Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.

Carl Rogers

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O Autismo e a simbologia do quebra-cabeça

Dia 2 de abril é Dia Mundial de Conscientização Sobre o Autismo, nessa data, se multiplicam nas redes sociais homenagens invocando seus símbolos como a cor azul  ou uma peça de um quebra-cabeças, ícones escolhidos para representar a causa. Já que o dia é de conscientização, cabe aqui uma reflexão sobre essa simbologia.
A cor azul deve-se à maior incidência de casos no sexo masculino. Já o jogo representaria a complexidade do distúrbio, que tem manifestações e possibilidades de tratamentos diferentes. Portanto, começo daí meu questionamento: estamos interpretando adequadamente esse ícone? No jogo em que as peças se encaixam, não há uma sequência obrigatória, o objetivo é remontar uma imagem desintegrada, reunir, juntar e assim, aos poucos, dar forma àquilo que inicialmente parecia não ter sentido. É um trabalho complexo de recriação que nos permite uma reflexão importante.
Entretanto, levar muito ao pé da letra essa desintegração pode ser um grande risco, já que alguns acreditam que as peças devem estar delineadas e no formato exato para se encaixarem perfeitamente às outras. Funcionaria assim com o desenvolvimento infantil?
A busca incessante pelo recorte perfeito é o que propõem diversos métodos, técnicas e formas de tratamento, uns que se denominam incompatíveis com os ideais dos outros.
Organização, interação, fala, linguagem, independência, brincar, escola... Existe a possibilidade dessas palavras andarem separadas, quando falamos de uma única pessoa?  
Sem ignorar a evolução de cada aprendizado, grande parte dos conhecimentos são adquiridos simultaneamente e depois evoluem em complexidade. As crianças aprendem a brincar, falar, andar e conviver com outros quase que ao mesmo tempo e vão aprimorando essas relações e conhecimentos. Não há uma ordem certa, uma sequência de peças que precisam se encaixar.
A busca do equilíbrio deve ser constante;  voltando ao paralelo do quebra-cabeça , as peças podem e devem ser trabalhadas para que cada vez o desenho fique melhor, mas o que não deve acontecer é determinar uma única sequência, estar pronto para integrar. Buscar estratégia para a união se torna mais interessante do que tentar encaixa-las a todo custo. Explorar possibilidades, permitir e estimular interações como caminhos possíveis, com a certeza de que cada um tem o seu próprio jeito de evoluir, aprender, montar suas próprias imagens.
Ainda na simbologia do quebra-cabeça, podemos sobrepor peças, recortar as pontas e uni-las com cola, usar fitas adesivas, cola líquida, bastão... Fantasiar é preciso, criar, inovar, pode e deve substituir o padrão esperado, valorizar o fazer diferente, desde que satisfatório.
Mas qual seria a proposta? Mudar o símbolo? Não, o que eu proponho é uma mudança de olhar, de perspectiva, entender que existem mais possibilidades do que uma única peça se encaixar ou não. Há ajustes, recortes, mudanças até mesmo na imagem que se espera obter no final: seria ele um perfeito quadro realista ou conquistas que se multiplicam?
O equilíbrio passa a ser não só uma obrigação dos pais e sim de toda a estrutura  que uma intervenção para um autista exige. Vale lembrar que essa estrutura é complexa e  muitas vezes maior do que algumas empresas. Escutamos em todos os cantos de convívio da criança, como escola e clinicas, que deveríamos “falar a mesma língua”. Arrisco dizer que devemos nos entender. Metaforicamente, se um falasse inglês, outro em português e um outro em espanhol, que uma língua universal seja encontrada e que esta seja a língua da criança, aquela que contemple todas as suas necessidades e desejos. Que a criança esteja no centro, que ela seja mais vista do que o método ou o autismo. Ela, afinal, tem que ser o objetivo de tudo.
Devemos aprimorar habilidades, trabalhar com objetivos? Sim, mas não esperar nem exigir  a perfeição como requisito para novas aprendizagens. Nenhuma criança chega na escola pronta, não seria aquela que tem autismo a ter essa obrigação. O estar na escola que deixa as crianças aptas para tal. Nenhuma criança aprende a comer sozinha sem fazer sujeira, nem sai por aí conversando antes de repetir muitas vezes a mesma palavra e descobrir significados e contextos.
Conscientizar sobre o Autismo é valorizar cada ganho, entender cada especificidade, respeitar as individualidades e acima de tudo lembrar que estamos falando em uma pessoa, que é sim diferente, como todos nós somos.
Torço para que esse 2 de abril seja um dia de olhar a questão com mais envolvimento, com compromisso com as pessoas autistas e não apenas para as peças de um jogo complexo e por vezes  desanimador.

Por: Regis Nepomuceno, terapeuta ocupacional, sócio da Inclusão Eficiente e um dos criadores do app Minha Rotina Especial. Realiza palestras e consultorias especializadas em inclusão escolar de crianças com autismo e/ou deficiências no Brasil e em Portugal. Oferece orientação em atendimento especializado para famílias, empresas e escolas

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