Resumo: Este artigo foi um estudo de caso em amputado onde visou compreender a
experiência de tendência atualizante em um amputado, bem como descrever essa
experiência numa perspectiva fenomenológica. Parte-se da Teoria Rogeriana de
que todo sujeito tem uma tendência a autoatualização. A construção desse
trabalho deu-se através de um estudo de caso e baseia-se na história de vida do
sujeito pesquisado, onde se busca investigar e descrever sua experiência para
posterior análise no referencial teórico. A Abordagem Centrada na Pessoa de
Carl R. Rogers serviu de base para comprovar a experiência de tendência
atualizante. Utilizou-se livros, artigos e tese para construção do referencial
teórico. Conclui-se que a pesquisa atendeu aos objetivos propostos, visto que a
experiência comprova no sujeito a experiência de tendência atualizante.
1. Introdução
O presente artigo tem
como proposta um estudo caso de um indivíduo amputado, onde ele relatou sua
experiência e disponibilizando-se no compartilhamento de sua experiência para
fins científicos e acadêmicos do trabalho de conclusão de curso da
pesquisadora. Sendo o sujeito de pesquisa um homem de 29 anos no qual está
baseada sua experiência durante e após o processo de retirada de um membro,
paralelamente utilizou-se a relação dessa pesquisa o embasamento da teoria de
Carl Rogers sobre a tendência atualizante, enfatizando a perspectiva
fenomenológica da experiência.
A pesquisa voltou-se
para a ideia de que a imagem corporal do amputado é a imagem de sua própria
recuperação, pois sua motivação tem papel importante e vai além do
enfrentamento da perda do órgão. São limites que vão além para o indivíduo numa
nova perspectiva de uma postura corporal, as dificuldades enfrentadas com
apenas um membro como também dos movimentos limitados.
Em se tratando do
amputado, a compreensão desse trabalho se volta no sentido da experiência
fenomenológica que pode favorecer o desenvolvimento da teoria rogeriana. O
presente artigo tem como objetivo compreender como se faz presentificada à
tendência atualizante em um indivíduo amputado no seu cotidiano.
Pretendeu-se
investigar a experiência sobre a noção de tendência atualizante, bem como
descrever o fenômeno dessa experiência do sujeito da pesquisa, nas suas
atividades cotidianas, dentro de seus limites e possibilidades, finalizando a
pesquisa nessa análise como essas tendências se enquadram como manifestações.
Sendo o homem capaz de evoluir a partir de etapas mais difíceis da vida em novas
perspectivas de experiências.
O método foi à
entrevista da fala livre, como também um diário de bordo para registrar as
percepções da pesquisadora frente às emoções do entrevistado e compreender o
que aconteceu em loco, dessa forma foi possível observar quais sentimentos
estavam ali no momento da entrevista, posicionamentos que emergiram diante de
sua dificuldade.
A coleta dos dados
foi pela análise de conteúdo que consiste em buscar informes que utiliza a
técnica da comunicação, segundo Bardin, 1977 onde está envolvido o campo no
qual envolvem diversas possibilidades de formas em que o indivíduo através de
sua comunicação é possível delinearem estratégias para obter o que se propõe na
entrevista.
Um conjunto de
técnicas de análise das comunicações, visando obter, por procedimento,
sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores
(qualitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às
condições de produção/recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens. (BARDIN,
1977 p. 42).
O encontro foi apenas
um único e foi na instituição de ensino da Faculdade Leão Sampaio com dia e
horário de antecipação e aconteceu dia 09 de agosto de 2012 as 15h00minhs,
houve uma receptividade positiva pelo entrevistado que demonstrou estar passivo
diante do que lhe fora explicado o que seria a pesquisa. A duração foi em média
40 minutos e utilizou-se instrumento de áudio para a gravação o que também foi
explicado que seria utilizado o conteúdo de sua entrevista para fins acadêmicos
de científicos. Antes mesmo de entrevistá-lo foi feito a leitura do termo de
consentimento e esclarecimento, posteriormente ele concordou e assinou o termo,
ficando uma cópia com o mesmo.
Buscou-se fazer uma
coleta de dados do entrevistado para dar subsídios de articulação com a teoria.
A ferramenta utilizadana proposta de entrevista foi entrevista livre, pois
possibilita dar suporte para que haja a manifestação espontânea, buscando assim
um padrão de expressões motivado pelo próprio indivíduo. Um dos aspectos
verificados e considerados relevantes para a pesquisadora foi à emoção do
entrevistado na sua expressividade corporal, emocional e desprendimento de sua
condição. Essa condição só foi possível perceber em loco, omodus operandifoi
base para subsidiar a pesquisa.
Através da fala do
indivíduo foi elencado, o método de análise de conteúdo em categorias como:
Família, trabalho, vida pessoal, processo do acidente, processo cirúrgico e
pós-cirúrgico, amputação, apoio psicológico, atividades cotidianas e um retorno
em relembrar sua trajetória numa fase de adaptação. Em cada uma dessas
categorias pode-se perceber que as relações que o entrevistado expressava sua
motivação à vida, contudo todas as afirmações ele transmitiu foi percebido
veracidade e pertinência na sua fala.
2. A Condição do Processo de Doença
numa Perspectiva Fenomenológica Existencial
No campo
fenomenológico e existencial, o homem é um ser de possibilidades capaz de
reproduzir comportamentos de acordo com representações vivenciadas. Para
Heidegger apud Tenório (2003), essa relação torna-se ambígua e de interação,
uma vez que não há como separar, ou seja, o homem e o mundo são condição para
que ocorra algo que está ai numa troca de afinidades entre o meio e o ser, onde
os fatores que emergem da subjetividade estão intimamente ligados nesse
contexto existencial.
Já na relação da
essência do homem para Tenório (2003) haverá sempre uma condição de
angustiar-se, sofrimento e essas particularidades são intrínsecos ao indivíduo.
Tão somente importante essa diversidade humana está para a experiência que só o
homem pode senti-la, cabendo assim sua total responsabilidade de escolhas.
Essas tarefas, cujas
realizações e possibilidades de fracasso definem o sentido de sua própria
existência, são a razão de sua profunda angústia. O homem consciente de sua
própria humanidade se angustia diante de sua liberdade e responsabilidade;
diante do nada (morte) e de sua inalienável singularidade e solidão, ao
perceber que sua existência de estar no mundo, além da finita, é vivida de um
modo particularmente seu, nunca igual à experiência de qualquer outra pessoa. (TENÓRIO,
(2003) p. 35).
A condição
fenomenológica da psicopatologia que se concebe é de que o homem é um ser
multifacetado e inserido num mundo particular de possibilidades consciente e
responsável pelos seus atos, nesse contexto, Tenório, (2003) infere que a
condição de desenvolver a psicopatologia se dar pela vivência do sofrimento
onde o indivíduo se sente vitima, ou seja, um cerceamento existencial
momentânea, mas que essa liberdade ameaçada por meio de uma insatisfação em
circunstâncias que acometeram seu funcionamento pleno de estar bem.
Poderá ainda ocorrer,
segundo Tenório, (2003)uma desorganização num aspecto existente entre o
indivíduo e o campo, gerando assim uma tensão no organismo, com isso, uma nova
etapa de enfrentar as adversidades podem funcionar como motivação fundamental
em seu desenvolvimento existencial.
A relação do homem
com a temporalidade segundo Tenório (2003) apud Romero (1997) está tão somente
vinculada a características como condição da existência humana, embora ele
perceba e tenha essa consciência que é um ser finito e temporal, ou seja, é
umser-para-a-morte.
O campo
fenomenológico da experiência na perspectiva rogeriana afirma que: O indivíduo
se volta sempre para a experiência para se aproximar da verdade e que o
processo possa ser descoberto na experiência do outro. Compreende-se que o
autor fala da experiência como única e só um indivíduo pode senti-la não sendo
autorizada a mais ninguém (Rogers, 1997 p. 29). M, sujeito
da pesquisa.
M: Antes eu
trabalhava como pedreiro, né, mais depois que amputou a perna fiquei fazendo só
os serviços de casa mesmo, mas ainda faço uns serviçinhos que fazia antes. Tudo
que eu quero fazer, eu faço! Não faço do mesmo jeito, mas faço! Devagarzinho,
com paciência, com ajuda de alguém, eu faço! Meu trabalho era de pedreiro, mas
era pesado, um trabalho pesado. Mas o cara tentando assim... Em andaime, essas
coisas eu não trabalho mais não! Mas no chão, eu faço todo trabalho que fazia
antes. Hoje ainda dirijo carro, faço tudo, ando de moto, que não era pra eu
andar, mas eu ando! Vou levando devagarzinho.
Para Rogers, (1961) o
processo de tornar-se pessoa significa adentrar na experiência do outro, ou
seja, a aceitação incondicional de si está em aceitar aspectos do outro na
maneira de sentir ou não, silenciosa ou abertamente, e assim a condição de
aceitar-se verdadeiramente como ser. Essa condição estar permeada na condição
existencial verdadeira numa postura de aceitação das possibilidades do outro
num reconhecimento do indivíduo e nele uma evolução pessoal e desenvolvimento
pleno.
O problema enfrentado
com a amputação são limites que vão além para o indivíduo, pois são
dificuldades para serem enfrentados com apenas um membro. O enfrentamento dessa
dificuldade é perpassado na visão de Rogers apud Virgínia, (2007) como um
recurso que utilizado positivamente a natureza humana pode ser adaptada a
circunstâncias adversas, bastando para sua experiência ao movimento intrínseca
norteador da capacidade de significar em evolução constante.
O padrão cultural em
muitas sociedades que se tem da pessoa humana em relação as suas atribuições é
de plena atividade de funções, mas a proposta é que essa condição não impede o
indivíduo como agente ativo e transformador de sua vida. Rogers (1997) faz
referência à pessoa humana como agente ativo e contínuo em seu processo,
notadamente o autor citado buscou em sua experiência com clientes em muitos
campos de saberes. Uma das fontes de suas pesquisas era compreender nos
comportamentos considerados desviantes, isso chamou atenção para essa
manifestação de experiência, então buscou as escolas. Com isso chamou sua
atenção e pode dar mais atenção para essa manifestação de experiência.
“A imagem do corpo
estrutura-se em nossa mente, no contato do indivíduo consigomesmo e com o mundo
que o rodeia”. Sob o primado do inconsciente, entram em sua formação
contribuições anatômicas, fisiológicas, neurológicas,
sociológicas,etc”.(CAPISANO, 2010 p. 255).
M é o sujeito da pesquisa, sendo do sexo masculino, altura
mediana, 29 anos. Sofreu um acidente de moto há mais de três anos e em
consequência disso, teve sua perna direita amputada. Ele se descrevendo no
relato da experiência.
Meu nome é M, tenho
29 anos, sofri um acidente de moto amputei uma perna. Minha vida era normal e
depois poucos dias, fiquei assim meio preocupado porque perdi a perna, mas me
adaptei. Hoje levo uma vida normal, NE. Minha vida era trabalhar, brincava e o
acidente foi... Eu bati num carro ai cai na contramão, um ônibus vinha e passou
por cima de mim. Teve que amputar a perna.
Compreende-se que a
imagem do corpo é uma referência como resultado final da expressividade do
sujeito, uma vez que a relação do corpo em contato com o ambiente constitui uma
importante relação dos mecanismos e movimentos do indivíduo com a percepção de
sua imagem. Grifo meu.
Percebe-se a fala do
sujeito em se descrever diante de sua experiência atual.
M. Hoje levo uma vida
normal, né. Minha vida era trabalhar, brincava e o acidente foi... Eu bati num
carro aí cai na contramão, um ônibus vinha e passou por cima de mim. Teve que
amputar a perna.
Essa relação que o
autor referido constitui é um contexto diferenciado no sujeito com sua imagem
corporal. Capisano, (2010) infere que a relação ao desenvolvimento da imagem
corporal como sendo imagens que são guardadas desde a infância e acompanha o
indivíduo a vida toda. O autor relata ainda um caso de um desenho feito de um
amputado, onde na sua fase adulta e já amputado fez seu desenho como sendo na
infância, permanecendo no desenho sua imagem de pequeno e com todos os seus
membros. Percebe-se que existe um cerceamento de liberdade, pois limita as
possibilidades, no entanto não há alteração de sua condição de percepção ou
quaisquer outras funções nos órgãos de sentido, para o autor, o corpo é a
figuração em nossa mente.
3. A Tendência Atualizante
No desenvolvimento
psicológico do ser humano a realidade em que vivencia há destaque nos
significados que se dar. Compreende-se que o indivíduo se apropria das
significações e consegue imprimir sentimentos internos e consegue uma forma de
elaboração na sua experiência. Segundo Castelo Branco (2008), a noção de
Tendência Atualizante é necessária para definir se o organismo está sob o
movimento que se enquadra como vivo ou morto, na presença ou na ausência desse
processo direcional.
O autor aponta a
noção de Tendência Formativa, e diz respeito à
própria vida, atuando em todos os
elementos do universo da terra, ou seja, tudo está relacionado ao organismo em
todas as etapas do ciclo da vida. Nesse contexto, o referido autor infere que é
possível manter posicionamentos como reações positivas frente às dificuldades,
aperfeiçoar metas e ir além de suas possibilidades.
M: Eu reagi assim...
Fiquei doido na hora, chorando pedindo pra morrer sem querer que cortassem
minha perna. Ai depois que cortou que vi que não tinha jeito, ai pensei pra
frente, pensei em viver a vida. Eu tinha uma filha no tempo, pensei em viver
pra criar minha filha. Depois eu voltei pra casa, voltei minha vida normal.
Hoje faço tudo que fazia antes. É ando de carro, ando de moto, de carroça de
cavalo de tudo que fazia antes eu faço hoje, não é do mesmo jeito, mas faço.
Tudo, a pessoa querendo, faz. Tendo força de vontade faço normal mesmo. Quem me
conhece vê o que eu faço.
Compreende-se que o
autor nos aponta como essa condição do ser humano de se re-significar a todo o
momento. Mediante essa postura o indivíduo pode dar significado para viver de
acordo com que lhe é peculiar, ele transforma uma realidade adversa a sua
escolha significando positivamente. Tendência à auto-realização que Rogers
(1997) faz aporte está na capacidade intrínseca humana em que o indivíduo tem
como explorar-se.
Ainda no pensamento
do autor existe uma habilidade facilitadora de expressão em que o indivíduo
demonstre sua experiência, podendo ser percebida na capacidade formativa que o
homem tem de interagir, desenvolver em si e com o mundo externo, ele sofre uma
transformação para internalizar sua capacidade de se configurar novos
pressupostos.
Diante da mudança e
do estranhamento segundo Rogers (1997) de um novo paradigma, o sujeito é
impedido a assimilar o que acaba de acontecer e apropria-se a novidade em sua
nova característica de identidade, assim, o que pode emergir não
necessariamente será algo ruim ou doloroso. A limitação pode ser transformada e
assimilada de maneira criativa e útil, o indivíduo imprime um significado
àquilo que lhe é peculiar e isso permite conviver melhor e adaptado.
M: Como foi? Rapaz
(RISO) não foi muito boa não. Eu pensei: como é que eu ia fazer o que fazia
antes... Fiquei pensando o que eu fazia porque eu gostava de correr vaquejada e
não ia poder mais. Mas depois fui botando na cabeça que a vida era assim mesmo
e deu certo até hoje.
Nesse contexto
percebe-se que em toda construção humana há uma força que permite o indivíduo
buscar suas realizações, ele pode utilizar e explorar sua capacidade de buscar
novas representações e motivações para sua vida, para isso, faz-se necessária
uma decisão própria para a ação. Moreira apud Roger(2007 p. 184)
“[...]conceitua a tendência atualizante como intrínseca e inerente à pessoa, ao
considerar o homem como seu próprio arquiteto”.
O acompanhamento
psicológico como auxílio no processo de adaptação lhe foi interrogado.
M: Tive não, foi só
eu mesmo. Eu e os amigos que chegavam pra visitar, né! Eu conversando na
brincadeira e tudo fui esquecendo, pronto. Hoje nem me lembro mais que perdi a
perna e tudo. Não ligo mais não pra isso não. Faço tudo que fazia antes eu faço
hoje! Ai ficou normal à vida de novo! Levo uma vida normal, faço tudo que fazia
antes!
Tendo essa decisão às
condições para tornar possível outras aprendizagens, o indivíduo traz consigo o
desejo, ao mesmo tempo encontrando espaço para interagir com seu meio externo,
sua capacidade de se permitir.Conceito de tendência atualizante que Rogers
(1976) fala está na espontaneidade inerente ao indivíduo e sua teoria é
conceituada na tendência à atualização na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP).
Nesse contexto, ainda segundo o autor, a capacidade de evolução do indivíduo
visa ampliar seus limites e exercer suas potencialidades organismicamente
contando com isso o desenvolvimento a essa tendência inata.
A apropriação do
indivíduo acerca da mudança e a psicoterapia como possibilidade deacolhimento e
auxílio “Se posso proporcionar um certo tipo de relação, a outra
pessoadescobrirá dentro de si a capacidade de utilizar esta relação para
crescer, então a mudança e o desenvolvimento ocorrerão”. (ROGERS, 1961 p. 39).
Percebe-se que o autor afirma que o indivíduo tem relativamente condições de
uma relação terapêutica para angariar confiança e desenvolver hipóteses nessa
relação.
4. O Organismo como Noção de Tendência
Atualizante
Em se tratando de
organismo, compreende-se que é todo o processo que envolve o homem para agir,
contemplando tudo ao seu redor, ou seja, organismicamente o homem é
influenciado por uma força interna. No pensamento de Rogers apud Castelo Branco
(2010 p. 42) experiência é tudo aquilo que foi adquirido como uma prova. É a significação
de algo quefoi vivenciado. “todo organismo é movido por uma
tendência para se desenvolver todas as suas potencialidades e para
desenvolvê-las de maneira a favorecer sua conservação e seuenriquecimento.” (p. 159).
Percebe-se que, o
sujeito é influência da sua experiência e está intimamente ligado ao organismo
na elaboração de suas manifestações peculiares, tornando-o capaz de tomar de
decisões mesmo quando em estado de vulnerabilidade diante de algo que lhe
causou impacto sobre suas possibilidades, mesmo assim ele é capaz de explorar
suas potencialidades e lidar numa nova perspectiva de vida.
Indagado sobre a
primeira experiência que se colocou de pé, relata a experiência.
M: Ah! A primeira vez
foi ruim, ficava... Qualquer coisinha tombava pra cair, mas fui me adaptando
aos poucos. Os primeiros dias andei de cadeira de roda, mas depois que botei o
pé no chão e peguei as muletas, pronto ficou melhorando foi um esforço mesmo a
cada dia foi aprendendo, aprendendo até chegar onde cheguei.
Quando ocorre a
relação entre duas pessoas existe a troca de ideias, fatos que permitem esses
acontecimentos, tornando essa relação algo que está na lógica do impacto, ou
seja, a experiência que lhe confronta a sua realidade. Castelo Branco (2010)
relata que na tendência atualizante, o indivíduo volta-se a sua experiência e
percebe que essa experiência está demarcada em dois momentos antes e após a
experiência da tendência atualizante, surgindo assim uma continuidade para se
fixar no que se refere a sentir algo.
Diante das
dificuldades associadas pela mudança, o sujeito é convidado a pensar em como
tem lidado com a limitação imposta, mas que diante de tudo o indivíduo é
motivado a explorar sua vida e ampliar sua vida numa perspectiva de
desenvolver. É-lhe perguntado sobre obstáculos a serem vencidos...
M: Existe não
dificuldade não, eu tenho força de vontade pra ultrapassar, faço tudo. Se o
carro der o prego eu ajeito não peço pra ninguém, eu mesmo faço! Não ligo não,
pra isso não, se passar o dia, a noite se for possível, mas eu mesmo faço meus
serviços e não peço a ninguém. Tudo que eu faço é eu mesmo, não gosto de tá
pedindo nada. Se for pra dá de comer a um bichinho é eu mesmo, se for botar o
bicho em cima do carro pra levar pro canto é eu, eu não chamo ninguém, tudo eu
faço só! Muito difícil eu tá com uma pessoa do meu lado me ajudando.
Diante da fala do
entrevistado, percebe-se que ele trás a ideia de responsabilidade e autonomia,
a tendência atualizante. Castelo Branco (2010) relata com relação à dor que o
individuo se volta na experiência de dor para dar sentido a ela, somente
assimila essa condição elaborando uma nova perspectiva de mudança. O indivíduo
faz um recorte nessa experiência e percebe ao tornar isso consciente consigo e
com o mundo, numorganismo vivo que interage frente ao seu contexto.
Na experiência de
tendência atualizante, o indivíduo é capaz de produzir e trazer para o
cotidiano a experiência.
M: Todos os dias, eu
não sei como explicar, porque todo dia é diferente, todo dia acontece uma coisa
diferente, você tem que passar aquele obstáculo, mas graças a Deus tá dando
certo, tudo que eu vou fazer eu consigo! E aí só penso assim que as coisas vão
dá certo.
Ainda segundo Castelo
Branco (2010) relata, a experiência do indivíduo é aquilo de mais significativo
e peculiar, pois ele adentra no que é mais singular o que é analisável no
seumodus operandi somente assim ele terá ferramentas para significar e dar
sentido a sua experiência, no contexto de seu modus vivendi. Em se falando de
como essa experiência torna-se presente percebe-se que se trata de voltar-se
para o passado e se focar no futuro.M numa perspectiva de reviver novamente a
cena e sua experiência do acidente: Na fala do sujeito, a pesquisadora pôde
captar diante da experiência vivenciada novamente uma nova representação do que
foi sofrido, e percebeu-se nele uma busca de apoio, ele se colocava, mas num
mesmo instante buscava seu olhar para a pesquisadora, no apoio e assim o fez-se
nas vezes que precisou e fluiu normalmente.
M: Todo dia passa a
mesma história na cabeça da pessoa, todo dia a pessoa lembra como era antes,
depois... Mas o que interessa é você lembrar, lembrou. É uma lembrança
passageira e esquecer e pronto. Porque se a pessoa for botar na cabeça ai a
gente num vai pra frente não! Tem que ir lembrando só os momentos bons e os
momentos ruins a pessoa esquece e assim vai... É isso que eu faço.
A apreciação
organísmica, um meio mais digno e completo do que a confiança de seu intelecto
e suas direções abstratas que Rogers (1985), diz é que uma pessoa em
funcionamento pleno é o próprio organismo em seu funcionamento. Assim, a
limitação não existe e se transforma numa nova condição existencial que leva o
indivíduo a experenciar em toda sua potencialidade. A experiência
fenomenológica é a relação que o indivíduo experiencia novamente toda sua
história, é um recorte dessa historicidade vivenciada novamente e nela é
lembrada toda dor, sofrimento e dar para perceber que ali está evidenciada a
confirmação da experiência de tendência a atualização do sujeito da pesquisa,
essa proposta foi confirmada.
Descrevendo a
experiência fenomenológica:
M: A força! Rapaz eu
não sei explicar não, porque na hora mesmo do meu acidente eu pensei que mais
nunca eu... Quando falaram que iam cortar minha perna eu pedia para morrer, mas
eu não sei onde arrumei força não! Devagarzinho e tudo vendo... Vendo como
era... Minha mãe também sofreu, sofreu muito, minha família, ai eu vendo o
sofrimento deles fui criando força, reagindo... Foi através deles que eu
consegui força pra voltar a fazer o que eu fazia antes. Se não fossem eles, eu
não tinha feito isso não.
Avaliando uma espécie
de retrospectiva de sua vida com base na experiência que faz sentido agora,
isso permite o indivíduo se voltar e se confrontar com seu contexto vivido.
Castelo Branco (2008) faz entender como os órgãos de sentido também são
importantes, tais como a percepção, memória, emoção foi e é diferente na
vivência e que agora representa para essa pessoa, como ele se vê nesse novo
contexto. Isso se faz, segundo o referido autor na perspectiva de que o
indivíduo dar sentido à vivência contemporânea, permitindo assim uma relação
com seu futuro.
M, se descrevendo
organismicamente. O indivíduo se dar conta de sua assimilação e do
desenvolvimento de suas potencialidades. Nesse contexto, a percepção de M em relação ao que as pessoas falam dele e o
percebem mostra como ele acha que as pessoas o percebem.
M: Esse “M” faz
coisas com uma perna que gente com duas pernas não faz. Porqueeu ando a cavalo
que tem gente que tem duas pernas que não faz, que quando me vê andando
pergunta se to ficando louco não, eu anda antes, por que não ando depois? Ando
de moto, que o povo me vê andando (riso) eu to errado andar só com uma perna de
moto tá errado! Sem ter o pé no freio nem nada! Só no tempo mesmo, de carro
dirijo carro, não tenho inveja de pessoas que tem duas pernas não! Dirijo
normal mesmo. Ai o que eu faço, tem certas pessoas que não faz não, nem com as
duas pernas. Ai isso é eu, eu tento fazer cada vez mais.
A ideia do eu real confirma que o indivíduo percebe-se
genuinamente em si, na sua própria experiência, enquanto oeu ideal é quando há
no indivíduo uma mudança na sua percepção, Castelo Branco (2010). Ele não está
voltado para si, ou seja, numa perspectiva de que outras pessoas esperam dele e
existe uma relação de atender a expectativa do que querem desse indivíduo. No
que se refere a organismo, Castelo Branco (2008) nos faz entender que a
experiência é algo para que o indivíduo possa sentir o ato consciente. Faz-se
necessário que ele consiga demarcar seu posicionamento para que elabore e
amplie essa experiência numa compreensão de que o indivíduo se ponha na escolha
de suas decisões.
A noção de
experiência atualizante, segundo Castelo Branco (2010), é que o organismo
sempre tende a funcionar de forma a impulsos básicos, ou seja, o indivíduo
busca através do meio interno ou externo uma nova perspectiva, seja no plano
fisiológico ou psicológico, essa tendência sempre será manifestado na sua
experiência, o indivíduo auto se regula e há uma forma de crescimento a novas
representações que irão surgir ao longo de sua vida. Percebe-se essa tendência
na fala do sujeito que relata:
M: Eu pensava
assim... Eu já passei por coisa pior, essa daí não vai me derrubar não, eu vou
vencer e fui até quando venci. Hoje posso dizer que já venci! Hoje se tirar a
saúde eu ainda o que faço! Vendo o que eu passo mesmo, a pessoa e que tem
certeza do que eu faço ai não tem mais a explicar não... Só quem me conhece
mesmo diz: aquele rapaz faz isso, isso, isso que outra pessoa não faria.
Entende-se que
Castelo Branco (2010) se refere na possibilidade que existe uma interação
(relação) com o meio, ou seja, os fenômenos que se manifestam de um organismo
para outro. A consciência de que se faz é possível na relação uma com as
outras, logo o consciente realiza-se num campo fenomenológico. Castelo Branco
(2008) ainda nos confirma que toda experiência está intrinsecamente relacionada
com outras experiências.
Diante do que o
sujeito da pesquisa expos sua experiência, pode-se concluir que há uma
motivação demonstrada de que as dificuldades enfrentadas são motivadas por uma
determinação própria, e falou-se abertamente sobre o processo que ocorreu a
amputação. As fases que foram vivenciadas foram percebidas mecanismos vivenciais
motivadores de sua representação humana, tais como a emoção de ficar de pé
novamente após a cicatrização do membro. Falar sobre a amputação é fácil, porém
o tempo que isso leva é necessário e prolongado, variando enormemente de cada
subjetividade. Essa produção única que todo ser humano possui demarca sua
trajetória de vida e a aceitação ou não sua nova condição depende dele e
ocorrerá de forma natural.
A vida que o sujeito
teve não mais será igual, mas diante dele percebeu-se uma tendência inata para
a superação e posterior desempenho de sua vida como indivíduo produtivo e capaz
de exercer atividades que possa tornar produtiva sua trajetória.
Outro fator
importante percebido foi à disponibilidade de ser o sujeito da pesquisa, desde
o momento que a pesquisadora o convidou foi receptivo e aberto ao tema, levando
sempre em conta o respeito e o cuidado ético para tratar o assunto com
seriedade e não abrir conteúdos além do que a proposta da pesquisa objeto
principal da existência da tendência atualizante. Positivamente, conclui-se que
fora atingido o objetivo e que a teoria de Rogers sobre a tendência atualizante
se faz presentificada no sujeito da pesquisa.
5. Considerações Finais
Concluindo a pesquisa
pode-se perceber que no contexto apresentado a cerca da experiência de
tendência atualizante abordada na teoria rogeriana, o sujeito entrevistado
correspondeu aos objetivos propostos numa evolução significativa de etapas
vivenciadas durante sua trajetória tanto no contexto pessoal, social, afetivo e
familiar. No seu relato novas perspectivas foram destacadas com relação à
dimensão e construção de condição existencial fenomenológica, ou seja, sua
projeção de enfrentamento diante da amputação não o limitou,
permitindo assim
experienciar etapas difíceis, mas que não impediram sua condição desejante como
ser. Viu-se uma pessoa reproduzir posturas em construir uma história a partir
da experiência traumática em meses de tentativas e uma força propulsora em
repetir e iniciar a cada dia vivido.
À medida que ele entrava
em contato com essa experiência uma nova vivência surgia, percebeu-se uma
projeção na quebra de paradigmas, onde diante da superação de tornar-se atuante
novamente, ou seja, relatando o contexto experiencial houve representação do
antes e depois diante do processo vivido e isso o permitiram novas ferramentas
em lidar com sua adaptação.
Tendo passado por
etapas como ser cadeirante por um tempo e partindo para uma perspectiva
positiva em fazer aquilo que antes fazia e não limitar-se apenas por ser amputado.
O existir na experiência dele foi e é o diferencial em ser capaz de permitir-se
sempre, embora cause dificuldade, mesmo assim se propõe elaborar novas
possibilidades.
Na visão da
pesquisadora houve uma postura mais firme com relação a momentos de confirmar a
teoria rogeriana, nessa condição do ser elaborar diferente frente às
dificuldades surgidas, seus questionamentos em contextos como familiar, pessoal
e social amparou sua experiência de enfrentamento, notadamente ao perceber que
pessoas que amava lhe apoiavam edificaram sua tendência a auto-atualização.
Pode-se inferir que
na fala do entrevistado uma nova capacidade de sintetizar sua reação primeira
foi de desequilíbrio, obviamente diante de uma realidade adversa teve reação de
negar e não aceitação, em seguida reagiu rapidamente em adaptar-se a
recuperação e adequação à vida novamente.
Essa quebra romper
paradigmas as situações adversas no qual foi assimilado pelo entrevistado numa
forma de reconstruir a vida mediante o desafio, respeitando sua condição de
querer vencer, e assim o fez, sem ajuda psicológica numa fase delicada lhe
permitiu avançar para continuar atuando, perfazendo sua trajetória naquilo que
sempre foram escolhas suas. Infere-se que atitudes de elaborar diante de
obstáculos como o processo de amputação, requer um posicionamento muito
peculiar frente à vida e postular saídas emergenciais nesse contexto foram
decisivas para o sujeito.
A perspectiva de
enfrentamento psicológico propicia a autonomia a quem busca, pois é capaz de
tornar essa experiência uma constante, requerendo assim muita capacidade de
mudança na trajetória que continua constante, nele não houve esse
acompanhamento e percebe-se a autonomia intrínseca adquirida.
Diante de tudo que
vivenciou pode-se perceber que existe um ser capaz de dar sentido a
experiências traumáticas numa perspectiva positivista capaz de mudar sua
realidade e continuar avançando, explorando seu potencial existencial a
habilidades como ser ativo. Um momento bastante pertinente que aponta a
pesquisa é quando ele não se intimida diante dos obstáculos mais difíceis, ele
enfrenta mesmo sabendo que sua é condição de atuar não está plena, mesmo assim
se permite experenciar sem ajuda de alguém. Percebe-se uma força impulsionadora
para auto-realização pessoal e somente ele pode dar sentido à manifestação
existencial fenomenológica capaz de projetar-se.
Um destaque
importante da pesquisa que merece contextualizar foi perceber um homem agora
amputado de uma perna e diante disso um desafio de se por de pé novamente, nesse
momento percebeu-se que toda experiência foi válida e a tomada de consciência
edificou seu potencial de auto-atualização.
Espera-se que esse
trabalho, possa ter proposta à ampliação de produção para novos conhecimentos
acerca da subjetividade humana, esse ser estruturante e desencadeador de novas
posturas frente a realidades tão adversas e contribuir para a Psicologia o
desejo de aprofundar o tema. Conclui-se que diante do exposto o homem autor de
sua própria história de vida numa perspectiva estruturante, permitir-se a
momentos específicos de superação e vivências façam diferenças em seu contexto
e permitir vislumbrar possibilidades de transformar, explorar e agir mudando
sua realidade.
Lei ainda ....