Mil vezes ser filho de intelectuais ricos do que
ter pais pobres e ignorantes. Nutrição inadequada, infecções de repetição e
indigência cultural comprometem o desenvolvimento do cérebro da criança.
Vamos à pobreza.
O cérebro é o órgão que mais consome energia. No
recém-nascido, 87% das calorias ingeridas são consumidas por ele. Esse número
cai para 44% aos cinco anos; 34% aos dez; 23% nos homens e 27% nas mulheres
adultas.
As infecções parasitárias interferem no equilíbrio
energético, porque prejudicam a absorção de nutrientes e obrigam o organismo a
investir energia na reparação dos tecidos lesados e na mobilização do sistema
imunológico, para localizar e atacar os germes invasores.
As diarreias na infância têm custo energético
especialmente elevado. Antes de tudo, por causa da alta prevalência: estão
entre as duas principais causas de óbitos em menores de cinco anos; depois,
porque dificultam a absorção de nutrientes.
Quadros diarreicos de repetição durante os
primeiros cinco anos de vida podem privar o cérebro das calorias necessárias
para o desenvolvimento pleno e comprometer para sempre o quociente intelectual
(QI).
Diversos estudos demonstraram que infecções
parasitárias e quociente intelectual trilham caminhos opostos. Um deles,
realizado no Brasil pelo grupo de Jardim-Botelho, mostrou que crianças em idade
escolar com ascaridíase apresentam performance mais medíocre nos testes de
capacidade cognitiva. Naquelas parasitadas por mais de um verme intestinal os
resultados são piores ainda.
A hipótese de que infecções parasitárias
prejudicariam as faculdades intelectuais explica por que a média do QI aumenta
rapidamente quando um país se desenvolve (efeito Flynn), por que o QI é mais
alto nas regiões em que o inverno é mais frio (menos parasitoses) e por que nos
países pobres os valores médios do QI são mais baixos.
Agora, à ignorância.
Aos três anos de idade, o cérebro da criança
atingiu 80% das dimensões do adulto. Nessa fase, já existem 1.000 trilhões de
conexões entre os neurônios (sinapses), aparato essencial para que o
desenvolvimento intelectual aconteça em sua plenitude.
Dos 18 meses aos quatro anos de idade, a maturação
do córtex pré-frontal acontece com velocidade máxima. Essa área, que coordena
linguagem, resolução de problemas, comunicação, interações sociais e
autocontrole, funções de altíssima complexidade, depende de estímulos cognitivos
múltiplos e variados, para formar novas sinapses e reforçar a arquitetura das
já existentes.
Enquanto conversam, brincam, contam e leem
histórias para os filhos, os pais os ajudam a construir as conexões necessárias
para o pensamento bem articulado.
O estresse causado por ambientes domésticos
conturbados interfere com a construção de novas sinapses, deixando falhas
duradouras no cérebro infantil.
Estudos com ressonância magnética funcional mostram
que existem diferenças marcantes entre as crianças mais pobres e as mais ricas,
não apenas no córtex pré-frontal, mas também no hipocampo, área essencial para
a memória e o aprendizado.
Estrutura cuja característica fundamental é a
plasticidade, isto é, a capacidade de formar novas conexões neuronais para suprir
as que se perderam ou nem chegaram a se formar, o cérebro adulto poderá se
recuperar mais tarde.
A reconstrução, no entanto, será um processo
trabalhoso, lento e imperfeito. Alfabetizar pessoas de idade, ensinar-lhes um
novo idioma e a linguagem dos computadores é possível, mas não é tarefa
simples.
Sem minimizar o impacto da escolaridade e sua
influência na formação do cérebro adulto, o papel da família é crucial. Vivam
juntos ou separados, mães e pais que conversam, contam histórias, leem e criam um
ambiente acolhedor promovem no cérebro dos filhos respostas hormonais e
neuronais decisivas para o desenvolvimento pleno.
No Brasil, existem 38% de residências sem
saneamento básico. Quase metade dos bebês nascidos anualmente pertencem à
classe E, que sobrevive com renda familiar abaixo de dois salários mínimos.
Mais de 20% dos partos do SUS são realizados em meninas de dez a 19 anos.
A esse caldo de cultura acrescentamos um sistema
educacional de baixa qualidade.
.
Drauzio Varella é
médico cancerologista. Por 20 anos dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital
do Câncer. Foi um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho
em presídios, ao qual se dedica ainda hoje. É autor do livro "Estação
Carandiru" (Companhia das Letras). Escreve aos sábados, a cada duas
semanas, na versão impressa de "Ilustrada".
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