Resumo: Esse artigo visa estudar a relação entre as doenças
psicossomáticas e o câncer de mama. Desse modo, evidenciou-se que apesar de
muitos estudos serem desenvolvidos sobre o corpo e mente, ainda falta de
conhecimento sobre o assunto. WINNICOTT em 1949, falou do erro em que os
médicos apenas observam o lado físico do paciente e desprezam as desordens psicossomáticas
que ocorrem no cérebro do indivíduo. É certo afirmar que a Psicossomática tem
seu reduto na Psicanálise.
Introdução
A medicina Psicossomática tem seu surgimento não muito
distante, pois esta só foi estudada a partir do século XX, onde Heinroth
através de pesquisas e estudos criou a expressão psicossomática em 1918 e a
somatopsíquica dez anos depois. A partir de então muitos estudos tem sido
realizados sobre o corpo e a mente, por alguns há ainda certo percentual de
ceticismo, mas a cada dia que passa a realidade que ‘o corpo fala’, tem
alcançado mais credibilidade.Para fazer menção à medicina Psicossomática é
necessário diferencia-la da Psicanálise e Hisada nos elucida ambos os termos da
seguinte forma:
Medicina Psicossomática é o estudo das relações mente-corpo
com ênfase na explicação psicológica da patologia somática; é uma proposta de
assistência integral e uma transcrição para a linguagem psicológica dos
sintomas corporais, enquanto que a Psicanálise é um método de investigação da
mente e uma atividade terapêutica. (EKSTERMAN, apud HISADA, 1992).
Desta forma a doença Psicossomática refere-se a algo não bem
desenvolvido, no que diz respeito ao lado emocional do sujeito em certo momento
de seu desenvolvimento. Winnicott em 1949, falou do erro em que os médicos
apenas observam o lado físico do paciente e desprezam as desordens
psicossomáticas que ocorrem no cérebro do indivíduo.
Consegue-se perceber que entre a Psicossomática e a medicina
Psicossomática há uma distinção, referindo-se a isto, Sami-ali (CERCHIARI apud
SAMI-ALI, 2000) diz que Psicossomática é: um modelo teórico e uma metodologia
específica, onde o somático é percebido em sua complexidade e não na falha
psíquica.
Pode-se assim dizer que a Psicossomática tem seu reduto na
Psicanálise. Novamente Winnicott traz uma compreensão do assunto quando ele diz
que: “quando há saúde a mente não usurpa a função do meio-ambiente, tornando
possível porém a compreensão eventualmente de seu fracasso relativo”. (HISADA
apud WINNICOTT, p.4, 2001).
No entanto, Alexander [1] (1989) diz que, teoricamente, cada
doença é psicossomática, uma vez que fatores emocionais influenciam todos os
processos do corpo, através das vias nervosas humorais e que os fenômenos somáticos
e psicológicos ocorrem no mesmo organismo e são apenas dois aspectos do mesmo
processo. (CERCHIARI, 2000).
O certo é que o ambiente tem uma responsabilidade no que diz
respeito ao desenvolvimento do indivíduo, e é ele que torna possível o seu
self. E de acordo com Hisada há uma relação entre o psique e a soma onde há o
ponto central, e é neste que o self se desenvolve.Devido a isto há uma relação
entre a personalidade construída do sujeito e as doenças apresentadas nele.
Sobre isto Hisada (2001, p. 8) esclarece:
Cada indivíduo tem um modo de viver e adoecer. O tipo de
doença e a época da vida em que ela se manifesta tem relação com a sua
história, com a natureza dos seus conflitos intrapsíquicos e com a forma de
lidar com eles.
A forma como cada pessoa foi criada, o contexto
sócio-histórico reflete na vida do indivíduo, porque tudo o foi construído foi
internalizado e pode refletir de alguma forma na vida do sujeito.
Estudo de Caso
Este estudo de caso tem o objetivo de apresentar o quanto o
ambiente em que a pessoa foi criada, afeta em sua vida, podendo esta ser
saudável ou não. Pretende-se demonstrar
a forma de como foi a construção da pessoa, realizada pela mãe ou
cuidadores implica em sua forma de lidar com as angústias, decepções, tristeza
etc.
No grupo de mulheres com câncer há ente elas as que é
perceptível a somatização. Elas, na fala verbal deixam transparecer suas
impressões, uma delas vamos chamá-la de Luciana. Ela foi criada em uma das
cidades do norte de Mato Grosso. Segundo ela quando estava grávida de seu
primeiro filho, já estava sentindo às contrações, e a bolsa já havia estourado
e as dores eram intensas, porém ela não conseguia sair do quarto de sua casa,
pois não conseguia se ver sendo cuidada por homens, sendo estes enfermeiros e médicos,
‘ver minhas partes intimas’ dizia ela, isto só em passar por sua mente era
indigestível.
A forma como foi construída a personalidade de Luciana,
agora estava colocando em risco sua própria vida e a de seu filho. Ela lembra
que foi necessário que seu esposo fizesse uso da força para que o processo do
nascimento do filho transcorresse dentro do contexto atual. Ela diz que foi
criada entre muitos tabus, e que sua mãe foi a principal responsável por esta
construção. Luciana a terceira filha de uma prole de 10 irmãos. Ela conta que
sua mãe usava frequentemente roupas que não marcavam o corpo, isto era uma
forma de evitar falar sobre o tema sexo com os filhos. Assim quando esta se
encontrava grávida, sua aparência era disfarçada todo o período da gravidez,
assim neste período nenhum dos filhos perguntaria sobre o que estava
acontecendo, já que era um fato vergonhoso tocar neste assunto, ainda mais com
um filho.
Luciana continua relatando sobre o ambiente em que foi
formada, dentro de sua observação ela pergunta para a mãe como surgem as
crianças? E a mãe responde que o telhado da casa abria-se, e assim Deus fazia
com que a criança descesse até à cama da mãe. Muito curiosa Luciana percebe que
a mãe começa a se sentir mal, e esta alerta a filha a ficar de olho no telhado
para que esta não perca a chegada de seu irmãozinho enviado por Deus direto do
céu mas que passaria pelo telhado do quarto.
Luciana diz que ficou todo o tempo olhando para o telhado
atenta para ver a chegada do irmão, vale lembrar que as crianças tem muita
credibilidade nos pais, ainda mais nos dias de Luciana. Ela fala que ficou
decepcionada por não perceber que seu irmão chegou e ela não viu o telhado se
abrindo, apesar de ficar atenta a ele.
Assim foram nascendo os outros seis irmãos. Ela descreve a
mãe como uma pessoa defensora e construtora de tabus. Diz que quando entrou na
pré-adolescência, não sabia nada sobre o desenvolvimento hormonal, responsável
pelo crescimento dos seios e quadris nas meninas, e crescimento de barba, pelos
e mudança na voz dos meninos. Como era incentivada a usar roupas sem formas,
assim como a mãe, ela conta que sua mãe não percebeu o crescimento dos seios. E
ela internaliza este momento como uma doença: onde primeiro forma o bico do
mamilo, e depois vai sendo desenvolvido o tamanho da mamária.
Ela diz que na primeira faze ela ficava passando sempre a
mão para que aquela “doença” desaparecesse, e como isso não acontecia foi
observada achatando o bico do peito por uma de suas irmãs, que advertiu a mãe
sobre o comportamento estranho que presenciara na irmã. A mãe agora fala para a
filha que o que estava acontecendo era comum a todas a mulheres, sendo que
todas deveriam passar pela mesma fase. Esta segundo Luciana achou que
tranquilizava a filha, porém o efeito foi contrário, pois ela sentia que não queria
aquele tipo de doença, já que o internalizara assim.O pior segundo ela,é ver
que um era maior que o outro, e era isto que a considerava certo de que havia
algo de errado, ‘tinha que ser aquilo uma doença’.
Quando chegou o período menstrual, ao perceber o sangue e a
ausência de ferimento, fica espantada e conta para a mãe que não era mais
virgem, pois tinha perdido a posição de virgem, e a mãe considera como verdade.
Só depois de um tempo ao conversarem é que a mãe coloca que aquilo não era
perder a virgindade, mas apenas um período onde o sangramento iria se
apresentar todos os meses.
Outro momento foi aos 15 anos quando iniciou um namoro com
um rapaz, ela não sabia o que era beijos, mas mesmo assim se comprometera com
ele de se enamorarem. Ao saber do acontecido a mãe ameaça a filha, ela diz que
sempre as ameaças da mãe foram todo o tempo desde a infância, elas eram tão
violentas que os filhos acreditavam que a mãe teria corajem de matar qualquer
um deles como ela falara sempre em suas palavras. A privada da casa era fora no
quintal era lá que toda a família fazia ali as necessidades fisiológicas, era
um lugar cercado e coberto por palhas de coco, um buraco em média com dois
metros de profundidade e tapado com tábuas, sendo que bem no meio ficava um espaço
em aberto para ali serem jogados os detritos.
Luciana diz que desde cedo quis ser mãe, porém ela queria
ser mãe de uma menina, e quando questionada como se deu o casamento com o
marido, ela diz que foi a mãe que arranjou tudo, e isso aconteceu também com
suas irmãs.Casou-se no civil e na igreja e depois houve a festa. Ao terminar a
festa ela é conduzida para a casa onde a mãe lhe diz ser necessário que fique
ainda oito dias até que possa ir para a casa onde já está o noivo. Como o
casamento foi arranjado, o rapaz aceita a proposta da sogra, porém ao saber que
a noiva sofria maus tratos da mãe, é importante dizer que isto só aconteceu
neste período, pois este era o costume da tradição segundo à mãe. O noivo no
terceiro dia, faz a proposta para ela de que vai respeitar o restante dos
demais dias até que este possa desposá-la, mas que vá para a casa com ele, para
não sofrer mais.
Ela concorda, e vai para sua vida de casada, porém a forma
como foi desposada é tão intrigante quanto o que já foi descrito até aqui. O
noivo inicia o processo, com abraços e beijos, e percebe que a relação foi
aquecida, assim diz que vai ao banheiro, e quando sai de lá, sai enrolado em
uma toalha, ela achou tudo isso estranho, ela conta, mas o mais estranho foi
quando este tira a toalha e ela vê a genitália dele, ela nunca vira como era, e
diz ter ficado tão assustada que encontra um espeto e o ameaça caso queira se
aproximar.
Ele, o noivo foi muito paciente e ficou ali enrolado na
toalha e de longe várias horas tentando acalmá-la. Quando isto ocorre, ela
concorda que este conclua o ato, porém diz que ao rompimento do hímen, foi
necessário o uso de remédios para poder sarar. Também conta que até ao
nascimento do primeiro filho planejou sair daquela relação, pois não sentia prazer
e nenhum sentimento por aquela pessoa, que apesar de tudo tinha paciência com
ela. A razão de não ter para onde ir foi o que a manteve naquele
relacionamento.
Neste contexto Luciana foi criada, depois de ser mãe pela
quarta vez ela diz que alguns anos depois começou a perceber alguns sintomas
estranhos em seu seio, porém ela negou este sentimento, o tempo foi passando e
os sintomas foram ficando cada vez mais intenso, ela viu que não era normal
aquelas reações do corpo, porém ir ao médico e mostrar seu seio para ele era
inconcebível.
No entanto, ela diz que veio a furo a dor que sentia e só
então foi ao médico. Ao este realizar os exames lhe disse ser um câncer, e num
estado muito avançado. Logo Luciana foi conduzida para uma cirurgia para a
retirada do tumor e na sequencia quimioterapia e radioterapia. Que segundo ela
a conduziu para o conhecimento de mais um câncer no intestino.Em fim, Luciana
disse que isto a levou a pesar 80 quilos sendo ela uma senhora de 1m e 40cm de
altura. Diz ela que teve que desconstruir muita coisa em sua vida para poder
sobreviver.
Como Luciana, há outras mulheres, cada uma com uma formação
sócio-histórica, cada uma com uma formação de personalidade, porém o que há em
comum nestas mulheres? Pode-se dizer que o câncer. A doença Psicossomática, as
fugas de cada uma delas diante dos obstáculos vividos. Percebe-se que a frase
de Marco Silva é real, “o indivíduo faz do corpo o palco para a expressão de
sua angústia”. (HISADA, apud, SILVA, 2001,p.8).
Considerações Finais
Freud, apesar de não fazer uso do termo Psicossomático, ele
deixou um grande legado para a Psicologia em relação à sua explicação sobre a
transposição de um conflito psíquico, nisto ele tentou resolver e entender a
problemática, assim apresentou como sintomas somáticos, motores e sensitivos.
Cerchiari (2010) realizou uma pesquisa em sua dissertação de
mestrado, o que muito contribuiu para observação entre o estudo de câncer de
mama. O resultado demonstrou que as mulheres pesquisadas em sua maioria tinham
dificuldades de expressar os seus sentimentos às pessoas, e que há em parte
delas há pensamentos relacionados ao pensamento psicótico.
Apesar do pouco tempo de observação com as mulheres com
câncer que se reúnem através de um projeto de uma assistente social de um dos
hospitais de Sinop, é claro de ver que há alguns pontos parecidos como os
apresentados pela pesquisa de mestrado citada por Cerchiari (2010). Assim,
voltamos a afirmar que o sentimento de self do indivíduo é construído desde sua
formação, e este dependendo de como foi internalizado pode levar o sujeito a
sofrer doenças das mais variadas formas, conforme sua somatização.
Sobre os Autores:
Irenilde Silva Bizzotto - Acadêmica do Curso de Psicologia
da Universidade de Cuiabá/Campus Sinop – MT – Brasil irebizoto@hotmail.com
Paulo César Ribeiro Martins - Doutor em Psicologia pela PUC
de Campinas – SP, Professor do curso de Psicologia da Universidade de
Cuiabá/Campus Sinop – MT – Brasil.