Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.

Carl Rogers

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Entrevista com Irvin D. Yalom: ‘A consciência da finitude nos ensina a viver’O psiquiatra americano fala sobre envelhecimento e morte em sua nova obra

Quando escreve, em especial quando relata casos de pacientes que atende em seu consultório, o psiquiatra americano Irvin D. Yalom, hoje professor emérito de Stanford, onde lecionou por mais de 50 anos, tem em mente como leitor ideal o estudante de psicologia. Seus livros, porém, são um sucesso que extrapola esse nicho - vide o caso de Quando Nietzsche Chorou, romance com 5 milhões de cópias vendidas pelo mundo, 500.000 só no Brasil. 
O apelo da obra de Yalom se deve à universalidade dos temas que explora. Em Criaturas de um Dia (tradução de Ivo Korytowski, 176 páginas, 29,90 reais), livro recém-lançado pela editora Agir, o autor de best-sellers como A Cura de Schopenhauer trata do envelhecimento e da morte, a partir dos medos de seus pacientes, mas também dos próprios.
"Odeio essas situações embaraçosas. Reconhecer rostos nunca foi meu forte, e conforme envelheci isso foi progressivamente piorando", escreve, em certo trecho do livro. "Costumo refletir melhor quando ando de bicicleta. Por isso, fiz um longo passeio pela costa sul de Kauai. Isso não significava que eu havia superado meu próprio medo da morte. Isso era um trabalho constante e diário", compartilha com o leitor em outro momento. "A ansiedade diante da morte não desaparece. Especialmente para aqueles que, como eu, continuam sondando o inconsciente."
Valer-se de exemplos da própria experiência permitem a Yalom não apenas quebrar a distância que há entre terapeuta e paciente - afinal, envelhecer e enfrentar a morte não são desafios apenas para quem procura ajuda profissional. Mas também a criar aquilo que os psicólogos chamam de vínculo, um caminho útil para a cura. E o americano, que fez terapia ao longo de toda a carreira para lidar com as próprias questões e se preparar para administrar as de outros, não tem medo de falar de si mesmo.
"Acho difícil que eu volte a escrever romances aos 84 anos, um romance exige muito da memória", diz ao site de VEJA, ao comentar o próprio envelhecimento. "Todos nós, que envelhecemos, esquecemos palavras ou nomes e precisamos criar truques mnemônicos que nos ajudem a lembrar das coisas. Envelhecer é esquecer."
Ao lado do envelhecimento e da morte, a maneira como lidamos com ele é outro ponto forte de Criaturas de um Dia, um novo compilado de casos colhidos em seu consultório. "Eu trabalhei com pacientes de câncer e ouvi muitos dizerem, 'Que pena que tive de esperar até agora, que meu corpo está debilitado pela doença, para aprender a viver'." Então, essa é a vantagem de tomarmos logo consciência da nossa finitude."
Por que o senhor resolveu intitular seu livro com uma expressão do imperador filósofo Marco Aurélio, da Antiga Roma, "criaturas de um dia"? Não é um caminho óbvio procurar agir de maneira correta para ser uma pessoa melhor? Acho que Marco Aurélio é profundo em sua simplicidade. Ele nos lembra que somos criaturas de um dia - que somos transitórios e evanescentes e que a consciência da nossa finitude pode nos ensinar algo sobre como podemos ou devemos viver. Muito tempo atrás, eu trabalhei com pacientes de câncer e ouvi muitos dizerem, "Que pena que tive de esperar até agora, que meu corpo está debilitado pela doença, para aprender a viver". Então, essa é a vantagem de tomar consciência da nossa finitude e deixar que esse saber nos guie e nos ajude a decidir como viver. Toda vez que volto a Marco Aurélio, me sinto iluminado por ele. Um dos aspectos interessantes desse livro foi que eu recomendei a leitura de Marco Aurélio para dois pacientes meus e cada um tirou algo diferente - mas útil - do autor. E, além disso, algo diferente do que eu imaginava que tirariam da leitura.
Muitos de seus pacientes encontram sentido para a vida em seu consultório. É mesmo importante dar um sentido à vida? Eu posso ajudar pacientes a encontrar ou inventar um significado para as suas vidas, e isso é de fato útil. O livro Em Busca de Sentido (Vozes), do psiquiatra austríaco Viktor E. Frankl, é um best-seller há meio século porque ali Frankl descreve como a ideia de dar um significado à vida o fez sobreviver a um campo de concentração. Ele quis viver para sair dali e compartilhar essa experiência com outras pessoas, para que muitos soubessem e a atrocidade não se repetisse. Como disse Nietzsche: "Aquele que tem um porquê para viver pode suportar qualquer coisa".
Há pessoas que, depois do nascimento de um filho, passam a pensar menos na morte. Temos filhos para espantar o medo da morte? Sim, essa é uma observação interessante. Crianças são, como disse, o nosso projeto de imortalidade, mesmo que não tenhamos consciência disso. Em um livro que escrevi um bom tempo atrás, De Frente para o Sol - Como Superar o Terror da Morte (Agir), eu mencionei que a transmissão (de genes, de nós mesmos) era uma das formas potentes para dissipar a angústia da morte - a ideia de transmissão para o futuro, de passar algo de si mesmo aos outros como a ondulação provocada por uma pedra jogada na água.
No capítulo sobre a enfermeira que conforta os outros, mas não a si mesma, o senhor cita o poeta irlandês William Butler Yeats para dizer que o luto pela morte de uma criança é a "tragédia levada ao paroxismo". Isso lembra a comoção mundial causada pela recente morte, por afogamento, de um menininho sírio. Por que é mais difícil aceitar a morte de uma criança? Acredito que a morte de uma criança seja a mais difícil de todas de suportarmos. Pais que perderam filhos enfrentam uma angústia extraordinariamente dura. Por um lado, essa perda é também a morte do nosso projeto de imortalidade - a inviabilidade de projetarmos a nós mesmos ou parte de nós mesmos no futuro. É uma catástrofe poderosa que não raramente acaba com casamentos. Cada um, pai e mãe, sente a perda à sua maneira, o que resulta na quebra do vínculo conjugal. Um dos pais, por exemplo, pode viver seu luto mantendo um memorial do filho morto em casa, deixando seu quarto, com as roupas e os móveis, intacto, e querer falar sobre a morte com frequência. Já o outro pode escolher negar a perda e mergulhar no trabalho para não pensar a respeito.
Também no capítulo sobre a enfermeira, o senhor diz à sua paciente que as ações são mais importantes que os pensamentos. Isso é sempre verdade? Fantasiar uma relação com outra pessoa, portanto, não é trair o parceiro? Se fantasiar uma relação com outra pessoa é uma forma de traição, então, temo que não haja inocentes entre nós.
É mesmo mais digno, como o senhor escreve, manter a compostura diante da morte e não demonstrar desespero? É difícil imaginar alguém que não sinta ou demonstre desespero em algum ponto do processo de morrer, mas ao mesmo tempo eu penso que há como transcendê-lo. Lembro que o meu grupo de pacientes com câncer, que deixei algum tempo atrás, tinha uma mulher que caía frequentemente em desespero, até que um dia ela apareceu muito mais vigorosa, muito mais viva e, quando eu perguntei o que havia acontecido, ela disse que havia decidido ser, para seus filhos, um modelo de como encarar a morte com elegância. Em outras palavras, encontrar um sentido no processo, mesmo que seja o processo de deixar a vida, pode nos ajudar a superar o desespero.
O envelhecimento parece um tema difícil para o senhor, mas, como ele surge bastate no livro, é preciso perguntar: como lida com ele hoje? Eu tenho 84 anos e todos os dias testemunho o que é envelhecer. Sou abençoado por ter saúde física, mas poucos de nós escapam à perda da memória. Estou escrevendo um livro de memórias agora - algo apropriado para se fazer na minha idade - e sinto que deveria escrever rápido, enquanto ainda consigo lembrar tudo de que me lembro agora. Tenho sorte de ter uma parceira de vida, a minha mulher, que eu conheci aos 15 anos. Ela está ao meu lado e pode me ajudar com coisas que eu tenha esquecido. Todos nós, que envelhecemos, esquecemos palavras ou nomes e precisamos criar truques mnemônicos que nos ajudem a lembrar das coisas. Não acho que exista alguém com 80 anos que não tenha tido a experiência de entrar em um quarto sem saber por quê, por exemplo. Envelhecer é esquecer.
O senhor tem romances sobre Nietzsche, Espinoza e Schopenhauer. Vê muitas semelhanças entre a filosofia e a psicanálise? Anos atrás, quando era um estudante de psiquiatria, me vi descontente com os principais quadros de referência disponíveis - um esquema formal de psicanálise e um referencial médico-biológico. Foi quando me ocorreu que a psiquiatria não teria começado de fato no século XIX, com as descobertas de Freud e Jung, e sim remontaria aos textos dos grandes filósofos da antiguidade. Tem sido o trabalho da minha vida tentar tirar lições de grandes pensadores e escritores, como Epicuro, Plantão, Camus, Kierkegaard, Spinoza, Schopenhauer e muitos outros e aplicar seus pensamentos à psicoterapia.
No epílogo de Criaturas de um Dia, o senhor diz esperar que o livro aumente a sensibilidade dos terapeutas para temas existenciais, que são muito presentes em toda a obra. Com um assunto tão premente e o gosto claro por filosofia, por que o senhor nunca escreveu um romance sobre Sartre ou outro grande nome do Existencialismo? É tudo uma questão de mortalidade. Se pudesse viver mais e continuar a escrever romances, eu com certeza consideraria escrever sobre Camus e Sartre, porque eles fizeram descobertas extraordinárias. Contudo, se a gente olhar de perto, vai ver que poucos romancistas continuam a escrever depois dos 80 anos de idade. Escrever um romance é uma façanha da memória. Quando faz um capítulo, você tem de ter em mente tudo o que aconteceu nos anteriores, desde a trama desenhada para o livro. Escrever é difícil, e por isso pode ter vida mais curta.
Em que medida um terapeuta precisa ser maduro e bem resolvido para atender com eficiência os seus pacientes? Sempre que meus alunos me perguntavam sobre a necessidade de treinar para atender, em um consultório, eu enfatizava que eles deviam fazer terapia, como pacientes. E sublinhava que deviam fazer isso várias vezes ao longo da vida, para lidar com questões que surgem com o tempo, como a angústia que vem com o envelhecimento. Eu fiz terapia durante toda a minha carreira. E, cerca de 30 anos atrás, comecei um grupo com outros nove psiquiatras - um grupo sem líder em que nos encontrávamos para trocar ideias e experiências, e que foi uma importante fonte de apoio e formação. Recomendo a todos os terapeutas.

  Por: Maria Carolina Maia REvista Veja outubro de 2015.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

8 ATITUDES TÍPICAS DE PESSOAS QUE TÊM DEPRESSÃO, MAS NÃO DEMONSTRAM:

Medo ou desconhecimento?
Nesse artigo conheça 8 sintomas de pessoas que levam a vida com o que chamados de “depressão mascarada”, doença que elas tentam esconder ou mesmo que nem sabem que têm.
Embora a sociedade atual demonstre, de modo geral, um maior conhecimento sobre a depressão, o que se vê, muitas vezes, é uma compreensão equivocada desta doença e de seus sintomas.
Por tratar-se de uma doença marcada por um estigma, nem sempre conseguimos identificar familiares ou pessoas próximas que estejam lutando contra a depressão. Pior ainda: devido às concepções equivocadas sobre os diferentes modos de manifestação da doença, e o tipo de ajuda a ser buscado, muitos indivíduos que sofrem de depressão não recebem o devido diagnóstico.
O resultado disso é que muitos indivíduos convivem com uma depressão mascarada – ou seja, invisível para as pessoas que os cercam, ou mesmo para eles próprios. Além disso, nos casos em que não recebeu o diagnóstico adequado, o indivíduo tenderá a lidar com seus problemas de modo a esconder a depressão, e terá dificuldades para reconhecer os verdadeiros sintomas da doença.
É preciso deixar de lado a concepção de que o sofrimento é sempre visível. Deste modo, será possível compreender melhor e oferecer ajuda aos que lutam contra as doenças não manifestas. Listamos, a seguir, alguns sinais de uma pessoa que talvez sofra de uma depressão mascarada.

1. Ela talvez “não pareça deprimida”

Influenciados por estereótipos culturais e veiculados pela mídia, muitos têm uma imagem equivocada do comportamento e da aparência do indivíduo com depressão. Na visão do senso comum, esta pessoa raramente sai de seu quarto, veste-se com desleixo, e parece estar sempre triste. Porém, nem todos que sofrem de depressão têm o mesmo comportamento.
Claro que os indivíduos são diferentes, assim como variam os sintomas e a capacidade de cada um de lidar com a doença. Muitos conseguem exibir um “verniz” de boa saúde mental – como mecanismo de autoproteção –, mas o fato de serem capazes de fazê-lo não significa que eles sofram menos. Do mesmo modo, as pessoas incapazes de mostrar tal “verniz” não são mais “fracas” que as demais.

2. Ela pode parecer exausta, ou queixar-se de um cansaço constante

Um efeito colateral da depressão é um cansaço permanente. Embora este sintoma não se manifeste em todos que sofrem de depressão, ele é muito comum. Em geral, é um dos piores efeitos colaterais desta doença.
Além disso, se o indivíduo não recebeu o diagnóstico de depressão, a causa deste cansaço pode ser uma incógnita. Mesmo que ele durma um número suficiente de horas à noite, talvez acorde na manhã seguinte como se tivesse dormido pouco. Pior que isso: talvez ele culpe a si mesmo, atribuindo isso à preguiça ou então que algum defeito de sua personalidade esteja causando esta sensação de fraqueza e falta de energia.
Este sintoma também acaba se tornando uma dificuldade para quem recebeu o diagnóstico de depressão, mas tenta ocultá-la dos amigos e colegas. Isso porque esta sensação de cansaço afeta o seu ritmo de trabalho e também os seus relacionamentos pessoais.

3. Ela poderá ficar mais irritadiça

O comportamento de uma pessoa com depressão pode ser interpretado equivocadamente, como melancolia. É muito comum que a pessoa deprimida fique mais irritadiça, e que isso não seja interpretado como um sintoma da doença. Isso é compreensível, já que a depressão não é problema de saúde “visível”, e tampouco pode ser medido com precisão – o que dificulta o combate à doença.
Além disso, o esforço constante exigido do indivíduo para lidar, ao mesmo tempo, com as inúmeras demandas de sua vida cotidiana, e com a depressão, suga suas energias, deixando-o impaciente e incapaz de ter a compreensão exata sobre as coisas.
Se o seu amigo ou conhecido recebe o diagnóstico de depressão, e compartilha esta informação com você, uma dificuldade poderá surgir, caso o comportamento desta pessoa não corresponda à imagem (equivocada) que se tem de uma pessoa com depressão: um indivíduo tímido e calado. A tendência a ter “pavio curto” e a irritar-se com facilidade é, na verdade, um efeito colateral da depressão.

4. Para ela, pode ser difícil corresponder ao afeto e preocupação das pessoas ao redor

A ideia equivocada mais comum em relação à depressão, sugerida nos parágrafos acima, é que ela causa um sentimento de tristeza.
Pelo contrário: muitas vezes, o indivíduo com depressão não sente nada; ou então vive as emoções de modo limitado ou passageiro. Depende de cada caso, mas muitos relatam um sentimento parecido com o “torpor”, e o mais próximo que chegam de uma emoção é uma espécie de tristeza, ou irritação.
Deste modo, o indivíduo terá dificuldade para corresponder de modo adequado a gestos ou palavras afetuosas. Ou então nem se dará ao trabalho de manifestar qualquer reação.
Talvez demonstre uma irritação nada racional: é possível que o cérebro dele tenha dificuldades para processar e corresponder ao seu afeto e carinho.

5. Talvez recuse a participar de atividades de que gostava muito

Uma atípica falta de interesse em participar de atividades – e durante um longo período – pode ser um sinal de depressão. Conforme mencionado acima, esta doença drena a energia do indivíduo tanto no plano físico quanto no mental – o que afeta sua capacidade de sentir prazer com as atividades cotidianas.
Um indivíduo com depressão talvez não se sinta mais atraído por atividades que adorava no passado, pois esta doença acaba dificultando o desfrute de tais atividades, que não satisfazem mais o indivíduo. Se não há nenhum outro sinal visível que possa explicar o interesse cada vez menor do indivíduo por estas atividades, este talvez seja um sintoma de depressão clínica.

6. Talvez passe a ter hábitos alimentares incomuns

O indivíduo deprimido desenvolve hábitos alimentares incomuns por duas razões: como um modo de lidar com a doença, ou como um efeito colateral da ausência do cuidado consigo mesmo. Comer pouco ou em demasia é um sinal comum de depressão. A ingestão excessiva de alimentos é vista como vergonhosa, e neste caso a comida talvez seja a principal fonte de prazer da pessoa com depressão, o que a faz comer além do necessário.
Quando o indivíduo depressivo come pouco, em geral é porque a doença está afetando seu apetite, transformando o ato de comer em algo desagradável. Isso também pode ser uma necessidade subconsciente de controlar algo, já que ele não é capaz de controlar sua depressão. Se a pessoa não recebeu o devido diagnóstico, ou se omitiu diante das pessoas o fato de estar deprimida, elas poderão considerar que os hábitos alimentares “errados” se devem a um defeito de personalidade, e tal “julgamento” fará com que o indivíduo deprimido se sinta ainda pior.

7. Os outros talvez passem a exigir mais de você

Naturalmente, as funções vitais de um indivíduo com depressão não podem ser as mesmas de alguém com boa saúde mental. Haverá coisas que ele não será mais capaz de fazer com a mesma frequência, ou abandonará de vez. Perturbá-lo ou fazer com que ele se envergonhe por causa disso só tende a causar mágoas, em vez de ajudar. Se a depressão é um assunto que ele tem tido dificuldade de abordar, será igualmente difícil para ele lidar com alguém que fique irritado diante de sua incapacidade de agir do mesmo modo que uma pessoa mentalmente sadia.
Por isso, convém sempre ser compreensivo com as pessoas, seja de seu círculo profissional ou do pessoal. Não há como saber se um indivíduo está simplesmente “desacelerando”, ou se está enfrentando um verdadeiro problema de saúde.

8. Ela poderá ter dias ruins, e dias “melhores”

Trata-se de uma doença com altos e baixos. Se o indivíduo sofre de uma depressão mascarada, ou não diagnosticada, pode parecer que suas flutuações de humor são aleatórias, dependendo da regularidade de sua depressão. Para você (e mesmo para ele, no caso de ele não ter recebido um diagnóstico), talvez não haja uma motivação para as alterações de humor, mas esta é simplesmente a maneira como a depressão se manifesta em algumas pessoas.
Se você sabe que o indivíduo sofre de depressão, poderá ter a falsa impressão de que ele, tendo passado por uma sequência de dias “bons”, está definitivamente curado. O fato de ele ter passado um dia melhor do que na véspera pode ser excelente, mas convém que você sempre lhe peça para que ele deixe claro o que consegue ou não fazer, e em que momentos.
Concluir que o indivíduo que sofria de depressão está plenamente recuperado, ou forçá-lo a retomar rapidamente a rotina normal poderá sobrecarregá-lo, e fazer com que ele se “retraia” novamente. Ofereça apoio ao amigo ou parente com depressão, mas deixe queele tome as decisões necessárias.

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Fonte: lifehack via PensadorAnônimo

quinta-feira, 9 de julho de 2015

A quem Ama - Artur da Távola

Um pedacinho de um dos meus livros prediletos - Que está sendo lido pela Quarta Vez.....
DO AMOR, Ensaio de Enigma

O homem (se) constrói o mito da perfeição pela dificuldade de aceita a inerente imperfeição  e incompletude dos atos da vida. Quanto mais o ser humano se ausculte, será para defrontar-se com a impossibilidade de alguma solução pacificadora, permanente, perfeita e acabada. Somos um fazer-se sem descanso.  Só temos paz nos raros momentos em que acertamos  ou intuímos a existência de uma plenitude cuja percepção escapa, logo de alcançada.
Os casos de amor vivem rondados por frustração ou arrependimento. Não o amor. Este é íntegro, irrefutável, cristalino, pleno e indubitável; mas os amantes, seus precários portadores. Quase sempre o tamanho do amor é maior que o dos amantes.  As pessoas têm mais amor do eu podem. Daí o fardo pesado que é carregar a chance de felicidade.
O amor é pleno mas cada amante vive envolto numa teia de limitações. Sobrevém a eterna disjuntivas: frustração ou arrependimento. Entregar-se a um amor é abandonar outros. Optar é renunciar. E, do que se renuncia e abandona, pode provir, depois, arrependimento. Afastar-se de um amor, ainda que por lúcidas razões, pode gerar, adiante, a frustração pelo que se deixou de viver.
Arrependimento e frustração são, pois, duas ameaças inevitáveis para amantes que se descobrem viáveis em pele, olho, poesia e suspiro, na medida em que se sabem cercados de repressões, compromissos, impossibilidades ou, então, exorbitantes preços existenciais a pagar pela meia felicidade.
Viver implica essa dolorosa tarefa (suplício e enigma): a de integrar esses pedaços opostos, incorporando dificuldades, vivenciando a eterna imperfeição de tudo.  Viver é descobrir-se inocente e virgem quando já se considerava pronto, vivido, definido e auto-suficiente. Somos fadados a ser pessoas sempre em algum limiar. Quanto mais conhecimento e vivência, novos limiares.
O sofrimento do homem deriva dessa estranha divisão de sua alma: ele precisa de nitidez, de encaixes perfeitos, de caminhos retos, mas só lhe e dado viver situações provisórias e incertas, sinuosos pedaços de retidão, o que o leva a manifestar, até pela mentira, as suas mais fundas verdades.
O amor, porém (não os amantes), rompe esse exercício de sofrimento, pois liga o homem a uma finalidade. Por isso o amor permite o sabor-saber, fugidio e delicioso, de algo pleno, sempre fora e além de nós, mas vivido em nós (por isso enigma), uma certeza adivinhada (e breve vivida) de plenitudes impossíveis.
O amor traz a certeza secreta de uma instância de paz, plenitude e perfeição da qual a vida é um aprendizado, por isso incompleta e inacabada, provisória e sempre em busca. O amor é o filme, mas a vida e os amantes são o trailer de um filme que se intui possível, porém nunca alguém o verá.
O amor é pleno mas os amantes precários, impossíveis, atrapalhados por eles mesmos e suas opções sempre “certerradas”.
No amor, a todo Idea corresponde algum erro real de exercício. Por isso, quem ama vive a misturar pedaços de verdades pela impossibilidade de viver a totalidade. Aqui residem o suplício e o enigma de viver: o amor é total, pleno, mas a vida de quem ama é feita de pedaços, de renuncias ou arrependimentos, de impossibilidades ou carências. Aceitar o enigma sem o deslindar é aprender a viver; é amadurecer: exige trabalho interior penoso, grandeza, equilíbrio e autoconhecimento.

Somos um todo fragmentante que, para se recompor e harmonizar, precisa viver as divisões, os sofrimentos e os açoites das mentiras que conduzem às nossas verdades mais profundas.  Viver em plenitude todos os polos de que somos compostos, eis a ressurreição em vida. O amor, em sua qualidade de rio de muitas vertentes, ajuda e ilumina esse processo de autoconhecimento permanente que é a única forma de autoconhecer-se. Por isso o amor é um estranhamento; e, ao vive-lo, os amantes atrapalham-se, atropelando-o. (Artur da Távola)

sábado, 4 de julho de 2015

A felicidade pode ser construída - Não aguento mais! Onde encontro a felicidade?

ss artigo 2
A partir de uma reflexão, um tema muito vivenciado entre os seres humanos desde épocas muito remotas e nada melhor do que partir do princípio de Freud com a seguinte citação: “Entretanto, quanto menos um homem conhece a respeito do passado e do presente, mais inseguro terá de mostrar-se seu juízo sobre o futuro” (p. 15). As pessoas de modo geral têm dificuldade em olhar para seu presente, vida pessoal, atitudes, suas relações interpessoais ou no trabalho, o mesmo em relação ao passado, que muitas vezes desejam apagar o que não querem ver, ou mesmo realmente não lembram, tendo uma vaga lembrança do que se foi. Pensam que poderiam ter feito diferente, que realmente não sabiam o que estavam fazendo, ou que pouco importa, pois já aconteceu.
O fato é como Freud colocou que “não somos donos da nossa própria casa” e que dentro do inconsciente não se sabe qual será o próximo passo, apesar de muitas vezes ignorar-se a intuição de que algo irá se repetir. O ser humano é sequioso de respostas, indagações de como será seu futuro, fantasiando que tudo será melhor, que fará diferente, esquecendo-se de que sem olhar para seu passado e para seu presente, a tendência será uma série de repetições que no final das contas será de muita insatisfação pelo que não deveria ter feito ou pelo que deixou de aproveitar. Esquece-se de que a vida não é feita de ilusões, mas precisa ser vivida mesmo diante de circunstâncias difíceis que virão o tempo todo, pois existe algo muito maior que se chama natureza.
O homem está fixado no que Freud chamou de narcisismo, somente olha para si, mas não um olhar de reforma íntima ou crescimento, mas sim de um querer absoluto e imediatista. Apesar de a ciência ter evoluído e auxiliado as gerações, o ser humano se esquece das relações interpessoais, buscando apenas aparelhos mais sofisticados para sua satisfação. Sendo essa uma fantasia de completude, um prazer efêmero, fazendo-o buscar sempre mais. Essa busca além de trazer a frustração interna, faz com que permaneça belicoso com a natureza, mesmo sabendo que o perdedor será ele mesmo.
Como conseguir uma solução para essa angústia que atormenta as pessoas? Pode-se pensar que a fé tem sido uma aliada, aliviando as dores, mas, mesmo assim, muitas pessoas ainda sentem um vazio, uma angústia, uma dor que se torna física, mas que inicialmente não encontra vestígios num consultório médico, e fica-se com a seguinte receita: “Você está estressado! Tome uma pílula da felicidade, afogue suas mágoas, esqueça os problemas, durma sem sonhar que poderá um dia mudar sua vida!” Num primeiro instante parece ser a solução, volta-se a dormir, sente-se mais calmo. Ou será que está na verdade, “zumbizando” durante o horário de trabalho? Então a sujeira debaixo do tapete começa a aparecer, atos falhos, esquecimentos, chefe cobrando, a família cobrando, não se brinca mais com os filhos, só se grita ou se cobra, só se tem vontade de dormir, dentre vários canais com assuntos diferentes você não se interessa por nenhum, pronto ela chegou: sua depressão! E agora, o que aconteceu? Você se pergunta: Fiz tudo o que o médico falou, tomei a pílula, cortei alguns alimentos, nem todos claro, um chocolate às escondidas, voltei a fazer atividade física, tudo bem que falto mais do que vou, bebo agora só nos finais de semana, que mal há em beber uma cervejinha com os amigos? O problema é que minha gastrite voltou, tenho pressão alta, o fígado não está bom e meu mau humor nem se fala! O que há de errado? Todos parecem tão felizes, eu os vejo no facebook, na televisão, no meu vizinho! Então como não se dar conta da própria vida? Olha-se a do vizinho, dos filhos, da sogra, do colega de trabalho, dizendo que toda a culpa é dos pais que fizeram ou deixaram de fazer algo.
Sabe-se que nos homens existem tendências destrutivas, com isso, na sociedade, encontramos indivíduos cada dia mais doentes, não aceitam proibições, regras ou leis. Finalmente percebe-se que as pessoas encontram-se fadadas à frustração e à insatisfação. Será mesmo esse o fim? Nesse mundo não existe felicidade? Para finalizar Freud coloca: “Gerações novas, que forem educadas com bondade, ensinadas a ter uma opinião elevada da razão, e que experimentarem os benefícios da civilização numa idade precoce, terão atitude diferente para com ela. Senti-la-ão como posse sua e estarão prontas, em seu benefício, a efetuar os sacrifícios referentes ao trabalho e à satisfação instintual que forem necessários para sua preservação” (p. 18). O exemplo mostra práticas saudáveis e que pode-se plantar sementes de solidariedade, capacitando uns aos outros, solidificando uma consciência construtiva para que a sociedade busque aliar-se às leis naturais, lutando pela própria vida. Existe uma explicação para todas essas dores e enfermidades, que não tem origem fisiológica, uma explicação que a Psicanálise pode mostrar. Não é com uma pílula que as coisas se resolverão, mas sim com atenção, respeito, confiança. O processo psicanalítico pode mostrar as respostas, que na verdade, estão muito mais próximas do que se imagina.

Referência:
FREUD. Sigmund. O futuro de uma ilusão, o Mal-Estar na Civilização e outros trabalhos (1927-1931). Coleção Imago. Vol. XXI
 extraído do original de Natália Tesouro Pereira
Psicanalista

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O Amor é cego e a loucura sempre o acompanha - Especial Dia dos Namorados

Os Sentimentos Humanos certo dia se reuniram para brincar. Depois que o Tédio bocejou três vezes porque a Indecisão não chegava à conclusão nenhuma e a Desconfiança estava tomando conta, a Loucura propôs que brincassem de esconde-esconde. A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo, e a Intriga começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear.
O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu a Dúvida e Apatia, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. A Verdade achou que isso de esconder não estava com nada, a Arrogância fez cara de desdém pois a idéia não tinha sido dela, e o Medo preferiu não se arriscar: “Ah, gente, vamos deixar tudo como esta”, e como sempre perder a oportunidade de ser feliz.
A primeira a se esconder foi a Preguiça, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. O Otimismo escondeu-se no arco-íris, e a Inveja se ocultou junto a Hipocrisia, que sorrindo fingidamente atrás de uma arvore estava odiando tudo aquilo.
A Generosidade quase não conseguia se esconder porque era grande, e ainda queria abrigar meio mundo, a Culpa ficou paralisada, pois já estava mais do que escondida em si mesma, a Sensualidade se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem frígida; o Egoísmo achou um lugar perfeito onde não cabia ninguém mais.
A Mentira disse para Inocência que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada, a Paixão meteu-se na cratera de um vulcão ativo, e o Esquecimento já nem sabia o que estava fazendo ali.
Depois de contar 99 a Loucura começou a procurar.
Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o Amor, com os olhos furados pelos espinhos.
A loucura o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando beleza pelo mundo. Desde então o Amor é cego e a Loucura o acompanha.
Juntos fazem a vida valer a pena.

Lya Luft

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Resenha do Livro: O Bebê do Amanhã - um novo paradigma para a criação dos filhos

 Por: Roberto da S. Melo

O livro “O Bebê do Amanhã” atravessa com seus postulados questões substanciais da contemporaneidade, como: o desenvolvimento saudável e desenvolvimento de transtornos psicológicos, as questões educacionais na formação da criança até questões éticas e filosóficas, como aborto e o início da vida. As teses de Verny e Weintraub mostram a força da relação entre o ser e o mundo, na construção da personalidade, desde o início da vida. Logo, são ferramentas preciosas para pais e educadores.

Na contemporaneidade, a psicopatologia infantil está sendo diagnosticada em número superior a outras épocas. Nos EUA, 9% das crianças em idade escolar são diagnosticadas com TDAH e medicalizadas. O Brasil é o segundo colocado em diagnósticos de TDAH e medicalização, vindo logo atrás do EUA. O livro torna-se uma arma contra os que defendem a etiologias deterministas de tais transtornos e, ainda, ao apontar as relações familiares como principal fator para o desenvolvimento das potencialidades da criança, mostra que, possivelmente, o principal fator para o desenvolvimento de neuroses infantis são relações conturbadas estabelecidas desde o início da vida, e que a medicalização não é o melhor caminho para a intervenção nos ditos transtornos comportamentais e sim, uma reconfiguração dessas relações.

As teses essenciais do livro “O Bebê do Amanhã", de Thomas Verny e Pamela Weintraub, são três: 1) A interação bebê/criança e o ambiente (mãe) é o fator mais forte para o desenvolvimento de uma personalidade saudável; 2) Interações positivas, carregadas de afeto positivo, facilitarão o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, e as negativas terão efeito oposto; 3) Essa interação começa desde o momento da concepção, ou seja, ainda no momento uterino. Para defender tais teses, Verny e Weintraub se fundamentam nas modernas pesquisas da Neurociência.

A interação com o meio ambiente não ocorre apenas após o nascimento, e sim desde o momento da concepção, sendo então, a mãe, o meio ambiente do feto e esta inserida no seu próprio ambiente. Logo, a mãe passará sinais do ambiente para sua criança. Verny e Weintraub colocam que as experiências, do pré-natal e após o parto, são as mais importantes para desenvolvimento sadio da pessoa.

Vários estudos, do campo da Neurociência, são apresentados no livro. Um deles mostra que a aprendizagem ocorre em momentos específicos da vida criança e não, de modo contínuo, onde uma janela na área cerebral, responsável por tal aprendizagem, é aberta, e a criança se torna apta a receber a aprendizagem, por exemplo: matemática, música, linguagem, etc. Outro estudo que impressiona é o que mostra a passagem de sinais do ambiente para o feto feito pela mãe.

O estudo que se coaduna com a tese defendida por Verny e Weintraub é o projeto Genoma, de Bipton (98). Ele mostra que mais de 95% do DNA humano não codificam dado, são interruptores. Tais genes são responsáveis por ativar e desativar os genes que vão determinar as nossas características genéticas. Ou seja, uma característica genética pode ser, ou não, ativada pelos seus interruptores, diminuindo assim, a força de hipóteses do postulado do determinismo genético. Impressiona, também, nas descobertas recentes, a velocidade do desenvolvimento das potencialidades da criança, bem superior ao que se imaginava. Com 22 semanas, os fetos já mostram padrões de ondas cerebrais semelhantes aos adultos.

O feto, desde que começa a existir, está em conexão com os sinais emocionais que a mãe envia para ele, e tal fator influenciará o estado emocional do feto e todo seu desenvolvimento. As vias de comunicação, que criam um verdadeiro diálogo da criança com a mãe e pela mãe com o mundo externo, dão-se pelo cordão umbilical e são por três canais: 1) Comunicação molecular, quando as moléculas maternas, inclusive os hormônios, chegam ao feto por meio do cordão umbilical e placenta; 2) Sensorial, quando a mãe fala, acaricia a barriga, conversa, caminha ou corre, o feto já tem seus sentidos desenvolvidos para apreender  tal comunicação de alguma modo, mesmo que rústico ainda; 3)Intuitiva, quando a forte ligação mãe e bebê faz com que ocorra a ligação de pensamentos, sentimentos e  estados emocionais entre eles.

Desta maneira, nota-se que a criança, no útero da mãe, mais do que percebe os estados afetivos da mãe, ela os sente no próprio corpo. Logo, o bebê sentirá quando a mãe está feliz, triste, alegre, com raiva, ansiedade, angústia ou medo e, mais do que isso, sentirá os verdadeiros sentimentos que a mãe tem para com ele, se o ama, se o deseja, se o teme, se odeia ou se o repulsa, entre outros tanto sentimentos possíveis . Pesquisas de várias áreas mostram como estados afetivos positivos influenciam o melhor desenvolvimento das habilidades emocionais e cognitivas da criança.

“Antes do nascimento, a experiência ajuda a estabelecer os circuitos primários do cérebro, formando uma base par a o desenvolvimento...” (p 210).

Um parênteses se faz importante: não existe pessoa, nem mãe, perfeita, e é provável, que todos os esses sentimentos estejam presentes em todas as mães, em maior ou menor escala, bem como anseios e dúvidas em relação ao novo futuro que está por vir. Neste ponto, Verny e Weintraub colocam a importância de uma “faxina emocional”, o que não significa jogar as emoções e sentimentos ruins fora, tal coisa não é possível, mas, sim, falar sobre eles, ser sincera consigo mesma, pois a melhor maneira de lidar com os sentimentos negativos é assumi-los, não recalca-los e enfrentá-los de frente.

Outro momento crucial na vida da criança é o parto. O parto é, provavelmente, a primeira experiência traumática da vida da criança, onde ela vai sair do ambiente ótimo do útero materno para o ambiente externo, cheio de ameaças, e terá que fazer movimentos, rumo a sua adaptação. A primeira difícil é adaptação ocorre logo na respiração, quando a criança, que antes obtinha oxigênio, através do cordão umbilical e da placenta, terá que se esforçar  para conseguir este oxigênio do meio ambiente. As marcas do parto são mantidas em nossa memória inconsciente, corporal para sempre na vida. A tarefa, que se impõe neste momento, é promover um parto mais acolhedor possível. Verny e Weintraub citam o programa de estimulação neonatal de Panthuraamphorn (1994) de Bangkok, no qual seis elementos são fundamentais: pouca luz e pouca estimulação visual, som ambiente abafado e pouca estimulação auditiva, toques suaves (o bebê necessita sentir o toque da mãe), calor (salas em temperatura ambiente com ar-condicionado desligado) e movimentos e atividades de apoio. Tais medidas visam diminuir o impacto da mudança do útero para o ambiente externo mundano.

O recém-nascido é um ser muito mais completo do que se cria antigas teorias. Ele já apresenta estágios muito avançados de consciência e percepção sensorial. Assim sendo, percebe e apreende o ambiente a sua volta, sendo sensível a experiência que viverá desde seu nascimento. As experiências positivas e as negativas, como a de dor, permanecerão, na memória emocional, para o restante da vida.

As experiências afetivas vividas pelo recém-nascido não afetarão apenas o desenvolvimento emocional, mas, também, o desenvolvimento cognitivo. As modernas teorias neurocientíficas mostram a interligação dos circuitos neurais destas áreas específicas do cérebro, principalmente, no que tange o momento do desenvolvimento.  Então, experiências afetivas positivas tendem a acelerar o desenvolvimento global destas áreas, enquanto, as negativas têm efeito oposto.

“A pesquisa (Shore, 1997) demonstra que a aquisição da linguagem, a cognição e a inteligência reforçam-se mutuamente e dependem da relação entre a criança e a pessoa que cuida dela. O que o oxigênio é para o cérebro, as palavras pronunciadas com delicadeza, respeito e amor são para a jovem psique.” (p 209).

Portanto, é visto que o ser é, integralmente, corpo e psique, lançado na existência, desde o início da vida, e encontra, na interação com o mundo, o centro de sua formação. O corpo fisiológico se modifica de acordo com o modo que vai se estabelecendo sua relação com o mundo. A experiência, nessa relação, inevitavelmente, deixará marcas na sua existência.

É importante salientar que o livro formula, com bases em evidências científicas, condições ideais para o desenvolvimento da criança, porém, é mister,  ressaltar que o ideal, provavelmente, nunca é alcançado. Não se trata de pais negligentes, mas sim de que, as exigências e contingências da vida fazem com que seja improvável que alguém consiga atender todas as premissas enumeradas no livro. Porém, o ideal é sempre algo a ser buscado, mesmo que nunca alcançado, por isso, o livro é arcabouço fundamental de informações, e é presumível que pais afetuosos, suficientemente maduros e interessados, façam bom uso dessas informações e possibilitem um bom ambiente para o desenvolvimento das potencialidades da criança.

Referências:

O Bebê do Amanhã - um novo paradigma para a criação dos filhos (2014). Verny, Thomas R. e Weintraub, P.; Barany, Editora; São-Paulo - SP.

Why French Kids Don't Have ADHD; Wedge, M – Psychology Today – disponível em http://www.psychologytoday.com/blog/suffer-the-children/201203/why-french-kids-dont-have-adhd  acessado em 31/12/2014

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O Autismo e a simbologia do quebra-cabeça

Dia 2 de abril é Dia Mundial de Conscientização Sobre o Autismo, nessa data, se multiplicam nas redes sociais homenagens invocando seus símbolos como a cor azul  ou uma peça de um quebra-cabeças, ícones escolhidos para representar a causa. Já que o dia é de conscientização, cabe aqui uma reflexão sobre essa simbologia.
A cor azul deve-se à maior incidência de casos no sexo masculino. Já o jogo representaria a complexidade do distúrbio, que tem manifestações e possibilidades de tratamentos diferentes. Portanto, começo daí meu questionamento: estamos interpretando adequadamente esse ícone? No jogo em que as peças se encaixam, não há uma sequência obrigatória, o objetivo é remontar uma imagem desintegrada, reunir, juntar e assim, aos poucos, dar forma àquilo que inicialmente parecia não ter sentido. É um trabalho complexo de recriação que nos permite uma reflexão importante.
Entretanto, levar muito ao pé da letra essa desintegração pode ser um grande risco, já que alguns acreditam que as peças devem estar delineadas e no formato exato para se encaixarem perfeitamente às outras. Funcionaria assim com o desenvolvimento infantil?
A busca incessante pelo recorte perfeito é o que propõem diversos métodos, técnicas e formas de tratamento, uns que se denominam incompatíveis com os ideais dos outros.
Organização, interação, fala, linguagem, independência, brincar, escola... Existe a possibilidade dessas palavras andarem separadas, quando falamos de uma única pessoa?  
Sem ignorar a evolução de cada aprendizado, grande parte dos conhecimentos são adquiridos simultaneamente e depois evoluem em complexidade. As crianças aprendem a brincar, falar, andar e conviver com outros quase que ao mesmo tempo e vão aprimorando essas relações e conhecimentos. Não há uma ordem certa, uma sequência de peças que precisam se encaixar.
A busca do equilíbrio deve ser constante;  voltando ao paralelo do quebra-cabeça , as peças podem e devem ser trabalhadas para que cada vez o desenho fique melhor, mas o que não deve acontecer é determinar uma única sequência, estar pronto para integrar. Buscar estratégia para a união se torna mais interessante do que tentar encaixa-las a todo custo. Explorar possibilidades, permitir e estimular interações como caminhos possíveis, com a certeza de que cada um tem o seu próprio jeito de evoluir, aprender, montar suas próprias imagens.
Ainda na simbologia do quebra-cabeça, podemos sobrepor peças, recortar as pontas e uni-las com cola, usar fitas adesivas, cola líquida, bastão... Fantasiar é preciso, criar, inovar, pode e deve substituir o padrão esperado, valorizar o fazer diferente, desde que satisfatório.
Mas qual seria a proposta? Mudar o símbolo? Não, o que eu proponho é uma mudança de olhar, de perspectiva, entender que existem mais possibilidades do que uma única peça se encaixar ou não. Há ajustes, recortes, mudanças até mesmo na imagem que se espera obter no final: seria ele um perfeito quadro realista ou conquistas que se multiplicam?
O equilíbrio passa a ser não só uma obrigação dos pais e sim de toda a estrutura  que uma intervenção para um autista exige. Vale lembrar que essa estrutura é complexa e  muitas vezes maior do que algumas empresas. Escutamos em todos os cantos de convívio da criança, como escola e clinicas, que deveríamos “falar a mesma língua”. Arrisco dizer que devemos nos entender. Metaforicamente, se um falasse inglês, outro em português e um outro em espanhol, que uma língua universal seja encontrada e que esta seja a língua da criança, aquela que contemple todas as suas necessidades e desejos. Que a criança esteja no centro, que ela seja mais vista do que o método ou o autismo. Ela, afinal, tem que ser o objetivo de tudo.
Devemos aprimorar habilidades, trabalhar com objetivos? Sim, mas não esperar nem exigir  a perfeição como requisito para novas aprendizagens. Nenhuma criança chega na escola pronta, não seria aquela que tem autismo a ter essa obrigação. O estar na escola que deixa as crianças aptas para tal. Nenhuma criança aprende a comer sozinha sem fazer sujeira, nem sai por aí conversando antes de repetir muitas vezes a mesma palavra e descobrir significados e contextos.
Conscientizar sobre o Autismo é valorizar cada ganho, entender cada especificidade, respeitar as individualidades e acima de tudo lembrar que estamos falando em uma pessoa, que é sim diferente, como todos nós somos.
Torço para que esse 2 de abril seja um dia de olhar a questão com mais envolvimento, com compromisso com as pessoas autistas e não apenas para as peças de um jogo complexo e por vezes  desanimador.

Por: Regis Nepomuceno, terapeuta ocupacional, sócio da Inclusão Eficiente e um dos criadores do app Minha Rotina Especial. Realiza palestras e consultorias especializadas em inclusão escolar de crianças com autismo e/ou deficiências no Brasil e em Portugal. Oferece orientação em atendimento especializado para famílias, empresas e escolas

sábado, 21 de fevereiro de 2015

‘Não tenho tempo pro não essencial’, diz neurologista com câncer terminal - Oliver Sacks

O neurologista britânico Oliver Sacks, 81 anos, anunciou hoje que está com câncer em estágio terminal, em um texto publicado no “New York Times” e logo replicado em todo o mundo.
O escritor e professor da Escola de Medicina da Universidade de Nova York afirma no artigo, intitulado “Minha própria vida”, que se sentia saudável até um mês atrás, quando foi diagnosticada uma metástase no fígado.

O cientista conta que, há nove anos, tratou de um raro melanoma ocular que tinha apenas 2% de chance de sofrer uma metástase e ele está neste grupo. “Minha sorte acabou.”

No texto, sóbrio e poético, Sacks diz se sentir grato por ter tido “nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original". "Mas agora estou de cara com a morte”, afirma.

E segue: “Depende de mim escolher como quero viver os meses que me restam. Tenho que viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que puder”.

O autor de livros de não ficção de sucesso como “Tempo de Despertar” e “O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu” diz que se sente “intensamente vivo” e conta o que quer, no tempo que lhe resta: "Aprofundar minhas amizades, dizer adeus aos que amo, escrever mais, viajar”.

Segundo ele, tentará acertar as contas com o mundo e, também, se divertir e fazer algumas bobagens.

Sacks diz que está focado: “Não há tempo para nada não essencial. Tenho de me concentrar em mim mesmo, meu trabalho, meus amigos”. Notícias sobre política ou aquecimento global não terão mais sua atenção. Explica: “Estes não são mais meus problemas; eles pertencem ao futuro”.

Encerra reafirmando que seu sentimento predominante não é o medo, mas de gratidão. “Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal pensante, neste lindo planeta, o que tem sido um enorme privilégio e aventura”.

Por QSocial, com informações do “New York Times”


*Este texto faz parte do projeto Geração Experiência, que tem como objetivo mostrar histórias de pessoas com mais de 60 anos que são inspiração para outras de qualquer idade.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Acúmulo compulsivo

Publicação Jornal Psi Edição 180 - 2014

De um em um. Mais alguns. E outros tantos. A soma não tem fim, ou melhor, perde-se a conta. O Acúmulo Compulsivo, ou Disposofobia, é uma condição que se materializa rapidamente. Entrar nesse universo é um processo que acontece quando já não é mais possível nem passar pela porta. A intervenção é um desafio. Diagnosticar os sinais (leia box) não basta. É preciso entender contextos de vida que tornam cada caso único.


 
Funcionários da Prefeitura em ação de remoção de entulho; operação lotou 20 caminhões
Falar sobre a questão do acúmulo compulsivo em nossa sociedade nos remete a uma análise crítica sobre as formas preponderantes de sociabilidade frente a inúmeras mercadorias que, incessantemente, são apresentadas a todos como úteis e necessárias. Nesse sentido, é importante compreender essa condição também como um desdobramento típico da vida em uma sociedade capitalista , sendo que o acúmulo compulsivo nos revela, de alguma forma, uma expressão da compulsividade e reificação que se dá socialmente .

Isso exige, no campo da Psicologia, estratégias de acompanhamentos e intervenções. E descobertas são bem-vindas para compreender a evolução desse sofrimento e tratá-lo adequadamente.

O que a prática revela
Muitos casos só vêm à tona de modo dramático. Movidos por denúncias de vizinhos e pelo cumprimento de mandados judiciais, os serviços públicos de grandes cidades, como São Paulo por exemplo, se deparam com aspectos que tornam ainda mais complexa a tarefa de remover o excesso de materiais inservíveis e de animais dos domicílios das pessoas.

"Ao investigarmos situações que expõem comunidades a um risco, constatamos que, no centro desse problema, estão indivíduos que necessitam de cuidado", afirma a psicóloga Regina Gomes, assistente técnica na área de Saúde Mental da Supervisão de Saúde - Vila Maria/Vila Guilherme, ligada à Secretaria Municipal de Saúde.

Segundo Regina, desde 2012 acontecem articulações com vários órgãos da saúde pública para acompanhamento de casos com esse perfil, na zona norte da capital paulista. Esse trabalho é compartilhado pela psicóloga clínica Sueli Maciel, do Serviço Social e Psicologia do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de São Paulo.

"Lidamos com situações em nível de gravidade extremo, para vistoriar falta de higiene ou maus tratos com animais. O Acúmulo Compulsivo impacta o próprio sujeito e o seu entorno. Ambos precisam ser cuidados. Desde 1996, esse é o foco do meu trabalho junto aos veterinários e biólogos do CCZ", conta Sueli.

Resgate de vínculos
O propósito de remoção de objetos e animais transforma-se em pano de fundo para uma cuidadosa abordagem quando o indivíduo é diagnosticado como acumulador compulsivo. Um passo inicial - decisivo para a continuidade do cuidado - é o resgate do convívio social, perdido com o avanço dessa condição.

"O Acúmulo Compulsivo impacta o próprio sujeito
e o seu entorno. Ambos precisam ser cuidados. Desde 1996 esse é o foco do meu trabalho junto aos veterinários e biólogos do CCZ"
Sueli Maciel

"Temos de reconstruir com ele vínculos que não existem mais com a família ou amigos, com a comunidade, com os serviços públicos. Reverter um isolamento gerado pela cronicidade", comenta Regina. Segundo a psicóloga, as estratégias seguirão o ritmo da pessoa, e não necessariamente os passos do protocolo estabelecido. Isso requer várias visitas. E as "brechas" reveladas dirão como prosseguir e quando envolver a assistência social e os outros especialistas da área da saúde.

"Tentamos conhecer seu histórico pessoal e social, para entender o que deseja com aquela situação. Ouvir a pessoa é fundamental para traçar o caminho da intervenção. Avaliamos até a necessidade de atendimento de retaguarda, caso ocorra um surto ao confrontá-la com seu problema", aponta Sueli.

Contextos diversos
Nesse monitoramento, Regina e Sueli descobrem - além das situações estressantes que funcionaram como gatilho - uma diversidade de contextos do cotidiano, que dão contorno à problemática vivida pela pessoa. E observam que a perda do controle sobre o que é acumulado leva a outros acúmulos: de descuidos com a própria saúde, de dificuldades financeiras, de multas relacionadas ao problema, que são ignoradas e chegam quase ao valor do imóvel em que a pessoa reside.

Há excessos que remetem a uma privação vivenciada no passado, durante uma guerra, por exemplo, em alguns casos. Por trás da coleta desordenada de materiais para reciclagem, existe o sonho de ter um negócio próprio. Há a compulsão por ofertas, com a compra de produtos sem critério ou necessidade. Ou ainda uma carência afetiva, projetada para animais de estimação.

"Devemos ser terapêuticos já na intervenção, para que seja mais cuidadosa e menos estigmática", explica Sueli. Para ela, os reality shows na TV sobre o tema fortalecem o preconceito, ao focarem mais no problema do que na solução.

Em boa parte dos casos, o sofrimento aparece associado a outras condições como demência em idosos, depressão e esquizofrenia ou mesmo a dependência do álcool.


A complexidade desse quadro pode acometer qualquer segmento social. "Acomete homens e mulheres de todas as classes socioeconômicas, com casa própria ou não, dos que possuem boa renda até os que vivem em situação de pobreza. A incidência entre idosos é grande, mas ocorre também na maturidade e, com menos frequência, entre os jovens."

Sinais de acúmulo compulsivo

Acúmulo sem organização, utilidade ou lógica pré-estabelecidas - ao contrário do colecionismo ou mesmo do TOC, em que se observa a existência de um ritual.

- Incapacidade de jogar fora objetos ou doar animais recolhidos em excesso.
- Perda de controle sobre o que foi recolhido - a insalubridade passa a caracterizar uma condição de vida.
- O propósito da moradia é desvirtuado - todos os ambientes são gradativamente deteriorados e ocupados para abrigar o que é acumulado.
- Opção pelo isolamento, geralmente após o confronto por familiares, amigos ou vizinhos - a perda dos vínculos de convívio social é motivada por vergonha ou pela incapacidade de lidar com o problema.
- Prejuízo da crítica, com falta de percepção e grande resistência para aceitar que o acúmulo seja um problema - o nível de gravidade de cada caso será determinante para definir como sensibilizar a pessoa e conseguir dar o encaminhamento adequado.

Acúmulo de animais
O excesso de animais é um quadro ainda mais complicado - por causa da existência de uma relação afetiva, principalmente com cachorros e gatos. A crença de poder cuidar muito bem de dezenas, e até centenas deles, transforma-se em uma incapacidade não mais percebida pelo acumulador.


"A maioria é de mulheres idosas, divorciadas ou viúvas, que vivem sozinhas. Tratam os animais como seus filhos. Gastam com eles toda a renda; a casa é deles. Propor a remoção dos bichos para adoção exige um cuidado enorme ao confrontá-las, pois nesse perfil, em particular, existe um apego muito grande", descreve Sueli.
 
Diálogo e prevenção
Segundo Regina, um seminário realizado em outubro desse ano, pela Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, deu destaque à questão. "Reunimos cerca de 650 profissionais do setor público de todo o Brasil. Foi o pontapé inicial para envolvermos na discussão instâncias que podem pensar em uma política pública abrangente para essa problemática."

Um aspecto preventivo - que se aplica a adultos e crianças - é a atenção com o consumismo exagerado. "Somos induzidos a adquirir mais coisas. Mas podemos fazer do ato de doar algo tão prazeroso quanto comprar", lembra Regina.

Mais sobre o tema
- O artigo sobre o estudo do pesquisador David Tolin, no jornal da American Medical Association:
http://archpsyc.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1307558&resultClick=3

- O blog criado pela Supervisão de Saúde - Vila Maria/Vila Guilherme, da Secretaria Municipal de Saúde de SP:
http://acumulocompulsivo.blogspot.com.br/

domingo, 8 de fevereiro de 2015

SE COLOCAR NO LUGAR DO OUTRO



Uma das operações psíquicas mais sofisticadas que aprendemos, lá pelos 7 anos, é esta, de tentarmos sair de nós mesmos para imaginar como se sentem as outras pessoas. De repente podemos olhar para a rua num dia de chuva e imaginar - o que, de certa forma, significa sentir - o frio que um outro menino pode passar por estar mal agasalhado.
Nossa capacidade de imaginar o que se passa é como uma faca de dois gumes. O engano mais comum - e de graves conseqüências para as relações interpessoais - não é imaginarmos as sensações de uma outra pessoa, e sim tentarmos prever que tipo de reação ela terá diante de uma certa situação.

Costumamos pensar assim: "Eu, no lugar dela, faria desta maneira." Julgamos correta a atitude da pessoa quando ela age da forma que agiríamos. Achamos inadequada sua conduta sempre que ela for diversa daquela que teríamos. Ou melhor, daquela que pensamos que teríamos, uma vez que muitas vezes fazemos juízos a respeito de situações que jamais vivemos.

Quando nos colocamos no lugar de alguém, levamos conosco nosso código de valores. Entramos no corpo do outro com nossa alma. Partimos do princípio de que essa operação é possível, uma vez que acreditamos piamente que as almas são idênticas; ou, pelo menos, bastante parecidas.

Cada vez que o outro não age de acordo com aquilo que pensávamos fazer no lugar dele, experimentamos uma enorme decepção. Entristecemo-nos mesmo quando tal atitude não tem nada a ver conosco. Vivenciamos exatamente a dor que tentamos a todo o custo evitar, que é a de nos sentirmos solitários neste mundo.

Sem nos darmos conta, tendemos a nos tornar autoritários, desejando sempre que o outro se comporte de acordo com nossas convicções. E assim procedemos sempre com o mesmo argumento: "Eu no lugar dele agiria assim."

A decepção será maior ainda se o outro agiu de modo inesperado em relação à nossa pessoa. Se nos tratou de uma forma rude, que não seria a nossa reação diante daquela situação, nos sentimos duplamente traídos: pela agressão recebida e pela reação diferente daquela que esperávamos. É sempre o eterno problema de não sabermos conviver com a verdade de que somos diferentes uns dos outros; e, por isso mesmo, solitários.

Aqueles que entendem que as diferenças entre as pessoas são maiores do que as que nos ensinaram a ver desenvolvem uma atitude de real tolerância diante de pontos de vista variados a respeito de quase tudo. Deixam de se sentir pessoalmente ofendidos pelas diferenças de opinião.

Podem, finalmente, enxergar o outro com objetividade, como um ser à parte, independente de nós. Ao se colocar no lugar do outro, tentarão penetrar na alma do outro, e não apenas transferir sua alma para o corpo do outro. É o início da verdadeira comunicação entre as pessoas.
autor: Flávio Gikovate

Autonomia e Superação - Edição Psique Ciência e Vida dezembro de 2014

Olá Amigos nesta edição da Revista falo sobre Autonomia e Superação de Pessoas com Deficiência do ponto de Vista da Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers.
Espero que gostem do resultado!!!

abcs

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

MUITAS CRIANÇAS COM AUTISMO AMAM MÚSICA: COMO APROVEITAR ESSE PONTO FORTE?



A música está presente em quase todos os ambientes que frequentamos: reuniões de amigos, salas de espera, elevador… A música pode ter o poder de nos deixar mais calmos e relaxados depois de um dia longo de trabalho, ou de nos agitar para curtir uma festa no fim de semana.
Em nossa cultura, temos o hábito de cantar para os bebês desde que nascem e continuar expondo as crianças à música durante toda sua infância. Para as crianças com TEA isto não é diferente. É comum encontrarmos crianças com autismo que cantam antes de falar ou que se interessam pouco por brinquedos, mas ficam atentas imediatamente ao ouvir uma música do Patati Patatá. Mas, como podemos utilizar músicas para auxiliar no desenvolvimento dessas crianças?
Uma maneira de se utilizar a canção para estimular o desenvolvimento de crianças com TEA que se interessam por música, é esperar que ela faça contato ocular para iniciar a cantiga e se manter cantando enquanto a criança se mantiver na interação através do contato ocular. Caso ela se disperse, podemos parar a canção e continuá-la quando a criança novamente retomar a interação social, olhando novamente. Isso torna a música, cada vez mais, um contexto de interação social, aumentando a chance da criança ver o contato ocular como algo agradável e passar a olhar mais também em outros contextos.
Podemos também utilizar músicas em rotinas diárias, de modo a facilitar a adesão da criança nestas atividades, tais como escovar os dentes, tomar banho, almoçar. A música funciona como uma antecipação e prepara a criança para a mudança de foco, evitando com isso situações de recusa ou dificuldade de aceitação da atividade nova.
É interessante observar que crianças em geral (não só aquelas com autismo) preferem músicas que possuem repetições e padrões. Vamos pensar na música “Atirei o pau no gato” como exemplo:
“Atirei o pau no gato to
Mas o gato to
Não morreu reu reu
Dona Chica ca
Admirou-se se
Do berro, do berro
Que o gato deu
Miau!”
É fácil perceber as rimas e repetições nesta cantiga, não é? Para as crianças que a escutam várias vezes, esta melodia pode auxiliar no desenvolvimento de sua linguagem, já que é fácil ouvir, gravar e repetir os sons.
Uma criança que está começando a falar suas primeiras palavras terá mais facilidade de repetir os sons mais fáceis (“gato”, “miau”). Assim, ao cantarmos a música para ela, podemos fazer o exercício de parar para que ela complete a frase com tais palavras. Ex: “Atirei o pau no gato…” e a criança deve dizer “to”.
Já quando a criança estiver falando bem, esta música pode contribuir com palavras e expressões novas para seu vocabulário (“admirou-se”, “berro”).
Pensando de forma mais ampla, a música pode ser utilizada para auxiliar na socialização com outras crianças. Cantando juntas, as crianças podem brincar de roda, de adoleta, dançar… São muitas as possibilidades! E, com o auxílio da música, as relações sociais podem ser trabalhadas de forma mais prazerosa para a criança com dificuldades nesta área.
Além disso, durante as aulas de música na escola é comum que, além de cantar, as crianças aprendam a utilizar instrumentos musicais concomitantemente. Em alguns casos, percebemos que a manipulação desses instrumentos pode reduzir os comportamentos estereotipados na medida em que eles ganham uma nova função: produzir um som em uma música. O uso de instrumentos musicais pode também auxiliar no treino de troca de turno, em que a criança aprende que uma hora ela toca, outra hora ela espera.
Enfim, são várias as possibilidades de se trabalhar com música. Observando e procurando identificar o que agrada mais a cada criança podemos estimular o desenvolvimento de forma descontraída e divertida!
Fonte: http://www.abaeautismo.com.br/2014/03/muitas-criancas-com-autismo-amam-musica.html