Nossa capacidade de imaginar o que se passa é como uma faca
de dois gumes. O engano mais comum - e de graves consequências para as relações
interpessoais - não é imaginarmos as sensações de uma outra pessoa, e sim
tentarmos prever que tipo de reação ela terá diante de uma certa situação.
Costumamos pensar assim: "Eu, no lugar dela, faria
desta maneira." Julgamos correta a atitude da pessoa quando ela age da
forma que agiríamos. Achamos inadequada sua conduta sempre que ela for diversa
daquela que teríamos. Ou melhor, daquela que pensamos que teríamos, uma vez que
muitas vezes fazemos juízos a respeito de situações que jamais vivemos.
Quando nos colocamos no lugar de alguém, levamos conosco
nosso código de valores. Entramos no corpo do outro com nossa alma. Partimos do
princípio de que essa operação é possível, uma vez que acreditamos piamente que
as almas são idênticas; ou, pelo menos, bastante parecidas.
Cada vez que o outro não age de acordo com aquilo que
pensávamos fazer no lugar dele, experimentamos uma enorme decepção.
Entristecemo-nos mesmo quando tal atitude não tem nada a ver conosco.
Vivenciamos exatamente a dor que tentamos a todo o custo evitar, que é a de nos
sentirmos solitários neste mundo.
Sem nos darmos conta, tendemos a nos tornar autoritários,
desejando sempre que o outro se comporte de acordo com nossas convicções. E
assim procedemos sempre com o mesmo argumento: "Eu no lugar dele agiria
assim."
A decepção será maior ainda se o outro agiu de modo
inesperado em relação à nossa pessoa. Se nos tratou de uma forma rude, que não
seria a nossa reação diante daquela situação, nos sentimos duplamente traídos:
pela agressão recebida e pela reação diferente daquela que esperávamos. É
sempre o eterno problema de não sabermos conviver com a verdade de que somos
diferentes uns dos outros; e, por isso mesmo, solitários.
Aqueles que entendem que as diferenças entre as pessoas são
maiores do que as que nos ensinaram a ver desenvolvem uma atitude de real
tolerância diante de pontos de vista variados a respeito de quase tudo. Deixam
de se sentir pessoalmente ofendidos pelas diferenças de opinião.
Podem, finalmente, enxergar o outro com objetividade, como um
ser à parte, independente de nós. Ao se colocar no lugar do outro, tentarão
penetrar na alma do outro, e não apenas transferir sua alma para o corpo do
outro. É o início da verdadeira comunicação entre as pessoas.
autor: Flávio Gikovate
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