universais, foi a análise de estátuas antigas que demonstravam as mesmas emoções que hoje qualquer pessoa também demonstra.

Quando uma pessoa diz algo, porém através de sua linguagem corporal demonstra o que realmente pensa, ela provavelmente tem suas razões para estar omitindo a verdade, assim como confirma Aguiar (2004); por exemplo, quando a esposa pergunta ao marido se o seu cabelo está bonito após a coloração, mesmo ele não gostando, diz que está bonito para não magoá-la. Se ela fosse uma especialista no assunto com certeza teria captado os sinais da linguagem corporal de seu cônjuge, que estariam entrando em contradição com suas palavras e isso geraria algum tipo de conflito.

É importante salientar que, conforme afirma Ekman (2011, p. 13) Se todas as pessoas conseguissem identificar e interpretar sem nenhum tipo de aprendizado a linguagem corporal, haveria muita desavença, pois todos querem sempre a verdade, porém esta também pode não ser a resposta que a pessoa quer ouvir. Por isso, um profissional no assunto, quando captar algum sinal que não lhe agrada, deve se colocar no lugar do outro e tentar entender o porquê da pessoa ter omitido a verdade.

A tristeza é uma das emoções de mais longa duração. Após um período de angústia, há, em geral, um período de tristeza resignada, em que a pessoa se sente totalmente desamparada. Em seguida, novamente, a angústia, retorna. Segundo o psicólogo Paul Ekman, quando as emoções são suaves ou moderadas, podem durar poucos segundos ou alguns minutos, até outra emoção ser sentida. No entanto, no caso de uma perda intensa, sempre pode haver uma tristeza de fundo ou um estado de ânimo difórico, até que, ao longo do tempo, esse estado começa a desvanecer, à medida que o processo de luto termina.

Se identifica uma tristeza, com a seguinte expressão facial: cantos da boca caído; bochechas levantadas, como se estivesse apertando os olhos, puxado em oposição aos cantos da boca; olhar abaixado; pálpebras superiores pendentes, os cantos internos das sobrancelhas puxados pra cima, no meio da testa


É muito difícil para um psicólogo especializado em linguagem corporal trabalhar com pacientes que mentem o tempo todo, mas, ao mesmo tempo este é um aspecto positivo de se ter essa especialização, pois o profissional saberá quando a linguagem do paciente esta coerente com o que ele diz.

Quando o psicólogo percebe que o paciente não está sendo verdadeiro, ele pode aos poucos ir tentando descobrir a verdade, de uma forma que o paciente consiga falar a verdade sobre suas emoções sem descobrir que na verdade ele foi de forma discreta levado à verdade.

Outro aspecto importante que Cohen (2003) cita é que, o psicólogo, tendo conhecimento do assunto, poderá identificar alguns tipos de personalidade que talvez ele não queira tratar, como por exemplo, os sociopatas, que não apresentam expressão nenhuma, já que estes não possuem sentimentos e são muito perigosos para a sociedade

PESQUISA 70% DOS HOMENS PREFEREM MUDAR DE OPINIÃO A BRIGAR COM MULHERES



Um estudo divulgado pelo Data Popular Instituto de Pesquisa mostrou que as mulheres têm grande poder de decisão dentro dos lares – e que os maridos concordam com isso.

O levantamento, feito no último trimestre de 2012 com 800 homens casados de 44 cidades, mostrou que 86% dos homens atribuem às mulheres a decisão de compras no supermercado; 79% deixam elas decidirem o destino da viagem de férias da família; e 71% não se importam de deixar o próprio estilo também a cargo delas. Além disso, 58% afirmaram que o carro da família é de responsabilidade da mulher, assim como 53% deixam a elas o comando do computador.
Quando o assunto é dinheiro, 61% afirmam que as parceiras conferem sua conta no banco e sabem exatamente o quanto eles ganham. Ainda 79% têm certeza de que as esposas possuem dinheiro guardado sem eles saberem. A palavra final também é delas: 71% dos homens afirmam preferir mudar de opinião para não brigar com a mulher.


Saúde e Saúde Mental e o Olhar Social da Reforma



Introdução
A Reforma Psiquiátrica no Brasil pode ser entendida como uma reação ao modelo asilar psiquiátrico da época, onde a pessoa com doença mental era isolada do contexto familiar e social. Recebia um tratamento que lhe retirava a liberdade. O movimento que começa na segunda metade da década 70 reivindicava os direitos do doente mental, sua cidadania e inclusão social. Denúncias de maus tratos, abandono e violência, feitas pelos funcionários que também reivindicavam melhores salários e condições de trabalho, foi o estopim que deu origem a marcha pela reforma.

Saúde e Saúde Mental
Segundo o SUS, saúde é “a garantia às pessoas e à coletividade de condições de bem-estar físico, mental e social” (Lei 8080/90). Essas garantias devem ser oferecidas à população de acordo com as diretrizes do sistema, que são: Universalidade de acesso aos serviços de saúde; a Integralidadede assistência a saúde curativa; Participação da comunidade; a Descentralização; a Regionalização,que se refere às atribuições dos gestores estaduais e municipais; equidadepara reduzir as diferenças sociais nos serviços de saúde e a Resolutividade, que diz respeito à resolução e tradução dos problemas apresentados pela coletividade.

O conceito inicial de Saúde Mental foi interpretado através de paradigmas pré-científicos, metafísicos e mágico-religiosos, ao longo do tempo. Relacionando a castigos dos deuses e às possessões demoníacas. Ainda nos dias atuais esse conceito continua a coexistir uma mistura de interpretações em torno da doença mental. Lévi Strauss (1974) afirma que as doenças mentais podem ser consideradas como incidência sociológica na conduta de indivíduos que se afastaram parcialmente dos sistemas simbólicos do grupo, alienando-se.

Uma Reforma Social
As primeiras manifestações da doença mental no Brasil ocorreram em meio às transformações políticas, econômicas e sociais. A monarquia brasileira encontrava-se em crise, não correspondia mais às mudanças sociais em processo. A independência estava brotando, seria necessária a implantação de nova forma de governo que fosse capaz de fazer o país progredir. A classe média (funcionário públicos, profissionais liberais, jornalistas, estudantes, artistas, comerciantes) estava crescendo nos grandes centros urbanos. O trabalho escravo trouxe a desvalorização do emprego, aumentando ainda mais a “apatia que caracterizou a Colônia” (TUNDIS E COSTA, p. 339, 2007.) e a massa indefinida que “não cessa de crescer dos inadaptados, dos indivíduos sem trabalho definido ou sem trabalho” (TUNDIS E COSTA, p. 340, 2007) continuava crescendo. Era comum encontrar os alienados transitando livremente pelas ruas da cidade, pondo em risco a segurança da população. Foi necessário um espaço para abrigá-los e em 1852, ocorreu a implantação do primeiro hospício no País, pelo monarca D. Pedro II, que deu nome a instituição. Tinha capacidade para 350 internos e recebia pessoas de todo o império. Na inauguração já se encontravam 144 doentes a espera de tratamento, número que cresceu rapidamente, alcançando a superlotação do espaço em pouco mais de um ano.

No final do século XVIII, um novo contexto social surge com a abolição da escravatura e a chegada de imigrantes que vieram substituir os escravos e não receberam condições necessárias de sobrevivência, passou a engrossar as estatísticas nos hospícios brasileiros (Psique n. 7. Pg. 11. 2007). Na década de 50, a situação era inaceitável, havia doentes dormindo pelos corredores dos hospitais, até mesmo no chão, como descrevem Tundis e Costa (p. 54, 2007).

[...] o Hospital São Pedro, de Porto Alegre, que acolhia mais de 3.000 e só tinha capacidade para 1.700; os hospitais colônias de Curitiba e Florianópolis, de construções relativamente recentes, já atingiam cada um, a casa dos 800 pacientes, sem que suas instalações comportassem a metade dessa cifra. [...] o velho asilo de São João de Deus, na Bahia, não recebia mais ninguém, por estar com mais de duas centenas de pacientes ultrapassando a sua lotação [...]; [...] Nina Rodrigues, no Maranhão, teve de dispensar o uso de camas e o recurso adotado foi deixá-los dormir no chão [...]; o Hospital-colônia Eronildes de Carvalho, de Sergipe, estava ameaçado de ruir, e em Cuiabá, o velhíssimo Asilo de Capixó da Ponte, que oferecia “o mais lúgubre cenário aos olhos das desalentadas autoridades que sofrem verdadeiros arrepios ante as cenas medievais ali existentes”. (LOPES RODRIGUES, pg. 52).
Hospitais superlotados falta de mão-de-obra, más condições de acomodação, entre outras irregularidades foram aumentando. Dos hospitais, na maioria privados, os relatórios de conclusões de encontros e congressos eram tópicos principais para se conseguir mais verbas, “Na época os leitos privados já eram mais de 70 mil, todos pagos pelo setor público (MENTE E CÉREBRO. 2006)”, ignorando a função social e as transformações que ocorriam na Europa e Estados Unidos quanto às práticas psiquiátricas.

Indícios da Reforma começa a ser delineada nos anos 70 e em 1978 o estopim iniciou com denúncias feitas por profissionais de saúde que trabalhavam em péssimas condições, trazendo à sociedade o conhecimento do que realmente ocorriam nas dependências do hospital. Uma série de violações aos direitos humanos como: agressões, estupro, trabalho escravo e mortes que ocorriam no Centro Psiquiátrico D. Pedro II, no Engenho de Dentro. Este episódio ficou conhecido como a “Crise da DINSAN” (Divisão Nacional de Saúde Mental) e recebeu apoio do Movimento de Renovação Médica e do Centro Brasileiro de Estudos e Saúde (AMARANTES, 1995. PG. 52). A partir de então comissões, assembléias, sindicatos e demais entidades da sociedade iniciam movimentos, onde surge o Núcleo de Saúde Mental do Sindicato dos Médicos e o Núcleo de Saúde Mental do CEBES (Centro Brasileiro de Estudos de Saúde). Denúncias também foram delineadas pelo Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental que contribui para reforçar o processo de denuncias de violências. Falta de recursos, negligencia médica na assistência aos doentes também era um dos tópicos dos movimentos que começa no Rio de Janeiro.

Nos primeiros anos da década de 80 a reforma psiquiátrica ganhou novo impulso em consequência da luta pela reforma sanitarista enfatizada na 8ª Conferencia Nacional de Saúde. Este movimento culminou com a implantação do SUS, onde psiquiatras e todos os setores de profissionais de saúde estavam engajados com o propósito de que unidos “ciência médica e administração, podem e devem resolver os problemas da coletividade” (Amarante 1998), Iniciativas como I Encontro de coordenadores de Saúde Mental e I Conferencia Nacional de Saúde Mental contribuíram para a realização do II Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental na cidade de Bauru em dezembro de 1987, de onde sai o lema “por uma sociedade sem manicômios”.

A Luta Antimanicomial desenvolveu pontos importantes para a desinstitucionalização da loucura. Podemos destacar o surgimento de relevantes serviços de atendimentos Extra-Hospitalares oriundos da Reforma Psiquiátrica: Núcleo de Atenção Psico-social (NAPS); Centro de Atendimento Psico-social (CAPs I, CAPs II, CAPs III, CAPsi, CAPsad); Centro de Atenção Diária (CADs); Hospitais Dias (HDs), Segundo Amarante (1995, p.94)

É nesta trajetória que surge o centro de atenção Psicossocial (CAPS), em São Paulo, que é feita a intervenção na Casa de Saúde Anchieta, em Santos, com a posterior criação de Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS) ou que surge o Projeto de Lei 3.657/89. Nesta trajetória, passa-se a construir um novo projeto de Saúde Mental para o País.
Em fim, no ano de 2001, foi aprovada a Lei 10.216, que da as diretrizes para o tratamento das pessoas portadoras de transtornos mentais, visando se alcançar uma atenção que proporcione um entendimento que, em vez de tratar de doenças, tratarem de indivíduos concretos, pessoas reais, para que sejam inseridos na cidadania, na inclusão social e isso não é um processo isolado e sim de todos os profissionais de saúde e da sociedade em geral.

Art. 2o Nos atendimentos em saúde mental, de qualquer natureza, a pessoa e seus familiares ou responsáveis serão formalmente cientificados dos direitos enumerados no parágrafo único deste artigo.

Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental:

I - ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades;

II - ser tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade;

III - ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração;

IV - ter garantia de sigilo nas informações prestadas;

V - ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária;

VI - ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis;

VII - receber o maior número de informações a respeito de sua doença e de seu tratamento;

VIII - ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis;

IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental.
Considerações Finais
A reforma Psiquiátrica Brasileira trouxe mudanças significativas, que devem ser comemoradas, mas também contribuir para novos esforços e superar problemas e necessidades atuais; ampliar o diálogo com os movimentos sociais, aprofundar e expandir novos programas e estratégias de saúde mental. Após Dez anos da lei 10216/01 que regulamenta a reforma psiquiátrica, ainda são registradas morte de usuários, por abandono ou violação de direitos em hospitais psiquiátricos no País. Pessoas com transtornos mentais ainda são internadas em hospitais psiquiátricos, sendo afastadas do convívio social e familiar, sendo privadas de sua liberdade e do exercício de sua cidadania. É notável a fragilidade dos sistemas de fiscalização e monitoramento do SUS, apesar das limitações e problemas, é neste sistema de assistência que se busca as reais possibilidades de saúde em nosso Pais. É preciso promover mudanças culturais, no sentido de libertar as pessoas com transtornos mentais e seus familiares dos estigmas da loucura, bem como desenvolver atividades artísticas culturais promovendo sua valorização na sociedade.

Sobre os Autores:Ana Farias de Almeida - Acadêmica do curso de Psicologia da Faculdade SEAMA. 3º. Semestre;
Luzia de Fátima Rodrigues Moraes - Acadêmica do curso de Psicologia da Faculdade SEAMA. 3º. Semestre;
Maria José Pacheco da Silva - Acadêmica do curso de Psicologia da Faculdade SEAMA. 3º. Semestre;

Referências:

Fonte: http://artigos.psicologado.com/psicopatologia/saude-mental/saude-e-saude-mental-e-o-olhar-social-da-reforma#ixzz2NETr68En
Psicologado - Artigos de Psicologia