Vai ganhando corpo a corrente dos profissionais de saúde
mental que, como o americano Dale Archer, denuncia a patologização de
comportamentos normais. Pressões da indústria de drogas seriam um dos motivos
para essa verdadeira epidemia de diagnósticos.
É fato que o aumento das doenças mentais ocorre num ritmo
suspeito e que isso interessa aos laboratórios. Penso, porém, que ao menos
parte do fenômeno está relacionado a uma questão de filosofia da medicina que é
pouco explicitada. Quando se torna legítimo atuar? Na visão mais clássica, o
médico só pode intervir para restaurar a saúde. A prescrição de drogas para
qualquer outro fim que não curar uma doença bem definida seria antiética.
A questão é que, sem muito alarde, esse paradigma está
mudando. Hoje, as pessoas procuram médicos não só para recuperar a saúde mas
também para melhorar sua performance numa área ou apenas para sentir-se melhor.
Não vejo muito como condenar em termos morais essa ampliação do escopo da
medicina. É evidente, porém, que ela cobra seu preço. A patologização de
estilos de ser que poucas décadas atrás seriam classificados como meras
variações de personalidade é parte da fatura.
Paradoxalmente, a supermedicalização convive com seu
reverso, que é o subdiagnóstico, já que parcela significativa da população
brasileira não tem acesso ao sistema de saúde e fica sem tratamento. E, se
queremos atender a todos, que me perdoem os psicoterapeutas, não há caminho que
não o dos remédios.
Imaginemos, num cálculo conservador, que 10% da população
sofre de algum transtorno e poderia beneficiar-se de tratamento. Se fôssemos
ministrar duas horas de terapia por semana a 20 milhões de pacientes,
precisaríamos de um exército de 1,1 milhão de profissionais executando jornadas
fordistas (sem intervalo) de 35 horas semanais. É muita areia para o
caminhãozinho do SUS.
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