Por Lucio Carvalho *
Antes de qualquer outra coisa o título acima não está
errado. Não irei falar aqui (atrasadamente) do premiado filme francês “Entre os
muros da escola”, mas de uma situação muito real acontecida recentemente aqui
mesmo no Brasil, na cidade de Belo Horizonte, revelada numa reportagem do
Jornal da Record, disponível neste
link:http://noticias.r7.com/videos/direcao-de-escola-em-bh-quer-separar-com-muro-alunos-com-deficiencia-de-outros-estudantes/idmedia/51313f686b710e72f1d31c5f.html.
Trata-se de uma iniciativa dos “gestores” da escola em
erguer um muro dividindo seu pátio interno para separar alunos com deficiência
dos demais. Através das declarações das autoridades competentes pode-se saber
que a escola, que no passado havia sido exclusivamente destinada às pessoas com
deficiência, enfrenta alguns problemas de convivência. O muro, no caso, foi a
solução encontrada para resolver o impasse.
Murar os pátios escolares e os espaços públicos não é
exatamente uma novidade mundo afora, muito menos aqui. Sob o pretexto de conter
pessoas supostamente incontroláveis ou apenas como edificação de um critério
distintivo explícito entre pessoas, muros – queira-se ou não – são símbolos
inequívocos do apartheid. Tampouco trata-se de uma novidade para as pessoas com
deficiência, afinal por anos elas estiveram encerradas em pátios especiais e
instituições filantrópicas. O espanto consiste em verificar-se que, em pleno
séc. XXI, ainda se busque esse tipo de solução para a convivência entre os
seres humanos, ainda mais em se tratando de crianças.
Muito provavelmente o gênio que bolou a ideia deve pensar
consigo mesmo: como não pensei nisso antes? Diante de um problema, o melhor a
fazer é liquidar com ele. Não parece verdade o fato de não se perceber um
problema significar que ele não exista? Pois é, parece mentira que alguém ainda
pense assim, mas não é.
Mas o que mais incomoda na situação é o fato de que a
medida, adotada sob as tendas do “gerenciamento” e da “administração escolar”,
seja debitada exatamente na conta de uma implausível preocupação com as pessoas
com deficiência. É “para o bem” dessas pessoas, dirão outras, de cenho
franzido. É claro que uma medida dessas foi gestada sem consulta alguma à
comunidade escolar ou mesmo às leis vigentes sobre educação no país. Caso
contrário isso não teria sido levado adiante, não é possível.
O fato é escandoloso sob muitos outros aspectos, mas nada
que se compare à humilhação que se quer perpetrar sobre as pessoas com
deficiência e sua famílias, como aponta uma das mães da entrevista. E, além
disso, há tanta coisa para ser construída nas escolas do Brasil inteiro que não
sejam muros.. Para que, afinal, gastar tempo, recursos públicos e energia com
isso??
* Coordenador-Geral da Inclusive – Inclusão e Cidadania.
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