A
cor azul deve-se à maior incidência de casos no sexo masculino. Já o jogo
representaria a complexidade do distúrbio, que tem manifestações e
possibilidades de tratamentos diferentes. Portanto, começo daí meu
questionamento: estamos interpretando adequadamente esse ícone? No jogo em que
as peças se encaixam, não há uma sequência obrigatória, o objetivo é remontar
uma imagem desintegrada, reunir, juntar e assim, aos poucos, dar forma àquilo
que inicialmente parecia não ter sentido. É um trabalho complexo de recriação
que nos permite uma reflexão importante.
Entretanto,
levar muito ao pé da letra essa desintegração pode ser um grande risco, já que
alguns acreditam que as peças devem estar delineadas e no formato exato para se
encaixarem perfeitamente às outras. Funcionaria assim com o desenvolvimento
infantil?
A
busca incessante pelo recorte perfeito é o que propõem diversos métodos,
técnicas e formas de tratamento, uns que se denominam incompatíveis com os
ideais dos outros.
Organização,
interação, fala, linguagem, independência, brincar, escola... Existe a
possibilidade dessas palavras andarem separadas, quando falamos de uma única
pessoa?
Sem
ignorar a evolução de cada aprendizado, grande parte dos conhecimentos são
adquiridos simultaneamente e depois evoluem em complexidade. As crianças
aprendem a brincar, falar, andar e conviver com outros quase que ao mesmo tempo
e vão aprimorando essas relações e conhecimentos. Não há uma ordem certa, uma
sequência de peças que precisam se encaixar.
A
busca do equilíbrio deve ser constante; voltando ao paralelo do
quebra-cabeça , as peças podem e devem ser trabalhadas para que cada vez o
desenho fique melhor, mas o que não deve acontecer é determinar uma única
sequência, estar pronto para integrar. Buscar estratégia para a união se torna
mais interessante do que tentar encaixa-las a todo custo. Explorar
possibilidades, permitir e estimular interações como caminhos possíveis, com a
certeza de que cada um tem o seu próprio jeito de evoluir, aprender, montar
suas próprias imagens.
Ainda
na simbologia do quebra-cabeça, podemos sobrepor peças, recortar as pontas e
uni-las com cola, usar fitas adesivas, cola líquida, bastão... Fantasiar é
preciso, criar, inovar, pode e deve substituir o padrão esperado, valorizar o
fazer diferente, desde que satisfatório.
Mas
qual seria a proposta? Mudar o símbolo? Não, o que eu proponho é uma mudança de
olhar, de perspectiva, entender que existem mais possibilidades do que uma
única peça se encaixar ou não. Há ajustes, recortes, mudanças até mesmo na
imagem que se espera obter no final: seria ele um perfeito quadro realista ou
conquistas que se multiplicam?
O
equilíbrio passa a ser não só uma obrigação dos pais e sim de toda a
estrutura que uma intervenção para um autista exige. Vale lembrar que
essa estrutura é complexa e muitas vezes maior do que algumas empresas.
Escutamos em todos os cantos de convívio da criança, como escola e clinicas,
que deveríamos “falar a mesma língua”. Arrisco dizer que devemos nos entender.
Metaforicamente, se um falasse inglês, outro em português e um outro em
espanhol, que uma língua universal seja encontrada e que esta seja a língua da
criança, aquela que contemple todas as suas necessidades e desejos. Que a
criança esteja no centro, que ela seja mais vista do que o método ou o autismo.
Ela, afinal, tem que ser o objetivo de tudo.
Devemos
aprimorar habilidades, trabalhar com objetivos? Sim, mas não esperar nem
exigir a perfeição como requisito para novas aprendizagens. Nenhuma
criança chega na escola pronta, não seria aquela que tem autismo a ter essa
obrigação. O estar na escola que deixa as crianças aptas para tal. Nenhuma
criança aprende a comer sozinha sem fazer sujeira, nem sai por aí conversando
antes de repetir muitas vezes a mesma palavra e descobrir significados e
contextos.
Conscientizar
sobre o Autismo é valorizar cada ganho, entender cada especificidade, respeitar
as individualidades e acima de tudo lembrar que estamos falando em uma pessoa,
que é sim diferente, como todos nós somos.
Torço
para que esse 2 de abril seja um dia de olhar a questão com mais envolvimento,
com compromisso com as pessoas autistas e não apenas para as peças de um jogo
complexo e por vezes desanimador.
Por: Regis Nepomuceno, terapeuta ocupacional,
sócio da Inclusão Eficiente e um dos criadores do app Minha Rotina Especial.
Realiza palestras e consultorias especializadas em inclusão escolar de crianças
com autismo e/ou deficiências no Brasil e em Portugal. Oferece orientação em
atendimento especializado para famílias, empresas e escolas
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