A adolescência sempre foi um conceito bem complexo de se
abordar. Nem mesmo os estudiosos conseguiram chegar a um conceito único a
respeito dessa fase do desenvolvimento. Quando ela começa e quando termina?
Quais suas características principais? Tem relação direta com a idade e/ou com
fenômenos biológicos ou a estes devemos acrescentar, necessariamente, os
sociológicos e os psicológicos?
Muitos estudos foram realizados, mas estes nunca chegaram a
ter unanimidade entre si. Alguns afirmaram que sim, essa é uma fase coincidente
com a puberdade, enquanto outros que é um fenômeno exclusivamente
sociocultural; tivemos inclusive autores que consideraram a adolescência uma
síndrome --ou seja, um conjunto de sintomas-- normal. Por mais que pareça
estranha essa última ideia, muitos estudos foram realizados nesse sentido,
principalmente pela psicologia.
Mesmo com tanta complexidade e divergências, alguns
elementos eram tidos como referências por quem, de algum modo, se dedicava a
trabalhar com os mais novos. A adolescência era considerada um período que
compreendia a busca de identidade e o autoconhecimento; que era marcado pela
busca de pares, o que provocava o distanciamento dos pais; e era nesse período
que ocorria a explosão da sexualidade em sua forma adulta.
Algumas outras ideias, como a mudança da noção do tempo
--que passava a ser conjugado no passado, presente e no futuro-- e a busca de
segurança e de estabilidade --emocional, afetiva, pessoal, profissional, por
exemplo-- juntavam-se às primeiras e formavam um conceito que, na prática,
caracterizava o comportamento dos adolescentes.
Pois bem: esse conceito, já tão complexo, passou a ficar
cada vez mais irreconhecível a partir do final do século 20. É que o mundo
adulto foi invadido pela busca da felicidade e da juventude, entre outras
coisas, o que transformou muito o comportamento de quem já tinha maturidade.
Dessa maneira, características antes creditadas apenas a
adolescentes passaram a fazer parte da vida adulta também. A impulsividade, o
imediatismo, a busca do prazer e da liberdade e o comportamento de risco, por
exemplo, passaram a ser fatos corriqueiros na vida dos mais velhos.
Ao mesmo tempo, as crianças passaram a perder a infância
cada vez mais cedo e seus interesses, seu comportamento, suas vestimentas, sua
vida social e a linguagem usada ficaram cada vez mais parecidas com as dos
adolescentes.
Por isso, a notícia que saiu dias atrás que, agora, a
adolescência deve ser considerada um período que vai até os 25 anos não é
nenhuma novidade. Já faz tempo que constatamos que a adolescência começa cada
vez mais cedo e termina cada vez mais tarde. Quando termina!
Por isso, não deve estar longe o tempo em que a adolescência
vai se tornar um conceito obsoleto. Vai deixar de ser um período da vida para
ser um estilo de vida. O nosso.
Se isso é bom ou não, só saberemos mais tarde. Pagamos para
ver: essa é uma expressão que se aplica muito bem a essa questão. Entretanto,
precisamos considerar a possibilidade de a maior parcela dessa conta poder ser
debitada aos adolescentes de fato. Pelo menos, como eram considerados antes de
todas essas mudanças.
É que eles podem olhar para nós e perceber que, depois de
chegarmos à vida adulta, decidimos retornar; e podem até concluir que nem vale
a pena experimentar essa tal vida adulta, não é?
Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Cotidiano".
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