Muitos adultos têm se angustiado para educar seus
filhos, ou melhor, para saber o melhor caminho a tomar na prática educativa.
Fui interpelada por uma mãe confusa frente a tantas orientações diferentes, e
muitas vezes contraditórias, a respeito da educação dos filhos. "Uma hora
é para elogiar, outra hora o elogio prejudica; há quem diga que é preciso dizer
não com muita firmeza, e há os que afirmam que os pais não devem ser
autoritários. Tem também a vida escolar: é bom ou não os pais se envolverem?
Afinal, como devemos agir?"
Ao ouvir a reclamação dessa mãe, dei toda razão a
ela. Vivemos um momento de produção incessante do conhecimento, em todas as
áreas, e de difusão instantânea de informações que, por sinal, consumimos
vorazmente.
Tomemos como exemplo a medicina. Se quisermos
cuidar bem de nossa saúde atendendo a todas as informações médicas a que temos
acesso, nos veremos em maus lençóis. O colesterol prejudica o sistema
cardiovascular ou não? Devemos -ou não- tomar medicamento para controlar tal
índice? Ingerir glúten é ou não prejudicial? E a lactose? Usei esses dois
exemplos apenas porque li nos últimos dias reportagens e artigos, totalmente
contraditórios entre si, a respeito desses assuntos. Mas a lista é enorme.
A mesma coisa acontece com a educação dos filhos
que, hoje, é um dos assuntos que sempre aparece nas mídias. Temos informações
de todos os tipos sobre esse tema porque o conhecimento não é neutro; é
produzido por nós, que temos valores e ideologias. Sabemos também que tudo que
é escrito pode ser lido de diferentes maneiras. Além disso, há também o
conhecimento que perde o seu valor científico ao ser transformado em regras, em
receitas, dogmas ou bordões.
Exemplo: "Elogiar a criança colabora para que
ela construa uma boa autoimagem de si". Caro leitor, deve ter sido bem
difícil para a criança sobreviver a esse longo período de elogios constantes.
Para nossa sorte, elas reagiram. Vi uma cena inesquecível nesse sentido. Um
garoto de cinco anos teve seu trabalho com tintas elogiado pela professora.
"Você gostou?" perguntou ele novamente. Frente à resposta afirmativa
e entusiasmada da professora, ele mandou: "Que mau gosto!".
Ah! E não podemos nos esquecer das pressões que os
pais sofrem de movimentos sociais que têm como base a defesa de alguns
preceitos: alimentação, consumo etc. Os pais que, por algum motivo, não
conseguem se encaixar nas premissas desses movimentos culpam-se e, portanto,
perdem a potência no seu exercício pessoal da maternidade e paternidade.
Qual a saída? Saber que o que conduz a educação
familiar são as tradições de cada família, os valores priorizados, as virtudes
consideradas valiosas e, principalmente, a afetividade envolvida entre os
integrantes do grupo. Não a afetividade melosa de incontáveis declarações de
amor ao filho, e sim a amorosidade de introduzi-lo na vida como ela é, de dar
banhos de realidade no filho de acordo com a idade que ele tem.
O maior desafio dos pais frente a tantas correntes
educacionais e pressões sociais talvez seja o de conseguir ficar conectado com
as informações que vêm do conhecimento, ou seja, externas, e, ao mesmo tempo,
preservar a cultura do grupo familiar, essa panelinha que não deve nem pode se
tornar uma microssociedade anônima.
Fazer escolhas seguindo argumentos pessoais e
familiares e honrá-las; agir com bom-senso, coerência e coragem para rever
posições; não ter medo de errar porque nós, pais, erraremos sempre, agindo
assim ou assado: esses são alguns pontos que podem ajudar os pais em sua -cada
vez mais- árdua tarefa educativa.
Rosely Sayão,
psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades
vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia
dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Cotidiano".
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