Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.

Carl Rogers

domingo, 30 de junho de 2013

Os Transtornos Mentais e do Comportamento que Afetam a Atividade Laborativa: uma Análise da Relação do Trabalhador com a Previdência Social

Escrito por: Maria Emilia de Melo Boto 
           
Resumo: O presente artigo tem por objetivo realizar uma breve pesquisa sobre os transtornos mentais e do comportamento humano incapacitante para a atividade laborativa. Para isso, utilizaremos a pesquisa básica, exploratória e bibliográfica. Pretendemos apresentar os conceitos teóricos relacionados ao tema da pesquisa situando o transtorno mental como sendo a terceira causa de afastamento do trabalho. Abordaremos a posição da Previdência social diante dos transtornos mentais e os critérios adotados pelo órgão para determinar a existência da psicopatologia, como também, os meios utilizados para afastar o colaborador, observando as diferenças existentes entre os indivíduos. Ainda, o tempo de afastamento ou prazo determinado para favorecer a recuperação do seu equilíbrio psíquico. Pontuando, se os critérios são suficientes para que o colaborador volte a sua função, cargo e atividade totalmente sarado, recuperado e consciente do seu eu e das suas responsabilidades.
1. Breve Histórico da Doença Mental
Os transtornos mentais sempre foram considerados como algo distante da compreensão humana e por esse motivo, os ditos “loucos” por anos foram jogados literalmente em asilos juntamente com outros indivíduos que tinham outras questões que não era a de loucura, mas a de problema social, como: mendigos, alcoolistas, desempregados, vagabundos. Finalmente, surgiu a psiquiatria como a área da medicina para que tratasse as pessoas de uma forma mais digna, por volta do século XVIII, com a revolução burguesa de 1789, quando é inserido no contexto social como um problema social. A nação parisiense com 660 mil habitantes na época tinha cerca de 100.000 mil internados, misturados em situações degradantes, que iam da degradação moral a condições sub-humanas de se viver. Os hospitais se tornaram um local de refúgio e de sequestro para essas pessoas enfermas.
Em 1793 o médico Pinel é o primeiro a ser nomeado para cuidar da enfermaria Bicetrê, juntamente com o médico Tuke, local onde se concentrava a maior parte dos pacientes psiquiátricos da época. A primeira intervenção que realizou foi a de separar as pessoas consideradas sãs do ponto de vista mental das que apresentavam a psicopatologia evidente. Providenciando locais como casas de repouso e asilos. Os casos considerados fora dos parâmetros estabelecidos se tornaram definitivamente como problemas de ordem social e que a justiça e a sociedade deveriam cuidar desses casos. Um dos grandes problemas enfrentados por Pinel foi à falta de pesquisas voltadas para essa área, tendo que começar do zero, por assim dizer. A medicina estava aquém do preparo adequado para lidar com essa situação tão difícil. Pinel concentrou-se em três princípios: “O primeiro princípio preconizava isolar o louco do mundo exterior, rompendo com este foco permanente de influência incontrolada que é a vida social”. O segundo propagava a ordem asilar, com lugares rigorosamente determinados, sem possibilidades de transgressão, e o terceiro, uma relação, de autoridade entre o médico com seus auxiliares e o doente a ser tratado. Estes são os pilares básicos de um idealismo que trata igual e moralmente seus usuários. É preciso, portanto para esses enfermos, estabelecimentos públicos e privados submetidos a regras invariáveis de política interior. Estava, portanto instituída a escolha manicômio/hospitalar para o tratamento mental. Contudo Pinel acreditava na reeducação do doente mental.

Outro médico que contribuiu bastante para a desmistificação das doenças mentais foi Sigmund Freud. A sua forma de ter acesso aos sintomas e a busca de seus significados, ajudou a entender os conteúdos inconscientes.

O surgimento da psicofarmacologia e a difusão durante a segunda guerra mundial foi um marco na evolução dos tratamentos psiquiátricos. Abolindo quase totalmente o uso do eletrochoque. Por esse fato, as permanências nos asilos se tornaram efetivamente uma questão política e social.

2. Os Transtornos Mentais e do Comportamento

Os Transtornos mentais e do comportamento que tem como relação o trabalho, são produtos das situações vividas pelo colaborador em seu ambiente laborativo. Podemos ter como exceção a exposição a agentes químicos e/ou tóxicos, nos atendo a articulação de fatos relativos à produção das atividades e tarefas da função ou cargo que exerce como também a divisão das tarefas, hierarquização, política, clima e cultura organizacional. Nos últimos anos se constata um crescente interesse por questões relacionadas aos vínculos entre Saúde/Doença Mental e Trabalho, por conta de um aumento considerável de pessoas afetadas por transtornos oriundos da relação homem x trabalho.

O crescimento das doenças mentais no trabalho e o fato de causar o afastamento do trabalhador é um fato que chama a atenção, não só por parte do governo, mas do ponto de vista Institucional, organizacional e social. Tornando-se mais um caso de saúde pública. Apesar das estatísticas, as lesões, os envenamentos, doenças neurológicas e as do aparelho respiratório, também chamam a atenção, pois afeta também o psicológico das pessoas e contribui no crescimento dos afastamentos na listagem de licenças concedidas (Barbosa-Branco, 2004).

3. Transtornos Mentais Oriundos do Trabalho

De acordo com a matéria da jornalista Giuliana Girardi no estado de São Paulo, as doenças mentais são a terceira causa que afetam o trabalhador e o incapacitam. A maioria das pessoas não percebe que está doente até que a doença se revele num estágio avançado no qual não há alternativa a não ser afastá-la de suas atividades diárias. Nesse momento, a pessoa sofre o impacto de diversas formas, a primeira delas é a instalação da própria doença, a segunda, o risco de não ter o suficiente para se manter como também o sentimento de desvalorização, de menos valia e de incapacidade. “A Organização Mundial da Saúde estima a ocorrência de índices de 30% de Transtornos Mentais menores e de 5 a 10% de transtornos Mentais graves na população trabalhadora ocupada. Estudos de prevalência de Transtornos Mentais menores em grupos de trabalhadores empregados no Brasil têm encontrado prevalência semelhante a essas: metalúrgicos/São Paulo (%) trabalhadores da Saúde/ São Paulo (20,8%); bancários/Rio de Janeiro (25-26%); condutores de trem de metropolitano/Rio de Janeiro (27,5%). Estudos sobre afastamento do trabalho por doença apontam os Transtornos Mentais à primeira causa de incapacidade para o trabalho em relação ao tempo de afastamento.” (DR. SILVEIRA, RIO DE JANEIRO, 2009).

Os transtornos mentais tem sido uma das principais causas de perda de dias de trabalho. Os transtornos menores quatro dias por ano e os transtornos maiores até duzentos dias por ano (Kessler e Ustun, 2004).

Além do que já foi citado há um gasto de sete bilhões e dois milhões em benefícios da previdência com colaboradores acidentados e aposentadorias especiais (dados do Ministério do Trabalho). Já com a perda por acidentes e demais enfermidades que tem sua relação com o trabalho há uma equivalência de até quatro por cento do Produto Interno Bruto (PIB).

Os fatores de estresse também contribuem para o adoecimento, entre eles podemos citar: sobrecarga de trabalho; organização do tempo no trabalho; nível de participação; possibilidade de desenvolvimento e ascensão da carreira; salários; papel exercido; relações interpessoais; cultura e clima organizacional; interface trabalho/casa (Osha, 2004).

O estresse afeta pessoas diferentes e em níveis diferentes, podendo levar à: violência no trabalho, absenteísmo, queda da produtividade, comportamento aditivo, promiscuidade, compulsão a novas tecnologias, problemas psicológicos como: irritação falta de concentração, dificuldade de tomar decisões, distúrbios do sono, entre outros; Estresse prolongado ou eventos traumáticos podem dar origem aos TM (ansiedade e depressão, etc...).

Por sua vez o estresse afeta também a organização com: Absenteísmo; Rotatividade de pessoal; Problemas disciplinares; Práticas inseguras de trabalho; Desempenho e produtividade diminuídas; Tensão e conflitos entre colegas de trabalho. Prejudicando a imagem da organização e dos trabalhadores, aumentando os processos trabalhistas e ações.

4. Saúde Mental e Produtividade

A saúde mental e a produtividade são questões que sempre estiveram na sociedade, mas de alguma forma delegada ao segundo ou terceiro plano. “Aproximadamente dois terços das pessoas portadoras de doença mental diagnosticável não procuram tratamento. Quando entendem que os transtornos mentais não são o resultado de falhas da moral ou limitações da força de vontade, mas são, antes, doenças legítimas e que são passíveis de resposta com tratamentos, muito do negativo estereótipo que carrega a doença mental termina por ser dissipado.” (Mental Health: A Report from the Surgeon General).

O peso da doença mental na saúde e na produtividade das populações tem sido, há longa data, profundamente subestimado. Dados obtidos através do amplo estudo Global Burden of Disease (A Carga Global da Doença), conduzido pela Organização Mundial de Saúde, Banco Mundial e Universidade de Harvard, revelaram que as doenças mentais, incluindo o suicídio, ocupam o segundo lugar no peso do grupo das doenças que atingem países com economias estáveis, como os Estados Unidos.O amplo e abrangente estudo Global Burden Of Disease avaliou as principais causas de incapacitação (contando anos perdidos de vida saudável). Nos países desenvolvidos, as dez principais causas de anos perdidos nas idades de 15 a 44 anos foram:

(1) Transtorno Depressivo Maior
(2) Abuso de Álcool
(3) Acidentes de Tráfego
(4) Esquizofrenia
(5) Injúrias Auto-Infligidas
(6) Transtorno Bipolar
(7) Uso de Drogas
(8) Transtorno Obsessivo Compulsivo
(9) Osteoartrite
(10) Violência.

(The Global Burden Of Disease" by C.J.L. Murray and A.D. Lopez, World Health Organization, 1996, Table 5.4 page 270)
No Brasil, o auxílio doença por transtornos mentais é a terceira causa de afastamento do trabalho. De acordo com o INSS, o transtorno mental é a terceira causa mais incidente nos requerimentos de auxílio-doença, de uma lista de 17 agrupamentos significativos. Essa doença e as osteomusculares (que se encontra em primeiro lugar) são as que têm mantido curva de crescimento nos requerimentos de auxílio-doença (Boletim da Federação dos Bancários - 2007).

Cito aqui um exemplo de um trabalhador que deu depoimento da evolução de sua doença adquirida através da função exercida no trabalho: Um trabalhador da marinha mercante define seu sofrimento psíquico: “Há proximamente 20 anos, eu ficava observando o pessoal que embarcava comigo e me sentia num manicômio. Criticava o comportamento da maioria de meus colegas e comentava: Fulano de tal é maluco, já viu sicrano? Tem um parafuso a mais, ou seja, o que eu mais via era gente desequilibrada a bordo, principalmente os mais antigos, precisando de ajuda médica. Criticava os comandantes, chefe de máquinas e os imediatos devido a suas atitudes. Com certeza o seu comportamento fugia da normalidade. Conclusão, os anos se passaram aí começaram a criticar o meu comportamento. Muitas vezes vi me chamarem de maluco. Com o passar dos anos me viam assim: O Breno… Aquele cara é doido, falavam assim até para a minha esposa.” “Isso tudo tem a ver com a Fadiga psicológica e mental (termo mais comum, em todo o mundo marítimo, estudado e confirmado pela IMO) que, em parte, na verdade são os Transtornos Mentais Relacionados Ao Trabalho (Que inclui o Sofrimento Psíquico) (Santos, 1999). Essa é uma das doenças ocupacionais reconhecidas pelo INSS.

5. Critérios e Determinações da Legislação Previdenciária Brasileira

O termo: trabalho vem do latim – tripalium e se refere ao local da atividade que o ser humano desenvolve em prol de sua subsistência e, na qual pode lhe proporcionar prazer ou sofrimento. A legislação previdenciária faz uso de modelos de diagnósticos para se adequar à Portaria/MS nº 1339 de 1999, onde consta a lista dos Transtornos Mentais e do Comportamento relacionados ao trabalho. Sendo apropriado o termo NEXO CAUSAL que faz a diferença entre o “dano e/ou a doença e o trabalho”.Os “Transtornos mentais e do comportamento, para uso deste instrumento, serão considerados os estados de estresses pós-traumáticos decorrentes do trabalho” (CID F 43.). O Ministério do Trabalho e o Ministério da Previdência Social reconhecem os Transtornos Mentais advindos da relação do ser humano com o trabalho. Por isso abre precedente para o direito ao benefício acidentário. Dando ao colaborador a oportunidade de afastar-se do trabalho a fim de se tratar.

Estatisticamente no mundo cerca de 5.000 (cinco mil) pessoas falecem diariamente por causa do trabalho. Chegando a um número de 160 milhões por ano no planeta. O que nos leva a pensar que o trabalho para o homem não é apenas sair de casa e passar um horário determinado ou não numa atividade laborativa, é muito mais que isso; faz parte da sua vida vivenciar o trabalho, executar as tarefas, estar numa posição hierárquica dentro da organização, administrar as problemáticas surgidas nesse contexto, além de lidar com a condição para o processo de resistência mental, psicológica e/ou psíquica.

6. Sintomas Frequentes

As pessoas normalmente quando se queixam, os seus sintomas estão relacionados com: dores, formigamento, aperto no peito, mal estar e desânimo, desejo de ver-se livre do confinamento, da sala, do ambiente, das pessoas, da multidão, se sente pesaroso e desconfortável com o fato de “ter” que sair de casa para ir para aquela empresa/órgão/Instituição. Que podem estar ligados à depressão, ansiedade ou estresse. Sintomas como taquicardia, ansiedade, sugerem crise de pânico, agorafobia, excitação exacerbada. Quando sintomas como terror noturno, bruxismo, sensação de ser observado, sensação auditiva, impressão de ver algo ou alguém, ouvir coisas com ou sem significado; revela um quadro bem mais grave, provavelmente direcionados para um surto psicótico. A negação desses sintomas e a negligência em relação aos mesmos provocam a instalação da doença propriamente dita. O sofrimento é inevitável e se estende por muito tempo. Não é como uma fratura que tem tempo para ser curada, restaurada, mas é algo que dói no âmago do ser, reproduzindo agora todo o processo que foi “suportado” durante um bom tempo, só que em forma de dor.

7. Trabalho e Sociedade

O trabalho para a nossa sociedade serve como um avaliador do processo de integração social do indivíduo. É através do valor econômico que a pessoa demonstra o tipo de sustento, provisão, subsistência para si mesmo e para os que o cercam. Aparece até como um dado cultural, onde o sujeito pode ser o trabalhador (empregado), o comerciante, o empresário, profissional liberal ou numa situação variada da condição de autônomo, mas que é o seu modo de ser ou se apresentar diante dos demais. Nesse contexto, os transtornos mentais e do comportamento são interligados, porque são determinados pelos lugares, atividades, relacionamentos pessoais e relação que mantêm com o trabalho em si. O tempo e a ação do trabalho interferem diretamente na interação do corpo e no psíquico de cada pessoa. Portanto, o ato de trabalhar e a forma de se relacionar com a organização, podem produzir sintomas e provocar lesões biológicas como também reações de ordem psíquica, patogênicas, além de favorecer a formação de processos psicopatológicos. E isso está diretamente ligado às condições do trabalho realizadas pelo trabalhador e se essas condições foram boas ou ruins.

Além da importância que o trabalho ocupa na vida das pessoas, a falta de trabalho também gera sofrimento psíquico. Porque ameaça a subsistência do trabalhador e de sua família, além disso, gera baixa da autoestima, desvalorização do eu, desânimo e por vezes desespero.

Pode-se dizer ainda que o trabalho se faz necessário na dinâmica afetiva que se nos investe outros. Por isso o trabalho satisfatório traz alegria, paz, prazer e gera saúde. Ao contrário disso, se torna fonte de ameaças à integridade do ser humano. Caso aconteçam situações como: fracasso, acidente, mudança de posição (tanto para ascender quanto para descender), não reconhecimento, ameaças, mudanças drásticas na política e no clima organizacional gerando inseguranças; muito provavelmente levará o sujeito ao adoecimento.

8. Conclusão

A constituição Federal promulgada a cinco de outubro de 1988, no seu Art. 196 diz:

“A saúde é direito de todos e dever do Estado garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”

Definem-se serviços de saúde como órgão específico que tem por função a melhoria dos níveis de saúde, seja nas áreas de sua promoção e prevenção, seja nas de recuperação e reabilitação.

Os serviços de saúde abarcam não somente os estabelecimentos hospitalares propriamente ditos, mas, também todos os serviços de assistência medica nutricional, odontológico e farmacêutico.

O setor que cuida da saúde mental do trabalhador é o que mais evidencia a crise estrutural e conjuntural que vive a nação brasileira. Sendo isso demonstrado pela população sofrida, que envelhece antes do seu tempo, com problemas de várias origens como: odontológico, alimentício, habitacional, educacional, que busca nos postos de saúde e órgãos do governo destinados a atender a população carente. O modelo econômico e social dos últimos 50 anos, fez com que o tratamento dos trabalhadores sofra transformações quantitativas e qualitativas, de modo a criar condições insuficientes para o tratamento das pessoas acometidas no seu âmbito de trabalho. As estratégias criadas e seguidas por vários segmentos da sociedade quanto ao tratamento dos empregados, como a desospitalização e a não medicalização, vem para contribuir de forma desfavorável para proporcionar um tratamento eficaz aqueles que necessitam da ajuda Médica e Psicológica, assim como afastamento das suas atividades laborativas. Pode-se dizer que falta muito a se fazer nessa área.

Sobre o Artigo:



Artigo apresentado à Pós-graduação Lato Sensu de Psicologia, na Disciplina de Metodologia de Pesquisa, como requisito parcial à obtenção do título de Especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho. Orientadora: Prof.ª Karla Patrícia Barbosa Costa

domingo, 23 de junho de 2013

Psicólogos e Especialistas analisam: Por que há confrontos em manifestações que começam pacíficas?

Além dos números superlativos de pessoas que atraíram para as ruas, as passeatas e protestos que desde a semana passada tomam cidades de todo o Brasil ficaram marcadas por cenas de violência, seja pela forte repressão policial ou por atos de vandalismo cometidos por grupos isolados entre manifestantes que eram, em sua maioria, pacíficos.
Episódios como o dos feridos deixados pela forte repressão da polícia que marcou a manifestação em São Paulo no dia 13 de junho ou as cenas de guerra registradas nos confrontos em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro na última segunda-feira chocaram parte da população e foram destaque na imprensa brasileira e estrangeira.
Especialistas em psicologia, filosofia e ciência política ouvidos pela BBC Brasil afirmam que episódios de vandalismo em eventos de grandes proporções são previsíveis, mas que, no lugar de tomar medidas para prevenir a violência, polícia e outras autoridades acabaram por adotar condutas que abriram o caminho para a existência de mais confrontos
Oportunismo
“Eventos de massa, seja a entrada e saída de estádios, grandes shows, o Réveillon no Rio, uma grande passeata ou um bloco (de carnaval) são oportunidades para ações oportunistas de predação, vandalismo, de roubo”, afirma a antropóloga e cientista política Jacqueline de Oliveira Muniz, professora do IUPERJ, da Universidade Cândido Mendes.
“Passeatas e manifestações coletivas produzem um alto grau de visibilidade política e social, razão pela qual ações vândalas e predatórias oportunistas podem se dar”, diz.
Na avaliação da professora, a previsibilidade de ações desse tipo em eventos que reúnem uma grande quantidade de pessoas deveria ter feito com que não apenas a Polícia Militar, mas outras estruturas de segurança, como policiais civis, bombeiros e ambulâncias, fossem mobilizados para acompanhar as manifestações, assim como acontece no Carnaval e no Réveillon do Rio, por exemplo.
“Essa é a razão pela qual é necessário o aparato de segurança pública, para garantir e preservar o direito de ir e vir e o direito de se manifestar de forma pacífica e, ao mesmo tempo, reduzir a oportunidades de riscos, de acidentes, de incidentes, e mesmo de ações predatórias localizadas”, diz.
A professora ainda critica o modo como parte das autoridades e da mídia trataram as manifestações no início.
“Na verdade quem inaugura a ação violenta são os próprios governos, através das orientações que deram a suas polícias (…) em um primeiro momento (a atitude) foi de criminalização das manifestações populares e espontâneas. As falas eram no sentindo de que se tratava de uma grande baderna, e a sociedade respondeu indo às ruas cada vez mais, repudiando essa leitura”, diz.
Violência
Claudio Oliveira, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF), cita as ideias do pioneiro da psicanálise, Sigmund Freud, para explicar o comportamento das pessoas durante eventos em que comparecem grandes massas, como as manifestações.
Segundo ele, em situações de massas, os indivíduos acabam por tomar atitudes que não teriam se estivessem sozinhos ou em pequenos grupos.

“Há uma espécie de diminuição da pressão das inibições que constituem a vida social. O indivíduo em uma massa pode assumir um comportamento violento, ele pode assumir um comportamento que ele não teria em condições normais. Esta teoria vale tanto para o comportamento da polícia quanto para o comportamento de alguns grupos que integram a grande massa dos manifestantes”, diz.
O filósofo, no entanto, afirma que questões sociais podem fazer com que determinadas pessoas acabem por encontrar nas atitudes violentas um recurso para expressar sua insatisfação.
“No caso atual, esses fenômenos de violência ocorrem em geral isolados. A maioria dos manifestantes tem uma atitude muito pacífica, inclusive gritam palavras de ordem pacifistas. Apesar disso, parece que há alguns que buscam se manifestar a partir dessa violência. A gente precisa saber o que esses jovens pensam da própria violência que eles assumem nessas manifestações”.
Para Oliveira, no caso das recentes manifestações que tomam as cidades brasileiras, no entanto, estão em jogo também outros aspectos. Em sua avaliação, a violência com que a polícia reprimiu as primeiras manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus serviu como uma espécie de catalisador para que outras pessoas se juntassem ao movimento, expressando outras insatisfações.
“As manifestações começaram com um objetivo muito específico, mas se tornaram manifestações onde as pessoas iam para protestar contra uma quantidade enorme de coisas, com as quais a população brasileira não está satisfeita”, diz.
Direitos.
Marco Aurélio Máximo Prado, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que parte dos episódios de violência nas manifestações recentes podem também ter relação com o despreparo de polícia e outras autoridades para lidar com o modo como foram organizadas.
“Obviamente que há um despreparo da polícia para lidar com essa forma de protesto. São protestos que não tem características organizativas clássicas, então não têm liderança específica”, diz Prado, para quem a forma espontânea como foram organizados também faz com que alguns manifestantes isolados acabem por tomar atitudes violentas.
Para ele, a grande adesão e a pluralidade de bandeiras presentes nos protestos refletem uma insatisfação maior da população, com questões que passam, entre outras coisas, pelo modo como os grandes eventos como a Copa do Mundo estão sendo organizados no Brasil.
“As cidades que são sedes da Copa (das Confederações) estão vivendo uma certa suspensão dos direitos, do direito de protesto, que é um direito básico da democracia, e do direito de ir e vir”.
“Há uma certa suspensão de direitos conquistados que está gerando uma faísca importante. Agora eu considero que esses atos políticos não são atos de negociações, são atos de rebeldia civil. São um sintoma de que a constitucionalidade não está funcionando, são um corretivo de um norma que não está funcionando, que está falha”, diz.

Fonte: BBC Brasil

Psicólogos e movimentos sociais protestam contra projeto da “cura gay”



21/06/2013 -
Daniel Mello
Repórter da Agência Brasil

São Paulo – Mais de mil pessoas se concentraram na Praça Roosevelt, centro paulistano, para protestar contra o projeto da “cura gay” que tramita na Câmara dos Deputados. A proposta revoga  dos trechos da Resolução nº 1/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que proíbe os profissionais da área de participar de terapia para alterar a orientação sexual e de atribuir caráter patológico (de doença) à homossexualidade.
O projeto, de autoria do deputado João Campos (PSDB-GO), foi aprovado na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) na última terça-feira (18). O texto, no entanto, ainda precisa ser votado pelas comissões de Seguridade Social e Família e de Constituição e Justiça (CCJ)
Após a concentração com discursos e música, os manifestantes subiram a Rua da Consolação até a Avenida Paulista. O protesto foi organizado pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo com apoio de movimentos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT).
“É inadmissível essa proposta de 'cura gay'. Nós não aceitamos a homossexualidade como doença”, disse a presidenta do conselho, Maria de Fátima Nassif. “O psicólogo pode, se for procurado, tratar um homossexual tranquilamente, mas, para ajudá-lo com o sofrimento que ele possa ter advindo da sua condição ou não. Sofrimento por homofobia, por opressão ou outros da natureza humana”, acrescentou ao enfatizar que considera o projeto uma ingerência no exercício da psicologia.
A estudante de serviço social, Rita de Cássia, disse que se sente discriminada pela proposta. “Se a gente é igual perante as leis, porque não os nossos direitos?”, questionou. Enquanto o estudante de direito, Jonas Del Nobile, acredita que falta sensibilidade dos legisladores para ouvir a sociedade. “É muita arrogância, muita prepotência, muita falta de consideração que essas coisas aconteçam sem que você consulte as pessoas se isso realmente interessa para a população”, criticou.
Para a veterinária Carolina Parsekian as discussões sobre o projeto ajudaram a trazer à tona o preconceito velado contra os homossexuais. “Eu sempre fui simpatizante com o movimento gay, tenho vários amigos gays. Eu acho que o Brasil tem um preconceito velado”.

Edição: Fábio Massalli

sábado, 15 de junho de 2013

Esquizofrênico registra em livro a experiência de enlouquecer

CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO


Jorge Cândido de Assis, 49, no departamento de psiquiatria da Unifesp, em São Paulo
Ex-aluno de física e de filosofia da USP, Jorge Cândido de Assis carrega no corpo das marcas da esquizofrenia. Aos 21, durante uma crise, ele se jogou contra um trem do metrô e perdeu uma perna.
Hoje, aos 49 anos, cinco crises psicóticas, ele dá aulas sobre estigma em um curso de psiquiatria e acaba de lançar um livro no qual descreve a experiência de enlouquecer. "Entre a Razão e a Ilusão" (Artmed Editora) foi escrito em parceria com o psiquiatra Rodrigo Bressan e com a terapeuta Cecilia Cruz Villares, da Unifesp.
Leia o depoimento dele.
"Tive uma infância tranquila, jogando bola na rua. Aos 14 anos, entrei na escola técnica e já sabia trabalhar com eletricidade. Adorava física.
Em 1982, prestei vestibular para física na USP e não passei. Em 1983, fiz cursinho, prestei de novo e não passei.
Consegui uma bolsa no cursinho, passei perto e não entrei de novo. Foi um ano depressivo para mim. Eram os primeiros sinais da esquizofrenia, mas eu não sabia.
Eu me isolei, tinha delírios. O desfecho foi trágico. Numa manhã de domingo, entrei na estação do metrô Liberdade. Escutei uma voz: "Por que você não se mata?". Me joguei na frente do trem.
Acordei três dias depois no hospital sem a minha perna direita. Tinha 21 anos.
Foi bem sofrido, mas coloquei toda minha energia e determinação na reabilitação. Quatro meses depois, já estava com a prótese.
Sozinho, voltei a estudar para o vestibular e passei em física e fisioterapia na Universidade Federal de São Carlos. Meu sonho era desenvolver uma prótese melhor e mais barata do que as versões que existiam naquela época.
Um dia, em 1987, cheguei em casa e ela havia sido arrombada. Tive que ir até a delegacia dar queixa e reconhecer os objetos furtados.
Isso desencadeou a segunda crise psicótica. Tinha delírios de grandeza, alucinação, mania de perseguição.
Fui internado em Itapira durante um mês. Saí de lá com diagnóstico de esquizofrenia, medicado mas sem encaminhamento. Um dos remédios causava enrijecimento da musculatura e eu não conseguia escrever. Então parei de tomar a medicação e comecei a fazer tratamento em centro espírita.

Voltei a estudar em São Carlos. Depois da crise, perdi muitos amigos por puro estigma. Comecei a trabalhar, paralelamente aos estudos, mas ficou pesado demais. Preferi desistir do curso.
Em 1993, prestei vestibular na USP e passei. Foi mágico, a realização de um sonho. Continuei trabalhando, mas cheguei num ponto de saturação e desisti do curso.
Minha vida foi perdendo o sentido, vivia por viver. Me sentia vazio de emoções.
Nesse período, fazia parte de um grupo de pesquisa na USP. Mas, por uma série de divergências, o grupo se desfez. Ao mesmo tempo, meu namoro acabou. Esses dois fatores desencadearam minha terceira crise.
Foi uma crise também com delírios, alucinações, isolamento. Fiquei um mês internado. Foi aí que comecei a me tratar de esquizofrenia de fato. Além das medicações, fazia psicoterapia, terapia ocupacional e prestei vestibular para filosofia na USP. Passei. Sentia-me tão bem que disse: "Superei a esquizofrenia. Vou parar com os remédios".
Minha mãe morreu em 2002 e, em seguida, tive a minha quarta crise, que também foi controlada com remédios. É como começar do zero.
Entre 2003 e 2007, participei de um grupo de pacientes com esquizofrenia em que discutíamos a doença, as vivências, as formas de comunicação. Em 2005, o [psiquiatra] Rodrigo Bressan me convidou para participar das aulas dele contando a minha experiência pessoal, sobre o estigma. Em 2007, surgiu o projeto do livro sobre direitos de pacientes com esquizofrenia.
Foi um processo de criação intenso durante 18 meses. Em 2008, o Rodrigo me convidou para deixar de ser paciente e entrar para a equipe dele. Foi uma grande oportunidade.
No início do ano passado, fui palestrar em Londres sobre o nosso trabalho. Quando estava voltando, fizemos uma escala em Madri.
Sentia muita dor na perna e pedi uma cadeira de rodas. Esperei e nada.
Tirei a perna mecânica, coloquei na bolsa e fui pulando até a sala de embarque. Todo esse estresse me levou à quinta crise. Ela foi rapidamente controlada, mas é um processo difícil retomar a rotina anterior, ressignificar as coisas para que a vida faça sentido.
Depois das crises, tenho que renascer das cinzas. Muitas pessoas desistem. Precisa de uma grande dose de esforço para reconstruir a vida.
A medicação ajuda, mas não é garantia. Consigo lidar com as demandas da vida, mas nunca sei se o que sinto é ou não da doença.
Não ouço mais vozes, mas tenho autorreferência. Penso que tudo ao meu redor tem a ver comigo. Se ouço um barulhinho lá fora, acho que pode ter câmera escondida.
Se as pessoas estão conversando no corredor, acho que estão falando sobre mim.
O delírio é inquestionável, você acredita nele. Mas tenho clareza do que é autorreferência, deixo para lá.
Tenho que saber os meus limites. O referencial para a gente é o mundo exterior, a relação das pessoas.

Muitas vezes, o início das crises não é percebido. Por isso é importante dividir com o médico, com a família.
O estigma também é muito prejudicial. Ser apontado como o louco ou ser desacreditado só piora. A esquizofrenia é uma doença crônica, que afeta as emoções, os relacionamentos, as vontades.
Tenho sorte de ter uma família unida, que me apoia. Isso dá sentido à minha vida.
Olho para trás e confesso que me sinto frustrado por ter começado duas vezes física, em duas das melhores universidades, e não ter concluído.
Mas fico feliz com o trabalho de poder ajudar outras pessoas com a minha história. As pessoas sofrem no Brasil pela falta de locais para a troca de informações.
Minha meta agora é construir uma rede de associações de apoio a pacientes com esquizofrenia.
Eu não sou só a doença, e a doença não me define.

Tenho que lidar com a esquizofrenia, mas ela não é a parte mais fundamental da minha vida."

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Pesquisadores estudam autismo usando dentes de leite de crianças


agencia Brasil


Para entender o autismo, um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o professor Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, está desenvolvendo um projeto chamado A Fada do Dente. Durante o estudo, os pesquisadores têm coletado dentes de leite de crianças com autismo para – a partir das células da polpa (parte mole e avermelhada) – transformá-las em células-tronco diferenciadas em neurônios. Com isso, pretendem identificar as diferenças biológicas existentes nos neurônios com autismo, estudar o funcionamento e testar drogas.
“O foco do estudo é procurar entender o que acontece dentro do cérebro do paciente com autismo”, disse Patrícia Beltrão Braga, bióloga, professora da USP e coordenadora da pesquisa no país. Segundo ela, para que isso ocorra, seria preciso acessar as células que estão dentro do cérebro dos autistas. A ideia, então, foi recriar um modelo análogo, baseado na técnica desenvolvida pelo japonês Shinya Yamanaka, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina no ano passado.
Ele desenvolveu um método de reprogramação de uma célula já adulta transformando-a em uma célula-tronco semelhante às embrionárias, ou seja, as células adultas são rejuvenescidas até a fase correspondente a seis ou sete dias após a fecundação do óvulo. “A partir deste momento, pegam-se essas células e se produzem os neurônios, já que essas células embrionárias têm a capacidade de virar qualquer tecido ou órgão do corpo”, explica a pesquisadora.
Patrícia aprendeu a técnica de reprogramação celular desenvolvida por Yamanaka em 2008, quando foi aos Estados Unidos. Um ano depois começou a aplicá-la aqui no Brasil a partir das células de polpa de dentes de leite. “Pegamos as células de polpas de dentes de leite e produzimos as células embrionárias, que não são embrionárias de verdade e são chamadas de pluripotentes induzidas [técnica que rendeu o prêmio a Shinya Yamanaka]”, disse. “A gente programa essas células como se as puséssemos numa máquina do tempo: elas [células] voltam no tempo e viram células semelhantes às embrionárias para que depois consigamos induzir essas células a se diferenciarem e a produzir neurônios”, acrescentou.
A escolha pelas células da polpa do dente de leite se deu, segundo Patrícia, principalmente pela facilidade de obtenção. Mas ela também apontou outras vantagens: “Vimos que usando a célula da polpa do dente o procedimento seria um pouco mais rápido. E outra coisa: a origem embrionária das células dos dentes e do sistema nervoso é a mesma, e a gente acredita que ela possa se diferenciar mais facilmente em célula do cérebro do que outras que pudéssemos escolher. Por último, esse dente cai e a pessoa o jogaria fora.”
De início, o estudo pretende somente investigar a doença. Depois, disse Patrícia, os pesquisadores também pretendem fazer experimentações com medicamentos para ver se é possível reverter os sintomas do autismo. “O autismo é uma doença neurodegenerativa, classificada por uma tríade: basicamente o paciente tem uma dificuldade de atenção – ou, muitas vezes, a criança não fala direito – dificuldade de sociabilidade, ou seja, de se fazer amigos. Pode-se também ter alterações de comportamento.”
Os pais cujos filhos são diagnosticados com autismo podem ajudar no projeto entrando em contato com os pesquisadores por meio do e-mail projetoafadadodente@yahoo.com.br. Os pais cadastrados recebem então um kit para recolher o dente do filho quando ele cair. O kit é composto por um frasco com um líquido para preservar as células, gelo reciclável e uma caixa de isopor para mantê-las vivas. O único custo para os pais é com as despesas de envio do kit pelo correio.

Mas caso o dente de leite da criança caia e o kit não esteja por perto, a indicação é colocá-lo dentro de um copo com água filtrada e deixá-lo na geladeira para que a polpa não seque e as células não morram. O dente precisa ser colhido com rapidez para que seja viável o uso das células e não pode ser congelado.