Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.

Carl Rogers

sábado, 21 de fevereiro de 2015

‘Não tenho tempo pro não essencial’, diz neurologista com câncer terminal - Oliver Sacks

O neurologista britânico Oliver Sacks, 81 anos, anunciou hoje que está com câncer em estágio terminal, em um texto publicado no “New York Times” e logo replicado em todo o mundo.
O escritor e professor da Escola de Medicina da Universidade de Nova York afirma no artigo, intitulado “Minha própria vida”, que se sentia saudável até um mês atrás, quando foi diagnosticada uma metástase no fígado.

O cientista conta que, há nove anos, tratou de um raro melanoma ocular que tinha apenas 2% de chance de sofrer uma metástase e ele está neste grupo. “Minha sorte acabou.”

No texto, sóbrio e poético, Sacks diz se sentir grato por ter tido “nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original". "Mas agora estou de cara com a morte”, afirma.

E segue: “Depende de mim escolher como quero viver os meses que me restam. Tenho que viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que puder”.

O autor de livros de não ficção de sucesso como “Tempo de Despertar” e “O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu” diz que se sente “intensamente vivo” e conta o que quer, no tempo que lhe resta: "Aprofundar minhas amizades, dizer adeus aos que amo, escrever mais, viajar”.

Segundo ele, tentará acertar as contas com o mundo e, também, se divertir e fazer algumas bobagens.

Sacks diz que está focado: “Não há tempo para nada não essencial. Tenho de me concentrar em mim mesmo, meu trabalho, meus amigos”. Notícias sobre política ou aquecimento global não terão mais sua atenção. Explica: “Estes não são mais meus problemas; eles pertencem ao futuro”.

Encerra reafirmando que seu sentimento predominante não é o medo, mas de gratidão. “Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal pensante, neste lindo planeta, o que tem sido um enorme privilégio e aventura”.

Por QSocial, com informações do “New York Times”


*Este texto faz parte do projeto Geração Experiência, que tem como objetivo mostrar histórias de pessoas com mais de 60 anos que são inspiração para outras de qualquer idade.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Acúmulo compulsivo

Publicação Jornal Psi Edição 180 - 2014

De um em um. Mais alguns. E outros tantos. A soma não tem fim, ou melhor, perde-se a conta. O Acúmulo Compulsivo, ou Disposofobia, é uma condição que se materializa rapidamente. Entrar nesse universo é um processo que acontece quando já não é mais possível nem passar pela porta. A intervenção é um desafio. Diagnosticar os sinais (leia box) não basta. É preciso entender contextos de vida que tornam cada caso único.


 
Funcionários da Prefeitura em ação de remoção de entulho; operação lotou 20 caminhões
Falar sobre a questão do acúmulo compulsivo em nossa sociedade nos remete a uma análise crítica sobre as formas preponderantes de sociabilidade frente a inúmeras mercadorias que, incessantemente, são apresentadas a todos como úteis e necessárias. Nesse sentido, é importante compreender essa condição também como um desdobramento típico da vida em uma sociedade capitalista , sendo que o acúmulo compulsivo nos revela, de alguma forma, uma expressão da compulsividade e reificação que se dá socialmente .

Isso exige, no campo da Psicologia, estratégias de acompanhamentos e intervenções. E descobertas são bem-vindas para compreender a evolução desse sofrimento e tratá-lo adequadamente.

O que a prática revela
Muitos casos só vêm à tona de modo dramático. Movidos por denúncias de vizinhos e pelo cumprimento de mandados judiciais, os serviços públicos de grandes cidades, como São Paulo por exemplo, se deparam com aspectos que tornam ainda mais complexa a tarefa de remover o excesso de materiais inservíveis e de animais dos domicílios das pessoas.

"Ao investigarmos situações que expõem comunidades a um risco, constatamos que, no centro desse problema, estão indivíduos que necessitam de cuidado", afirma a psicóloga Regina Gomes, assistente técnica na área de Saúde Mental da Supervisão de Saúde - Vila Maria/Vila Guilherme, ligada à Secretaria Municipal de Saúde.

Segundo Regina, desde 2012 acontecem articulações com vários órgãos da saúde pública para acompanhamento de casos com esse perfil, na zona norte da capital paulista. Esse trabalho é compartilhado pela psicóloga clínica Sueli Maciel, do Serviço Social e Psicologia do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de São Paulo.

"Lidamos com situações em nível de gravidade extremo, para vistoriar falta de higiene ou maus tratos com animais. O Acúmulo Compulsivo impacta o próprio sujeito e o seu entorno. Ambos precisam ser cuidados. Desde 1996, esse é o foco do meu trabalho junto aos veterinários e biólogos do CCZ", conta Sueli.

Resgate de vínculos
O propósito de remoção de objetos e animais transforma-se em pano de fundo para uma cuidadosa abordagem quando o indivíduo é diagnosticado como acumulador compulsivo. Um passo inicial - decisivo para a continuidade do cuidado - é o resgate do convívio social, perdido com o avanço dessa condição.

"O Acúmulo Compulsivo impacta o próprio sujeito
e o seu entorno. Ambos precisam ser cuidados. Desde 1996 esse é o foco do meu trabalho junto aos veterinários e biólogos do CCZ"
Sueli Maciel

"Temos de reconstruir com ele vínculos que não existem mais com a família ou amigos, com a comunidade, com os serviços públicos. Reverter um isolamento gerado pela cronicidade", comenta Regina. Segundo a psicóloga, as estratégias seguirão o ritmo da pessoa, e não necessariamente os passos do protocolo estabelecido. Isso requer várias visitas. E as "brechas" reveladas dirão como prosseguir e quando envolver a assistência social e os outros especialistas da área da saúde.

"Tentamos conhecer seu histórico pessoal e social, para entender o que deseja com aquela situação. Ouvir a pessoa é fundamental para traçar o caminho da intervenção. Avaliamos até a necessidade de atendimento de retaguarda, caso ocorra um surto ao confrontá-la com seu problema", aponta Sueli.

Contextos diversos
Nesse monitoramento, Regina e Sueli descobrem - além das situações estressantes que funcionaram como gatilho - uma diversidade de contextos do cotidiano, que dão contorno à problemática vivida pela pessoa. E observam que a perda do controle sobre o que é acumulado leva a outros acúmulos: de descuidos com a própria saúde, de dificuldades financeiras, de multas relacionadas ao problema, que são ignoradas e chegam quase ao valor do imóvel em que a pessoa reside.

Há excessos que remetem a uma privação vivenciada no passado, durante uma guerra, por exemplo, em alguns casos. Por trás da coleta desordenada de materiais para reciclagem, existe o sonho de ter um negócio próprio. Há a compulsão por ofertas, com a compra de produtos sem critério ou necessidade. Ou ainda uma carência afetiva, projetada para animais de estimação.

"Devemos ser terapêuticos já na intervenção, para que seja mais cuidadosa e menos estigmática", explica Sueli. Para ela, os reality shows na TV sobre o tema fortalecem o preconceito, ao focarem mais no problema do que na solução.

Em boa parte dos casos, o sofrimento aparece associado a outras condições como demência em idosos, depressão e esquizofrenia ou mesmo a dependência do álcool.


A complexidade desse quadro pode acometer qualquer segmento social. "Acomete homens e mulheres de todas as classes socioeconômicas, com casa própria ou não, dos que possuem boa renda até os que vivem em situação de pobreza. A incidência entre idosos é grande, mas ocorre também na maturidade e, com menos frequência, entre os jovens."

Sinais de acúmulo compulsivo

Acúmulo sem organização, utilidade ou lógica pré-estabelecidas - ao contrário do colecionismo ou mesmo do TOC, em que se observa a existência de um ritual.

- Incapacidade de jogar fora objetos ou doar animais recolhidos em excesso.
- Perda de controle sobre o que foi recolhido - a insalubridade passa a caracterizar uma condição de vida.
- O propósito da moradia é desvirtuado - todos os ambientes são gradativamente deteriorados e ocupados para abrigar o que é acumulado.
- Opção pelo isolamento, geralmente após o confronto por familiares, amigos ou vizinhos - a perda dos vínculos de convívio social é motivada por vergonha ou pela incapacidade de lidar com o problema.
- Prejuízo da crítica, com falta de percepção e grande resistência para aceitar que o acúmulo seja um problema - o nível de gravidade de cada caso será determinante para definir como sensibilizar a pessoa e conseguir dar o encaminhamento adequado.

Acúmulo de animais
O excesso de animais é um quadro ainda mais complicado - por causa da existência de uma relação afetiva, principalmente com cachorros e gatos. A crença de poder cuidar muito bem de dezenas, e até centenas deles, transforma-se em uma incapacidade não mais percebida pelo acumulador.


"A maioria é de mulheres idosas, divorciadas ou viúvas, que vivem sozinhas. Tratam os animais como seus filhos. Gastam com eles toda a renda; a casa é deles. Propor a remoção dos bichos para adoção exige um cuidado enorme ao confrontá-las, pois nesse perfil, em particular, existe um apego muito grande", descreve Sueli.
 
Diálogo e prevenção
Segundo Regina, um seminário realizado em outubro desse ano, pela Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, deu destaque à questão. "Reunimos cerca de 650 profissionais do setor público de todo o Brasil. Foi o pontapé inicial para envolvermos na discussão instâncias que podem pensar em uma política pública abrangente para essa problemática."

Um aspecto preventivo - que se aplica a adultos e crianças - é a atenção com o consumismo exagerado. "Somos induzidos a adquirir mais coisas. Mas podemos fazer do ato de doar algo tão prazeroso quanto comprar", lembra Regina.

Mais sobre o tema
- O artigo sobre o estudo do pesquisador David Tolin, no jornal da American Medical Association:
http://archpsyc.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1307558&resultClick=3

- O blog criado pela Supervisão de Saúde - Vila Maria/Vila Guilherme, da Secretaria Municipal de Saúde de SP:
http://acumulocompulsivo.blogspot.com.br/

domingo, 8 de fevereiro de 2015

SE COLOCAR NO LUGAR DO OUTRO



Uma das operações psíquicas mais sofisticadas que aprendemos, lá pelos 7 anos, é esta, de tentarmos sair de nós mesmos para imaginar como se sentem as outras pessoas. De repente podemos olhar para a rua num dia de chuva e imaginar - o que, de certa forma, significa sentir - o frio que um outro menino pode passar por estar mal agasalhado.
Nossa capacidade de imaginar o que se passa é como uma faca de dois gumes. O engano mais comum - e de graves conseqüências para as relações interpessoais - não é imaginarmos as sensações de uma outra pessoa, e sim tentarmos prever que tipo de reação ela terá diante de uma certa situação.

Costumamos pensar assim: "Eu, no lugar dela, faria desta maneira." Julgamos correta a atitude da pessoa quando ela age da forma que agiríamos. Achamos inadequada sua conduta sempre que ela for diversa daquela que teríamos. Ou melhor, daquela que pensamos que teríamos, uma vez que muitas vezes fazemos juízos a respeito de situações que jamais vivemos.

Quando nos colocamos no lugar de alguém, levamos conosco nosso código de valores. Entramos no corpo do outro com nossa alma. Partimos do princípio de que essa operação é possível, uma vez que acreditamos piamente que as almas são idênticas; ou, pelo menos, bastante parecidas.

Cada vez que o outro não age de acordo com aquilo que pensávamos fazer no lugar dele, experimentamos uma enorme decepção. Entristecemo-nos mesmo quando tal atitude não tem nada a ver conosco. Vivenciamos exatamente a dor que tentamos a todo o custo evitar, que é a de nos sentirmos solitários neste mundo.

Sem nos darmos conta, tendemos a nos tornar autoritários, desejando sempre que o outro se comporte de acordo com nossas convicções. E assim procedemos sempre com o mesmo argumento: "Eu no lugar dele agiria assim."

A decepção será maior ainda se o outro agiu de modo inesperado em relação à nossa pessoa. Se nos tratou de uma forma rude, que não seria a nossa reação diante daquela situação, nos sentimos duplamente traídos: pela agressão recebida e pela reação diferente daquela que esperávamos. É sempre o eterno problema de não sabermos conviver com a verdade de que somos diferentes uns dos outros; e, por isso mesmo, solitários.

Aqueles que entendem que as diferenças entre as pessoas são maiores do que as que nos ensinaram a ver desenvolvem uma atitude de real tolerância diante de pontos de vista variados a respeito de quase tudo. Deixam de se sentir pessoalmente ofendidos pelas diferenças de opinião.

Podem, finalmente, enxergar o outro com objetividade, como um ser à parte, independente de nós. Ao se colocar no lugar do outro, tentarão penetrar na alma do outro, e não apenas transferir sua alma para o corpo do outro. É o início da verdadeira comunicação entre as pessoas.
autor: Flávio Gikovate

Autonomia e Superação - Edição Psique Ciência e Vida dezembro de 2014

Olá Amigos nesta edição da Revista falo sobre Autonomia e Superação de Pessoas com Deficiência do ponto de Vista da Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers.
Espero que gostem do resultado!!!

abcs