Um professor universitário na área da educação disse uma
frase curta que pode nos fazer refletir muito: "A possibilidade de buscar qualquer
informação no Google acabou com a dúvida."
Realmente, conviver com a dúvida tem sido cada vez mais
difícil. Quanto mais se amplia o leque de escolhas em qualquer atividade da
vida, menos dúvidas queremos ter. Queremos fazer a escolha certa, para a qual
não restaria dúvida alguma. Não mais nos contentamos com a melhor escolha
possível ou com uma escolha suficientemente boa. Difícil, senão impossível,
viver dessa maneira, não é verdade?
Esse estilo de viver complica bastante a escolha do curso
universitário, tarefa na qual muitos jovens que frequentam o ensino médio estão
implicados. Criamos uma série de mitos em torno da escolha da profissão que os
jovens devem fazer. "É uma escolha muito séria para ser feita nessa
idade" ou "Eles não têm maturidade para escolher o que farão no resto
da vida" são frases que expressam algumas de nossas ideias a esse
respeito.
Esquecemos que nós fizemos tal escolha com essa mesma idade?
E parece que não foi uma tarefa tão complicada como temos tentado fazer com que
seja na atualidade. Será porque as escolhas eram mais restritas, será que
porque não tínhamos tanto compromisso com o êxito, com a certeza? Como as
escolhas eram feitas?
Muitas escolhas profissionais foram herdadas. Conhecemos a
tradição de os filhos continuarem o trabalho dos pais. Conhecemos também
pessoas que fizeram escolhas por oposição aos pais. Para muitos, a escolha de
herança positiva ou negativa dos pais deu certo; para outros, não deu. Mas
seria diferente se fosse outro o critério usado?
Outras escolhas eram feitas com base em razões subjetivas.
Uma jornalista me disse que desde criança quis fazer jornalismo, talvez por
influência paterna. Não, o pai dela não era jornalista e sim leitor voraz de
jornal. Isso pode apontar para escolhas feitas por influências inconscientes
para as quais encontramos razões objetivas mais tarde.
De qualquer maneira, a família do jovem era a maior fonte de
influências, para o bem ou para o mal, na hora de tal decisão. Hoje, a escola
influencia mais do que a família. É que, pouco a pouco, a família passou a
entender que deveria dar mais liberdade aos filhos também na hora de ele fazer
a escolha do vestibular. Mas, para que o jovem pudesse desfrutar de tal
"liberdade", ele precisaria de um apoio. E quem daria tal apoio?
A escola, é claro. Difícil, hoje, encontrar uma instituição
escolar que não ofereça um trabalho de orientação profissional. E há ofertas
para todo o tipo de gosto ou anseio. Aliás, tal trabalho passou a ser mais um
dos itens que os pais consideram na hora de escolher a escola para o filho.
Boa parte desses trabalhos parte de um princípio: o de que a
oferta de informações, de mercado ou de conhecimentos técnicos ao alunado tem o
potencial de resolver a questão da angústia do jovem no momento da escolha. Os
altos índices de desistência e de troca de curso ainda no primeiro ano da
universidade, no entanto, contradizem tal conceito.
Talvez seja necessário que famílias e escolas revejam a
parte que lhes cabe nesse processo. Aos profissionais que se interessam pelo
tema, indico o livro de Deborah Bulbarelli Valentini: "Orientação
Vocacional: O que as Escolas Têm a Ver com Isso?".
Rosely Sayão,
psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades
vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia
dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Cotidiano"
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