Além dos números superlativos de pessoas que atraíram para
as ruas, as passeatas e protestos que desde a semana passada tomam cidades de
todo o Brasil ficaram marcadas por cenas de violência, seja pela forte
repressão policial ou por atos de vandalismo cometidos por grupos isolados
entre manifestantes que eram, em sua maioria, pacíficos.
Episódios como o dos feridos deixados pela forte repressão
da polícia que marcou a manifestação em São Paulo no dia 13 de junho ou as
cenas de guerra registradas nos confrontos em frente à Assembleia Legislativa
do Rio de Janeiro na última segunda-feira chocaram parte da população e foram
destaque na imprensa brasileira e estrangeira.
Especialistas em psicologia, filosofia e ciência política
ouvidos pela BBC Brasil afirmam que episódios de vandalismo em eventos de
grandes proporções são previsíveis, mas que, no lugar de tomar medidas para
prevenir a violência, polícia e outras autoridades acabaram por adotar condutas
que abriram o caminho para a existência de mais confrontos
Oportunismo
“Eventos de massa, seja a entrada e saída de estádios,
grandes shows, o Réveillon no Rio, uma grande passeata ou um bloco (de
carnaval) são oportunidades para ações oportunistas de predação, vandalismo, de
roubo”, afirma a antropóloga e cientista política Jacqueline de Oliveira Muniz,
professora do IUPERJ, da Universidade Cândido Mendes.
“Passeatas e manifestações coletivas produzem um alto grau
de visibilidade política e social, razão pela qual ações vândalas e predatórias
oportunistas podem se dar”, diz.
Na avaliação da professora, a previsibilidade de ações desse
tipo em eventos que reúnem uma grande quantidade de pessoas deveria ter feito
com que não apenas a Polícia Militar, mas outras estruturas de segurança, como
policiais civis, bombeiros e ambulâncias, fossem mobilizados para acompanhar as
manifestações, assim como acontece no Carnaval e no Réveillon do Rio, por
exemplo.
“Essa é a razão pela qual é necessário o aparato de
segurança pública, para garantir e preservar o direito de ir e vir e o direito
de se manifestar de forma pacífica e, ao mesmo tempo, reduzir a oportunidades
de riscos, de acidentes, de incidentes, e mesmo de ações predatórias
localizadas”, diz.
A professora ainda critica o modo como parte das autoridades
e da mídia trataram as manifestações no início.
“Na verdade quem inaugura a ação violenta são os próprios
governos, através das orientações que deram a suas polícias (…) em um primeiro
momento (a atitude) foi de criminalização das manifestações populares e
espontâneas. As falas eram no sentindo de que se tratava de uma grande baderna,
e a sociedade respondeu indo às ruas cada vez mais, repudiando essa leitura”,
diz.
Violência
Claudio Oliveira, professor do Departamento de Filosofia da
Universidade Federal Fluminense (UFF), cita as ideias do pioneiro da
psicanálise, Sigmund Freud, para explicar o comportamento das pessoas durante
eventos em que comparecem grandes massas, como as manifestações.
Segundo ele, em situações de massas, os indivíduos acabam
por tomar atitudes que não teriam se estivessem sozinhos ou em pequenos grupos.
“Há uma espécie de diminuição da pressão das inibições que
constituem a vida social. O indivíduo em uma massa pode assumir um
comportamento violento, ele pode assumir um comportamento que ele não teria em
condições normais. Esta teoria vale tanto para o comportamento da polícia
quanto para o comportamento de alguns grupos que integram a grande massa dos
manifestantes”, diz.
O filósofo, no entanto, afirma que questões sociais podem
fazer com que determinadas pessoas acabem por encontrar nas atitudes violentas
um recurso para expressar sua insatisfação.
“No caso atual, esses fenômenos de violência ocorrem em
geral isolados. A maioria dos manifestantes tem uma atitude muito pacífica,
inclusive gritam palavras de ordem pacifistas. Apesar disso, parece que há
alguns que buscam se manifestar a partir dessa violência. A gente precisa saber
o que esses jovens pensam da própria violência que eles assumem nessas
manifestações”.
Para Oliveira, no caso das recentes manifestações que tomam
as cidades brasileiras, no entanto, estão em jogo também outros aspectos. Em
sua avaliação, a violência com que a polícia reprimiu as primeiras
manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus serviu como uma espécie de
catalisador para que outras pessoas se juntassem ao movimento, expressando
outras insatisfações.
“As manifestações começaram com um objetivo muito
específico, mas se tornaram manifestações onde as pessoas iam para protestar
contra uma quantidade enorme de coisas, com as quais a população brasileira não
está satisfeita”, diz.
Direitos.
Marco Aurélio Máximo Prado, professor do Departamento de
Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que parte dos
episódios de violência nas manifestações recentes podem também ter relação com
o despreparo de polícia e outras autoridades para lidar com o modo como foram
organizadas.
“Obviamente que há um despreparo da polícia para lidar com
essa forma de protesto. São protestos que não tem características organizativas
clássicas, então não têm liderança específica”, diz Prado, para quem a forma
espontânea como foram organizados também faz com que alguns manifestantes
isolados acabem por tomar atitudes violentas.
Para ele, a grande adesão e a pluralidade de bandeiras
presentes nos protestos refletem uma insatisfação maior da população, com
questões que passam, entre outras coisas, pelo modo como os grandes eventos
como a Copa do Mundo estão sendo organizados no Brasil.
“As cidades que são sedes da Copa (das Confederações) estão
vivendo uma certa suspensão dos direitos, do direito de protesto, que é um
direito básico da democracia, e do direito de ir e vir”.
“Há uma certa suspensão de direitos conquistados que está
gerando uma faísca importante. Agora eu considero que esses atos políticos não
são atos de negociações, são atos de rebeldia civil. São um sintoma de que a
constitucionalidade não está funcionando, são um corretivo de um norma que não
está funcionando, que está falha”, diz.
Fonte: BBC Brasil
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